Tecnologia & Meio ambiente

Um oceano de plástico invade um subúrbio de Nova Délhi

Um oceano de plástico invade um subúrbio de Nova Délhi

Meninas passam na frente de um canal de esgoto transformado em uma língua de resíduos de plástico, em Taimur Nagar, na periferia de Nova Délhi, em 30 de maio de 2018 - AFP

O que um dia foi um canal agora é uma imensa língua de resíduos plásticos. Um cenário dantesco, o qual enfrentam diariamente os habitantes de Taimur Nagar, na periferia de Nova Délhi, uma das cidades mais poluídas do mundo.

Sacolas plásticas, embalagens de alimentos e outros restos chegam a Taimur Nagar através de um cano de águas residuais.

Cães vira-lata, galinhas, cabras e até vacas procuram comida no meio dessa massa de plástico, onde as crianças tentam, por sua vez, encontrar bolas de futebol, ou garrafas de plástico.

A Índia é, este ano, o país anfitrião do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado nesta terça-feira (5), com o tema “Sem poluição por plásticos”. Todo um programa para os moradores de Taimur Nagar.

“Podem ver o quão ruins são as condições aqui. Nós nos afogamos no plástico”, afirmou Bhola Ram.

Taimur Nagar não é um caso isolado em Nova Délhi, nem em outras cidades indianas, invadidas pelos resíduos, especialmente plásticos.

Para o Dia Mundial do Meio Ambiente, a Índia prevê a limpeza das praias, uma exposição sobre tecnologias verdes, instalações artísticas… Vários atos para mostrar sua conscientização sobre o problema e seu desenvolvimento econômico.

O engenheiro Rajagopalan Vasudevan criou, inclusive, um processo para triturar o plástico e utilizá-lo na construção de estradas.

Vendo a situação em Taimur Nagar, entende-se a envergadura do problema.

– ‘Viver no inferno’ –

A Índia gera 5,6 milhões de toneladas de resíduos plásticos por ano, segundo números do governo.

Em 2009, Délhi proibiu as sacolas de plástico e, depois, estendeu a medida às embalagens plásticas e outros objetos de uso único feitos com este material.

Mas a proibição não é respeitada e a sacola plástica continua sendo o recipiente mais usado para transportar frutas e verduras, carne e comida “para viagem”.

Os moradores de Taimur Nagar estão acostumados com esse entorno e parecem resignados.

“É como viver em um inferno”, disse Shreepal Singh. “Somos pobres e não nos resta outra coisa a não ser viver e morrer aqui”, acrescenta.

A vida neste bairro não foi sempre assim, porém.

“Quando cheguei, há 40 anos, a água da canalização era limpa. A zona não estava tão suja. Mas tudo piorou à medida que a população aumentava”, avalia Saroj Sharma, mãe de três filhos.

Na temporada de chuvas, as casas podem ficar inundadas pelo esgoto.

“Minha neta está sempre doente. Todas as crianças faltam dias à escola, porque têm diarreia, ou uma crise de malária”, lamenta Birambati Devi, enquanto, não muito longe dali, porcos reviram o lixo.

Situado entre dois luxuosos bairros residenciais, Taimur Nagar é um dos bolsões de pobreza da capital indiana. É um reflexo das desigualdades dentro desse país-continente do sul da Ásia, cujo crescimento seletivo deixou muitos de lado.

O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, prometeu limpar o país antes do fim de seu mandato, em 2019.

Segundo uma pesquisa recente da Organização Mundial de Saúde (OMS), 14 das 15 cidades com pior qualidade do ar do mundo estão na Índia.

Nesse ranking, Délhi melhorou um pouco sua posição, passando da cidade mais poluída em 2014 para ocupar o sexto lugar.

“Não acredito que a cidade seja limpa um dia”, diz Sallu Chowdhary, que usa uma máscara.

“Ninguém leva o problema a sério, nem mesmo os habitantes, que sofrem com isso diariamente”, completou.