Um presidente paraquedista

Uma antiga piada ilustra muito bem a situação que em que se encontra o Brasil de hoje.

Vai mais ou menos assim: Dentro de um avião militar, o comandante dá as ordens para seus comandados.

– Ao meu sinal vocês vão saltar e ao chegarem ao solo, serão recebidos pelos soldados do segundo batalhão que levarão vocês ao campo de batalha, entendido?

Todos entenderam.

Os soldados perfilam aguardando o momento de serem lançados ao espaço.

Dado o sinal, saltam em formação.

Muito bem treinados, numa manobra sincronizada, todos abrem seus paraquedas ao mesmo tempo.

Exceto um, coitado.

Em queda livre, o soldado puxa seguidamente a cordinha para abrir o equipamento e nada. Tenta o reserva, também sem sucesso.

Convencido de que o paraquedas não vai abrir, vendo o chão se aproximar rapidamente, o soldado pensa: – Ô droga… só falta o pessoal não estar me esperando lá embaixo…

A piada é ruim, mas a metáfora é perfeita para a situação atual da política brasileira.

Em vez de um plano de ação, assistimos a Bolsonaro e seus ministros se protegerem atrás de um bunker de fake news

Mal sabemos como vamos aterrisar nas próximas eleições, mesmo assim, a sucessão presidencial passou a ser o principal assunto do jornalismo político.

Só se fala nisso, senão vejamos: Ciro faz charme para encontrar uma saída honrosa já que, dizem, sabe que não terá chance.

Moro posa de bom moço nas redes sociais e quase foi flagrado num sorriso.

Dalagnol divulgou um vídeo onde faz a si mesmo os elogios que, imagino, não receba de ninguém há muitos meses.

Lula encontrou em Alckmin o vice calado com quem sempre sonhou.

O que importa, como se nota, é discutir quem vai concorrer daqui um ano, como se fosse o assunto mais urgente do País.

Ao mesmo tempo, não fazemos mínima ideia de como chegaremos lá.

Nosso paraquedas não abre, nem temos reserva.

O chão se aproxima rapidamente como no caso do soldado da piada e ninguém parece dar atenção.

Para nos assustar ainda mais, os principais indicadores econômicos na contra-mão de nossa vertiginosa queda como Nação decidiram, eles também, desafiar a gravidade.

Inflação, dólar e desemprego decolaram rumo ao espaço e acabaram de cruzar nossa trajetória rumo ao solo.

Por sorte, temos no Palácio do Planalto um presidente experiente neste tipo de acidente.

Conta o escritor Clóvis Saint-Clair que Bolsonaro, antes de ser expulso do Exército, quando fazia parte da Brigada Paraquedista, durante um dos treinamentos perdeu o controle de seu equipamento e caiu, quebrando os dois braços e os dois tornozelos.

O texto de Saint-Clair não esconde o lirismo da cena: “A algumas dezenas de metros do solo, Cavalão perdeu o controle do equipamento, atravessou a Avenida das Américas, a mais movimentada da Barra da Tijuca, com risco de ser atropelado ou de ter seu paraquedas embolado a algum veículo, e veio se espatifar na parede de um prédio alto.”

Bolsonaro poderia ser, pois, o homem certo na posição adequada.

Um homem treinado para saber o que fazer quando o solo se aproxima à 9 metros por segundo, a aceleração da gravidade, se bem me lembro das aulas de física.

Infelizmente, o que vemos não é esta sua habilidade posta em prática.

Ao invés de um plano de ação, assistimos ao presidente e seus ministros se protegem atrás de um bunker de fake news que consegue, miraculosamente, enganar uma parcela importante da população que ainda acha que pode voar.

Pior que isso, como já foi dito à exaustão, parece que a única prioridade do presidente é, ele também, garantir a sua presença no pleito do próximo ano.

Ao que tudo indica, nosso presidente está mais preocupado em puxar a cordinha do seu próprio paraquedas, sem se dar conta que o impacto é inevitável.


Sobre o autor

Mentor Muniz Neto, 51, é escritor. Mora em São Paulo com suas filhas Manuela, Olivia e Catarina e escreve crônicas do cotidiano que às vezes parecem realismo fantástico


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