Perspectiva 2022/Economia

O ano será difícil para os brasileiros — mais do que foi 2021. Os economistas preferem a palavra “desafiador”, mas essa é apenas uma questão semântica. Fato é que o ano começa com uma bagagem de 13,5 milhões de desempregados, inflação de dois dígitos e moeda desvalorizada. Os problemas são conhecidos, mas ficarão mais expostos do que antes, porque a sociedade não contará com a mesma quantidade de incentivos emergenciais, fiscais e monetários, que fizeram a economia rodar em 2021. Além disso, o Orçamento aprovado pelo Congresso prevê para 2022 o menor nível de investimentos públicos federais da história. Educação, Saúde, Defesa, Infraestrutura e demais áreas de atuação contarão com R$ 44 bilhões. Em 2012, esse valor era R$ 200 bilhões, quase cinco vezes maior. Some tudo isso a um período que prevê turbulências políticas, que serão desencadeadas pelo ano eleitoral.

Risco de recessão, juros e inflação desafiam a retomada do desenvolvimento
DESEMPREGO São 13,5 milhões de brasileiros em busca de uma vaga (Crédito:Amanda Perobelli)

“O brasileiro começa o ano com contas mais altas e com uma previsão de que a inflação não vai parar de subir antes de atingir 12,5%”, diz Fábio Astrauskas, da Siegen, consultoria de gestão estratégica e recuperação de empresas no Brasil. O ano passado acabou com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrando uma variação de 0,82%, elevando a inflação acumulada para 10,47%. “A dificuldade em diminuir a inflação será grande”, diz Astrauskas. O índice disparou no ano passado por duas razões. Uma delas, já citada acima, foi o dinheiro injetado emergencialmente pelo Estado devido à pandemia.

Mas há uma segunda razão: o desajuste da cadeia de suprimentos internacionais, que fez com que os preços disparassem. “Em 2021, faltaram caminhões, containeres e navios para transportar uma quantidade de mercadorias que as empresas não esperavam”, diz Astrauskas. Até a indústria automobilística ficou sem carro para entregar ao consumidor, porque países como China e Taiwan não tinham chips para enviar. A escassez de matérias-primas e problemas das empresas de logística global continuaram a provocar entraves na produção. Depois de um ano e meio equilibrando-se em pequenas elevações, pela primeira vez o índice de Gerente de Compras (PMI, sigla em inglês) diminuiu para 48,9 em novembro — sendo que abaixo de 50 é considerado retração e acima, expansão.

“O brasileiro começa o ano com contas mais altas e uma previsão de que a inflação não vai parar de subir antes de atingir 12,5%”
Fábio Astrauskas, consultor

A alta das commodities — caso do combustível e da carne — impactou e vai continuar abalando diretamente o custo de vida. Apesar de o panorama atingir todas as economias do globo, o Brasil foi campeão na desvalorização da moeda. Segundo Astrauskas, de janeiro a junho do ano passado o real se desvalorizou acompanhando o ritmo internacional. Mas, no segundo semestre, enquanto as demais moedas começaram a se recuperar, a divisa brasileira continuou caindo. O especialista é autor de uma pesquisa que analisou o câmbio internacional ao longo de 2021. Isso deve abalar a recuperação das empresas aéreas e o turismo, dois setores fortemente abalados durante a pandemia.

O cenário internacional ainda será um problema para o Brasil. Aqui o destaque é a mudança na política monetária americana. “Imaginava-se que a taxa de juros subisse apenas em 2023, mas vai subir em 2022. Algumas instituições projetam duas elevações este ano”, diz Maílson da Nóbrega, sócio da Tendências e Consultoria. Isso provocará fuga de investimento para os EUA. Em outras palavras, as oportunidades de negócios diminuem para o Brasil. “O governo não tem instrumento para reverter essa tendência. Tem apenas o gogó do ministro da economia, mas Paulo Guedes vive no mundo paralelo. Ele ainda diz que vai privatizar em larga escala, mas ninguém acredita nisso”, diz Maílson. Mesmo as mudanças nas regras do câmbio anunciadas em dezembro serão insuficientes para aumentar a atratividade do mercado nacional. “A implantação é positiva, mas requer um certo tempo”, diz Clemens Nunes, professor de Economia da Fundação Getulio Vargas. As alterações produzirão resultados apenas em 2023.

Risco de recessão, juros e inflação desafiam a retomada do desenvolvimento
COMBUSTÍVEL Preços devem continuar subindo (Crédito:Pilar Olivares )

Um dos poucos setores a trazer boas notícias para a economia, o agronegócio deve crescer menos em 2022. É o que espera a Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que projeta um crescimento de 3% a 5% em relação a 2021, ano que o setor fechou com expansão de 9,4%. A entidade atribuiu a desaceleração no crescimento à alta nos custos de produção. A variação das despesas para o plantio do milho foi de 65,3%, do café, 63,7%, da soja, 63,9% e dos insumos agrícolas (herbicidas), 372%, em 12 meses. Isso sem contar o impacto das questões naturais, como a seca do ano passado.

A economia global foi afetada pela pandemia, mas os problemas do Brasil começaram antes. Desde 1987, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,4 ponto percentual abaixo da média global. O País cresceu em média 2% ao ano, enquanto o mundo, 3,4%, de acordo com a FGV. Houve exceções pontuais nos governos de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Lula. Projeções do FMI e pesquisa Focus do Banco Central mostram um cenário preocupante, em que o Brasil deve completar 16 anos com crescimento abaixo da média. De acordo com os analistas de mercado, 2022 será uma ponte para 2023, quando então o Brasil começa a apresentar resultados positivos — dependendo do resultado das urnas, evidentemente.