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Um milhão de espécies estão ameaçadas de extinção

Um milhão de espécies estão ameaçadas de extinção

Imagem de 5 de setembro de 2018 de recife de coral no Mar Vermelho - AFP/Arquivos

Um milhão de espécies estão ameaçadas de extinção e o ritmo está acelerando, de acordo com um relatório da ONU que pede uma “profunda mudança” na sociedade para reparar os danos à natureza.

Neste trabalho inédito publicado nesta segunda-feira (6), o grupo de especialistas da ONU sobre Biodiversidade (IPBES) apresenta um panorama sombrio para o futuro do ser Humano, que depende da natureza para respirar, beber, comer, se aquecer e até mesmo se curar.

“Estamos acabando com as bases das nossas economias, nossos meios de subsistência, a segurança alimentar, a saúde e a qualidade de vida em todo o mundo”, alertou Robert Watson, presidente do IPBES.

O desmatamento, a agricultura intensiva, a sobrepesca, a urbanização descontrolada, minas… 75% do ambiente terrestre está “seriamente perturbado” pela atividade Humana, enquanto 66% do ambiente marinho também está afetado.

O resultado: um milhão de espécies animais e vegetais das 8 milhões estimadas na Terra estão ameaçadas de extinção e muitas podem desaparecer “nas próximas décadas”.

Uma constatação em linha com o que muitos cientistas descrevem há anos: o início da sexta “extinção em massa” – um termo não mencionado no relatório – e a primeira da qual o Homem é o responsável.

Mas também seria “a primeira que poderia ser interrompida, se agirmos de forma decisiva agora”, segundo Mark Tercek, presidente da ONG Nature Conservancy.

“Não é tarde demais para agir, mas temos de começar agora”, e por meio de uma “mudança profunda” na nossa sociedade, disse Watson, para quem o primeiro objetivo é retardar os “motores” da perda de biodiversidade que ameaçam o Homem tanto quanto a mudança climática.

Mas, segundo Watson, “os governos devem pensar além do PIB como medida da riqueza e incorporar outras formas de capital”, como natural, o social e o humano, apesar das resistências.

– O papel do aquecimento global –

O relatório em que 450 especialistas trabalharam por três anos identifica os cinco principais responsáveis por esta realidade: uso da terra (agricultura, desmatamento), a exploração direta de recursos (pesca, caça), a mudança climática, poluição e espécies invasoras.

A mudança climática pode aumentar nessa escala, agravando os outros fatores, embora algumas ações para reduzir as emissões de gases do efeito estufa possam trazer benefícios diretos à natureza.

Primeiro objetivo: o sistema agroalimentar. Alimentar 10 bilhões de pessoas em 2050 de forma “sustentável” implica uma transformação da produção agrícola (agroecologia, melhor manejo da água), mas também dos hábitos de consumo (dieta, desperdício), segundo o relatório.

“Aplaudimos este apelo por uma mudança nos regimes alimentares, em direção a uma dieta que se baseia mais em alimentos de origem vegetal para reduzir o consumo de carne e produtos lácteos, cujos impactos negativos sobre a biodiversidade, mudanças climáticas e saúde humana são bem conhecidos”, disse Eric Darier, do Greenpeace.

Entretanto, no texto final do IPBES, não há um chamado direto para comer menos carne, o que provavelmente indica que alguns países produtores se opuseram a essa menção.

– Qualidade de vida –

Os Estados membros da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (COP15) se reunirão em 2020 na China e os ambientalistas esperam que adotem uma estrutura ambiciosa de ação até 2050 para preservar o planeta.

Os ministros do Meio Ambiente do G7 e de outros países reunidos na França adotaram nesta segunda uma “carta à biodiversidade” na qual se comprometem a lutar contra a destruição da natureza por meio de “ações concretas”.

Em uma carta aberta aos governos, centenas de especialistas e personalidades como Jane Goodal e Marion Cotillard reclamaram nesta segunda o fim dos “financiamentos que destroem a natureza”. “Devemos mudar radicalmente a maneira como vivemos”, escreveram no texto #Call4Nature.

Entre as soluções discutidas pelo IPBES para melhorar a “sustentabilidade” do sistema econômico, destacam-se o estabelecimento de cotas de pesca “efetivas” para afastar-se do dogma do crescimento.

“O objetivo deve ser a qualidade de vida e não o crescimento econômico”, indicou à AFP um dos principais autores, Eduardo Brundizio.

Como o Homem depende da natureza, também está fadado a desaparecer?

“Certamente não” e muito menos a curto prazo, responde um dos outros autores, Josef Settele. “Mas não queremos apenas sobreviver. Esta é a posição principal deste relatório”, segundo Brundizio.

A qualidade de vida poderia se degradar ainda mais para os mais pobres e povos indígenas, que são muito dependentes da natureza.