Antes mesmo de ser coroado rei em 6 de maio — finalmente, aos 74 anos —, Charles III partiu com sua consorte Camilla para um tour pela Europa. Paris seria o pouso inicial, mas com a França pegando fogo por manifestações e greves contra a reforma previdenciária, a opção foi desistir da Cidade-Luz e começar pela Alemanha — apesar de o país também não estar vivendo dias tão tranquilos, depois de passar por sua maior greve geral em 30 anos. Foi assim que o casal real desembarcou em Berlim no fim de março, cumprindo o papel de relações públicas, para ajudar o primeiro-ministro Rishi Sunak na reaproximação do Reino Unido com a União Europeia. Com o desastre da economia britânica depois da saída do bloco em 2020, mais pandemia e guerra na Ucrânia, a tentativa britânica é de remendar laços com a Europa e também se lançar para o mundo.

A inflação havia surpreendido economistas do reino em fevereiro. Esperavam queda para 9,9% depois dos 10,1% de janeiro, mas se depararam com a subida para 10,4%. Ainda que distante dos 11,1% de outubro passado — recorde em 41 anos —, a manutenção do índice em dois dígitos assustou. Em meio a esse cenário e sem o prestígio da mãe, Elizabeth II, que reinou querida por 70 anos até falecer em 2022, volta e meia o filho enfrenta súditos gritando pelas ruas londrinas “Charles não é meu rei!”. Atravessar o Canal da Mancha não livrou o monarca das provocações. Até no passeio ao Portão de Brandenburgo, ponto icônico da capital alemã onde cumprimentou fãs da realeza, lhe ofereceram uma coroa de papel — da rede de fast food que, em português, se chama Rei do Hambúrguer. Charles III mostrou presença de espírito e se saiu bem, recusando educadamente.

Foi sua primeira viagem oficial como rei (título que recebeu oficialmente mesmo antes da coroação, como manda o protocolo) — e, portanto, como chefe de Estado. Por isso, a recepção ficou a cargo do presidente Frank-Walter Steinmeier, que lembrou o Brexit como “um dia triste, pessoalmente e para muitos na Alemanha”, antes de encaminhar o rei britânico para o primeiro-ministro Olaf Scholz. No papel de reconstrutor de pontes diplomáticas, Charles III visitou o Parlamento alemão e tocou em um tema que reconhecidamente lhe é caro — o meio ambiente: alertou sobre a necessidade vital de esforços pelos políticos para reduzir as emissões de carbono no planeta, que chamou de “desafio existencial”. E enquanto seu retrato oficial — usando uma simbólica pulseira indígena — era divulgado no Reino Unido, o rei ainda destacava a “coragem” da Alemanha no apoio militar à Ucrânia e a “generosidade” do país no acolhimento a refugiados.

A menos de um mês da coroação, Charles III viaja pela Europa em busca de parceiros
EM MISSÃO OFICIAL Charles III visitou o Portão de Brandenburgo, em 29 de março, com o presidente alemão Frank-Walter Steinmeier (Crédito:KAY NIETFELD)

Em casa, como chefe de Estado, Charles III tem reuniões semanais com o primeiro-ministro, a quem os desafios do pós-Brexit dizem respeito de fato. Em fevereiro, por exemplo, Rashi Sunak fechou o delicado acordo que distendeu regras comerciais entre a Irlanda do Norte (território britânico) e a Irlanda (país da União Europeia) ao longo de 500 quilômetros de fronteira. Mesmo com poder apenas simbólico, Charles III é favorecido pelo fascínio que a família real desperta e pode ajudar o Reino Unido a abrir acessos privilegiados na UE, diz Roberto Goulart Menezes, do Instituto de Relações Internacionais da UnB. Como o futuro da Inglaterra parece difícil, com a população vivendo apertada e previsões de que a renda per capita cairá abaixo da Polônia, Charles III tenta cumprir um papel político na Europa, observa o professor, enquanto distribui convites para que sua coroação seja prestigiada.

10,4% foi a inflação do Reino Unido em fevereiro, quando se esperava baixa para um dígito; renda per capita vem caindo e assusta

E se o centro financeiro mundial já estava se deslocando de Londres para o continente, na observação de Menezes, o tour de Charles visa à reconstrução de relações com países como França e Alemanha, mas não apenas. Além dos laços fortes e seculares com os EUA, o professor explica que a Inglaterra tende a se lançar também para os lados de Mercosul e China. Em busca de laços globais, o primeiro-ministro Sunak já aderiu ao Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica (CPTPP na sigla em inglês), “o maior desde o Brexit”, que conta com Canadá e Japão (membros do G7, dos países mais ricos do mundo), além de Austrália, Nova Zelândia, México, Chile, Peru, Malásia, Singapura, Vietnã e Brunei. Com o CPTPP, a expectativa é por um crescimento de 1,8 bilhão de libras esterlinas ao ano a longo prazo.

007 vai salvar o rei

Enquanto o herdeiro de Elizabeth II é testado em carisma e habilidade frente à nova realidade geopolítica internacional como agente do soft power britânico, uma editora já preparou um livro com o protagonista James Bond salvando o rei justamente a dois dias do início de sua confirmação na Abadia de Westminster. É uma atualização do “On Her Majesty’s Secret Service”, de 1963, agora sob o título no masculino: “On His Majesty’s Secret Service” (a serviço secreto de sua majestade, em tradução livre). O lançamento será no dia em que a trama da história começa: 4 de maio. Corinne Turner, diretora da editora Ian Fleming Publications, comentou que Charles III ficou “encantado” com a proposta de ter sua coroação de 6 de maio salva pelo mais famoso agente secreto do mundo… da ficção.