Comportamento

Um recorde em nome da igualdade

Fora dos gramados ou dentro deles, a cracassa Marta luta pela isonomia entre os gêneros, não só no futebol mas em todos os campos sociais. Ela tem autoridade para isso: nenhuma mulher e nenhum homem marcaram tantos gols quanto ela em copas do mundo

Crédito: Divulgação

FORÇA TOTAL Na chuteira, a denúncia contra os baixos patrocínios: coragem de mulher (Crédito: Divulgação)

A maior estrela do futebol brasileiro usa batom:

Marta!

A maior estrela do futebol brasileiro tem preocupações sociais no campo da igualdade de gêneros:

Marta!

A maior estrela do futebol brasileiro é recordista no número de gols marcados em campeonatos mundiais:

Marta!

Tudo é Marta, então? Sim, tudo é Marta nesse ano de 2019, quando se completa quatro décadas que o futebol feminino foi legalmente permitido no Brasil – antes de 1979 era totalmente proibido e, pior que isso, mulher querer jogar bola era motivo de chacota. E tudo é Marta, também, porque na terça-feira 18 deve-se principalmente a ela a vitória da seleção brasileira contra a da Itália. Marta, mesmo mancando devido a uma contusão, marcou de pênalti o único tento da partida. Foi seu décimo sétimo gol em copas do mundo e, dessa forma, ela se tornou a maior artilheira nesse tipo de competição, superando o alemão Klose, que mandou dezesseis vezes a bola para a rede em mundiais masculinos. Uma mulher superando homens no esporte bretão!? Bons tempos os atuais! Marta fez o gol e levantou a perna, num maravilhoso espetáculo de agilidade e de vigorosos músculos que pareciam querer saltar da carne, para beijar a chuteira – e, aqui, entra-se no campo da Marta preocupada socialmente com a defasagem salarial que persiste no futebol entre homens e mulheres, o que faz dela, também, uma recordista na luta pela igualdade de gêneros.

Nesse campeonato disputado na França, ela jogou com chuteiras pretas, sem nenhum patrocínio e nelas ostentando somente o sinal matemático de igualdade – o símbolo do movimento “Go equal”. As chuteiras da craque denunciavam, assim, a discrepância promovida pelos patrocinadores, mostrando que a grave questão do preconceito de gênero ainda sobrevive no futebol. Falando-se em craque, vale cotejar, por exemplo, Marta e Neymar. Ela é constantemente manchete de jornais em todo o mundo, fazendo de fato aquilo que tem de fazer, que é jogar futebol – não vira notícia por “causar” nas redes sociais, nem em baladas ou escândalos sexuais. Ocorre, no entanto, que a seis vezes eleita melhor jogadora do planeta, sem patrocínio desde julho do ano passado, ganha 340 mil euros por temporada, enquanto Neymar fatura 91,5 milhões de euros para passar mais tempo rolando nos gramados, farreando nos meios digitais ou tratando-se nas salas de fisioterapia. Dedos na calculadora, e tem-se que ela recebe 0,3% em relação ao rendimento anual de Neymar. É, sem a menor sombra de dúvida, uma jogada errada de patrocinadores.Eu vou mostrar pra você, mané

TERÇA-FEIRA 18 Brilha Marta em campo, brilha o batom em sua boca: “cor de sangria porque temos de dar sangue” (Crédito:Melanie Laurent)

O mar de Marta não está, portanto, repleto de rosas, assim como rosas não há para outras jogadoras do País, em nome das quais ela lidera as reivindicações. Espinhos, isso sim, são muitos, mas há uma boa notícia para a cracassa Marta. Enquanto ela brilhava em campo contra a Itália, algo além do excelente futebol brilhava nela… não nos pés… isso mesmo… na boca. O batom!

Trata-se do Power Stay, produzido pela Avon, nova patrocinadora da artilheira. Ele resiste, segundo a fabricante, dezesseis horas na boca da mulher sem escorrer ou perder o tom, e de fato permaneceu inalterado nos lábios de Marta, mesmo com correria, suor e pulos por oitenta minutos (ela foi substituída por motivos físicos antes do final da partida). “Eu sempre uso batom. Não dessa cor, mais aí pensei: hoje vou ousar. A cor é sangria, porque tem de dar o sangue. Todos os jogos eu vou usar”.

Batom e bola, bola e músculos, músculos e força, força e luta por igualdade… e pensar que há quarenta anos mulher não podia falar em isonomia de gêneros, imagina então jogar futebol! Nada melhor, assim, que a música de Cacau Fernandes, que Marta vive cantando nos treinos:

“Qual é, qual é
Futebol não é pra mulher?
Eu vou mostrar pra você, mané:
Joga a bola no meu pé”.

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