Semanal

Um governo paralelo

Crédito: Divulgação

A revelação de mais um gabinete paralelo em funcionamento no governo Bolsonaro, dessa vez no MEC, comprova que esse método clandestino de atuar continua a todo vapor e está espalhado em toda a administração. Desta vez, o escândalo revelado pelo jornal “O Estado de S.Paulo” mostra que religiosos atuavam no ministério para liberar verbas a jato (em até 16 dias) para prefeitos escolhidos a dedo, seguindo ordens do presidente e com a participação do titular da pasta.

Essa forma subterrânea de distribuir as verbas e determinar as políticas públicas já tinha sido evidenciada em diversos episódios. Na Saúde, a CPI da Covid provou que havia um gabinete paralelo determinando as ações oficiais na pandemia: um caso particularmente grave, pois esse órgão secreto atrasou a vacinação e estimulou a distribuição de remédios sem eficácia contra a doença.

Os exemplos se multiplicam. Michelle Bolsonaro tinha um “fast track” na Caixa Econômica Federal para beneficiar correligionários com crédito fácil. O presidente tentou criar um serviço de inteligência próprio na Abin. Flávio Bolsonaro tentou colocar aliados na Receita Federal para controlar investigações das rachadinhas. A própria Polícia Federal acabou aparelhada para atender aos interesses do clã Bolsonaro. O Exército, uma obsessão presidencial, quase foi transformado em uma guarda pretoriana a serviço de um golpe: o plano só não deu certo porque a instituição repeliu a tentativa.

Esse aparelhamento para beneficiar interesses privados e escusos ganhou uma dimensão ainda mais escandalosa com o orçamento secreto: um naco bilionário das receitas públicas é distribuído a apoiadores pelo País em um balcão de negócios compartilhado pelo Centrão e pelo Palácio do Planalto. E, na comunicação, o gabinete do ódio opera a publicidade oficiosa e tenta criar uma realidade paralela à base de mentiras, ataques e desinformação. Como no caso Telegram, que agora a população começa a conhecer, o bolsonarismo age nas sombras para subverter a democracia, sem que o Congresso e Justiça tenham força efetiva para agir. Até quando?