Cultura

Um rebelde para todas as idades

A obra contestadora e libertária do romancista americano James Baldwin desperta interesse no século XXI em novas traduções e adaptações para o cinema

Crédito: Ulf Andersen / Aurimages

HUMANISTA O escritor James Baldwin em sua casa em Saint-Paul-de- Vence, no ano de 1985: sua obra critica as questões de gênero, identidade, raça e política (Crédito: Ulf Andersen / Aurimages)

Divulgação

Depois de 30 anos esquecida, a obra do escritor americano James Baldwin tem voltado a seduzir artistas, tradutores e consumidores. O filme “Se a rua Beale Falasse”, adaptado do romance homônimo de 1974, entra em cartaz no Brasil nesta semana, na esteira do sucesso no Festival de Toronto, em novembro. O diretor Barry Jenkins conta a história de um casal do Harlem, Tish e Fonny, que se depara com a prisão injusta dele e a gravidez dela. Mas a trama supera o chavão por questionar os padrões morais vigentes então na comunidade negra em Nova York. O romance integra o projeto da Companhia das Letras de edição de novas traduções da obra de Baldwin.

“MARTIN LUTHER QUEEN”

A ressurreição de Baldwin pode ser atribuída a seu papel na formação da identidade da cidadania contemporânea, atormentada por dilemas de gênero, sexo e política. Isso se deve ao fato de o mundo de hoje ter ficado mais parecido com o de Baldwin nos anos 1960, quando, no auge do sucesso, mostrava-se briguento, crítico e ostensivamente pansexual.

Com tal atitude, não se enquadrava nos estereótipos do movimento negro. Satirizava o moralismo dos companheiros de direitos civis e discutiu com os chefes dos Panteras Negras. Estes não o perdoavam por não ser heterossexual e o chamavam de “Martin Luther Queen”, em referência a sua verve, adquirida quando pregou como pastor mirim.

ADAPTAÇÃO Kiki Lane e Stephan James no filme “Se a rua Beale Falasse”, baseado em um dos romance de Baldwn lançados no Brasil: vida no Harlem

“Não sou negro. Sou homem”, defende-se Baldwin no documentário “Eu não sou seu Negro”, que lançaria em 1987, mas só foi concluído pelo cineasta Raoul Peck em 2016. Assim rechaçava o papel de “negro de estimação”. Não se manteve nem mesmo fiel à questão racial. Seu romance de maior sucesso, “O Quarto de Giovanni” (1956), tratava da paixão entre um americano e um garçom italiano na Paris existencialista. Não há negro na história.

Por que Baldwin continua a exercer influência? “Passado meio século, os problemas que ele enfrentou como escritor e ativista político infelizmente estão presentes na sociedade americana e em muitas outras mundo afora”, responde Jorio Dauster, tradutor de “Se a rua Beale falasse”. Se a tendência é reabilitar autores que representam minorias, ela não dá conta da nova reputação de Baldwin. “É um autor cujo interesse não se restringe à época em que ele viveu, e faz sentido que esteja sendo descoberto por uma nova geração de leitores”, diz o teórico literário Paulo Henrique Britto, que traduziu o primeiro romance de Baldwin, “Notes of a native son” (1955), a ser lançado neste semestre.

O carisma de sua prosa é bíblico, na visão de Dauster. “Ele se deve à força de seu estilo e à riqueza das imagens que emprega, atribuída por diversos críticos ao fato de que ele conhecia a Bíblia”, diz. Eloquente, convencia sem pregar. “Ele consegue ser engajado e ao mesmo tempo manter um distanciamento crítico em relação a tudo, sem embarcar em nenhuma ortodoxia ideológica”, afirma Britto. O gênio de narrador parece ser a chave do culto a sua obra. Hoje é unanimidade entre os críticos defini-lo como um inovador da ficção americana entre os anos 1950 e 1970, ao lado de Philip Roth e Truman Capote. Sua habilidade em entrelaçar conflitos sexuais e políticos sob o fundo de uma sociedade plural mas preconceituosa, fez com que fosse chamado de “Henry James do Harlem”. Assim como o autor vitoriano contrastou vícios do Novo e do Velho mundos, Baldwin desnudou os homens de seu tempo: parecem civilizados, mas não passam de bárbaros.