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Um Prêmio Nobel para Raoni

Depois do discurso do presidente Jair Bolsonaro na Assembléia Geral da ONU, o cacique caiapó Raoni Metuktire, de 89 anos, duplicou suas forças para disputar o prêmio Nobel da Paz no próximo ano. Ele foi indicado por um grupo de ambientalistas e antropólogos, capitaneados pela Fundação Darcy Ribeiro, que o consideram um símbolo da luta contra o desmatamento da Amazônia e em defesa dos povos da floresta. Raoni, que andava desaparecido, voltou a ganhar visibilidade em maio, quando fez uma viagem de três semanas à Europa e teve encontros com o presidente francês Emmanuel Macron e com o Papa Francisco. Nas suas andanças, chamou atenção para os sérios riscos ambientais enfrentados pelo Brasil e denunciou a insensibilidade do atual governo para a questão indígena. Bolsonaro sentiu o golpe e, não por acaso, chamou o líder caiapó de “peça de manobra” de interesses estrangeiros e disse que sua visão “não representa a de todos os índios brasileiros.”

Com suas críticas, Bolsonaro colocou um holofote sobre a candidatura de Raoni para o Nobel e mostrou para o mundo que os povos indígenas estão realmente ameaçados. Tudo indica, pelas palavras do presidente, que o governo brasileiro pretende passar uma retroescavadeira ultraliberal sobre as tribos que estiverem pela frente. Bolsonaro afirmou que não haverá novas demarcações de terras indígenas e criticou a extensão das reservas existentes. Disse também que “algumas pessoas de dentro e de fora do Brasil, apoiadas em ONGs, teimam em tratar e manter nossos índios como verdadeiros homens das cavernas”. Na prática, sob seu governo, mais reservas indígenas estão sendo invadidas. Um relatório do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), divulgado no mesmo dia do discurso na ONU, mostra que o número de áreas indígenas invadidas dobrou neste ano. Nos primeiros meses de 2019, 153 áreas foram ocupadas em 19 estados. Em 2018, aconteceram 76 invasões em 13 estados.
Raoni representa uma voz de resistência ao ímpeto destrutivo do governo. Na quarta-feira 25, no dia seguinte ao discurso de Bolsonaro, o líder caiapó visitou a Câmara e pediu a renúncia do presidente. Foi recebido por deputados de oposição sob aplausos e cantos tribais e se comunicou por meio de uma intérprete. “Bolsonaro disse que eu não era um líder, mas é ele que não é líder e tem que sair”, afirmou. Seria bom se um indígena, um homem da floresta, um brasileiro primordial, levasse o Nobel da Paz. Raoni merece. O Brasil merece. Diante do quadro pintado por Bolsonaro, ninguém simboliza melhor a opressão enfrentada por um povo hoje no mundo do que o líder caiapó.

Ninguém simboliza melhor a opressão sobre um povo no mundo do que o líder caiapó


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