Um leviatã tupiniquim

Na semana passada o presidente Bolsonaro abandonou uma entrevista.

Nada de novo para alguém cujo conceito de democracia é muito peculiar.

Para os bolsonaristas, com o perdão da generalização, democracia é o sistema de governo do povo, pelo povo e para o povo, desde que o povo concorde com as opiniões do soberano.

Para os amigos do rei, tudo. Para os que o confrontam, a sua lei.

Na referida entrevista, o jornalista citou os casos de rachadinha comuns na ALERJ.

Em nenhum momento se referiu ao caso de Flávio Bolsonaro e sim aos diversos outros partidos, numa linha de argumentação fácil, já que a rachadinha é prática comum há décadas e não foi inventada pela família Bolsonaro.

A pergunta terminava questionando se o presidente acreditava que, nos casos de rachadinha o parlamentar deveria ser investigado e preso, se fosse o caso.

Claro que a pergunta tinha a intenção de remeter ao filho do mandatário.

Bolsonaro, se fosse um político de verdade, poderia facilmente ter escapado da isca.

Mas Bolsonaro não é político.

Nunca foi.

Exerce o poder com o pressuposto que ninguém pode desafia-lo.

Ocorre que essa forma de poder é tão obtusa, tão descolada da realidade dos nossos tempos, que coloca o presidente constantemente em situações delicadas, que ele sequer se dá conta.

Situações que em qualquer outra Cultura, com um eleitor mais esclarecido, não teria espaço.

Mas por aqui funciona.

No Brasil, um líder absoluto é bem-vindo por uma enorme parcela da população.

Desde aqueles que concordam que um monarca é capaz de moralizar uma sociedade supostamente decadente, que erroneamente apoia a diversidade e empodera minorias, àqueles que preferem não se preocupar em pensar politicamente, confortavelmente cedendo o poder a quem o deseje.

A humilhante foto do presidente comendo pizza na rua, em Nova Iorque por se recusar a usar máscara, é um ótimo símbolo de como sua retórica está descolada à ética do resto do planeta.

O que deveria ser motivo de vergonha, para Bolsonaro é orgulho.

Um recado para sua plateia de que o Brasil está à frente do resto do mundo.

E nesta mesma semana em que o presidente abandonou uma entrevista, assistimos a entrega do relatório da CPI.

O documento não teve resposta oficial do Planalto.

Na lógica absolutista, o Legislativo é um poder menor.
A única intersecção entre o trabalho da CPI e o Executivo, resta nas mãos de Augusto Aras, na Procuradoria Geral da República.

Aras, que até hoje agiu como o Sancho Pança do presidente, cúmplice de sua ilusão de poder, agiu sempre para bloquear qualquer investida contra seus desvarios.

Agora, no entanto, não poderá ser assim.

Com uma CPI que pede 80 indiciamentos, inclusive do presidente, a PGR será obrigada dar andamento ao rito que pode, em última análise, destronar o presidente.

Aos amigos do rei, tudo. Para as pessoas que o confrontam, a sua lei

O rei está, finalmente, nu. Pelo menos no papel.

Inequivocamente, isso é uma novidade para nosso imperador.

Porque desde os tempos de baixo clero, Bolsonaro sempre foi um ideólogo do poder absoluto.

Um teórico do absolutismo, baseado não em teorias, mas em suas opiniões.

Mesmo sem ter nenhum conhecimento de filosofia política, Bolsonaro compreende sua função no poder como uma espécie de Leviatã de Hobbles.

Um líder inquestionável, ungido por Deus, cuja função é governar com mão de ferro e garantir o resgate de valores de um suposto passado de méritos para garantir a paz social.

Não é à toa, portanto, que no bolsonarismo, Deus está acima de todos.

O Deus de Bolsonaro, diga-se de passagem.

Os valores de Bolsonaro.

A paz de Bolsonaro.

Nos próximos meses veremos se essa é apenas sua ilusão, ou se é ilusão coletiva.


Sobre o autor

Mentor Muniz Neto, 51, é escritor. Mora em São Paulo com suas filhas Manuela, Olivia e Catarina e escreve crônicas do cotidiano que às vezes parecem realismo fantástico


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