Brasil

Um general inspirado em Ulysses

Quais os planos de Luiz Eduardo Ramos, que assume a função de articulador político de Bolsonaro prometendo seguir o exemplo do “Senhor Diretas”

Crédito: Jorge William

CONCILIADOR Amigo do presidente há 40 anos, Ramos tentará neutralizar ataques da ala ideológica do governo aos líderes do Congresso (Crédito: Jorge William)

O general Luiz Eduardo Ramos Baptista Pereira, chefe do Comando Militar do Sudeste, com sede em São Paulo, assumiu na quarta-feira 3 a Secretaria de Governo de Bolsonaro com a hercúlea missão de acabar com a desarticulação do governo no Congresso. Amigo do presidente há mais de 40 anos, e seu principal conselheiro, ele sabe que vai precisar de habilidade de enxadrista para melhorar a relação com os parlamentares, atender seus pedidos de cargos e verbas sem incorrer no famigerado toma lá dá cá e, ao mesmo tempo, evitar que ala ideológica do governo contamine as negociações no fio do bigode com o Congresso. Sua inspiração é o ex-deputado Ulysses Guimarães, presidente da Câmara falecido em 1992 num acidente aéreo.

Para ele, o “Senhor Diretas” sempre buscou o diálogo e soube conduzir a redemocratização com maestria, impedindo, inclusive, que os militares perdessem na Constituinte a missão de zelar pela segurança nacional. Militar há 46 anos, Ramos quer valer-se dos ensinamentos legados por Ulysses para abrir as portas do Congresso e permitir que os projetos de Bolsonaro tramitem sem solavancos. Não à toa, o primeiro ato do general como ministro será visitar o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). “Ele (Ulysses) impediu que o ódio imperasse. Hoje tem gente com ódio na direita e na esquerda, mas no que isso ajuda o Brasil?”, questiona.

Ramos não pode ser considerado um neófito. Mais jovem, quando coronel, Ramos foi assessor parlamentar do Exército na Câmara e no Senado. O conhecimento dos bastidores do mundo político deve ajudá-lo no cumprimento da nova função. “Com a experiência que eu tenho de vida, acho que o mais importante é o diálogo, a transparência, exposição de ideias com clareza. Eu valorizo muito o relacionamento interpessoal em qualquer nível, seja na parte profissional, seja na parte pessoal”, disse o novo ministro à ISTOÉ.

A pedido de Bolsonaro, o general vai reformular a estrutura da articulação política, que envolvia a Secretaria de Governo e a Casa Civil. A partir de agora, só o general Ramos ocupará o papel de negociador com o Congresso. Onyx Lorenzoni, da Casa Civil, que vinha dividindo a função com o general Santos Cruz, demitido há duas semanas, vai cuidar apenas da parte burocrática do governo. Bolsonaro estava convencido que Lorenzoni era um dos entraves no Congresso. Afinal, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, não o engolia. O ministro trabalhou claramente contra a candidatura de Rodrigo à presidência da Câmara em fevereiro, o que estremeceu a relação de ambos. Agora, sob Ramos, espera-se que as divergências sejam aplainadas.

“Bolsonaro não é tutelável”

O fato de ser uma pessoa da extrema confiança do presidente joga a favor dele. Ramos e Bolsonaro são amigos desde 1973, quando juntos entraram para a Escola de Preparação de Cadetes do Exército, em Campinas. Mais tarde, foram vizinhos. O general viu bem de perto os filhos de Bolsonaro crescerem, e conquistou o respeito dos mesmos. Um episódio recente fornece a exata dimensão da intimidade de Ramos com o mandatário do País. Quando o presidente foi visitar Israel, há três meses, o general lhe telefonou: “Cara, você chega lá e diz ‘eu amo Israel’ em hebraico. Eles vão adorar”. Ramos mandou a frase pelo whatsapp. Bolsonaro aquiesceu. “Pô Ramos, deu certo. Bateram palmas pra mim”, respondeu o presidente em seguida.
Dentre os militares mais próximos ao presidente, Ramos é o que se pode chamar de integrante da turma da maçaneta — aquela que tem carta branca para entrar no gabinete presidencial sem precisar marcar horário. Também é um dos poucos com liberdade para falar o que Bolsonaro pode não querer ouvir. No dia em que Bolsonaro disse que os estudantes eram “idiotas inúteis”, Ramos ligou para dizer que ele poderia ter evitado o termo ofensivo. “É que eu estava meio bravo”, explicou o presidente. O general, no entanto, esclarece: “Sou amigo do presidente, mas ele não é tutelável. Ninguém manda nele”.

O general ainda não entrou em campo oficialmente, mas dá pistas sobre como irá tratar as indicações dos parlamentares para cargos no Executivo: sem preconceito. “Vamos fazer a boa política. O critério para um cargo público é não responder a nenhum processo judicial e ser idôneo”. Quanto às verbas publicitárias que estão sob seu guarda chuva, Ramos adverte: os critérios de distribuição de recursos serão determinados pelo presidente. “Estou numa instituição há 46 anos que respeita a lealdade, hierarquia e a disciplina”, resumiu. O novo articulador do governo também parece tocar de ouvido com o maestro da política econômica, o ministro Paulo Guedes. Apesar de algumas pessoas no Exército comungarem ideias nacionalistas, Ramos promete apoio total às privatizações. “Se a Petrobras tiver que ser privatizada, privatiza. Vai ser melhor para o Brasil? To dentro”.

O general Ramos assumirá a articulação política do governo com o poder de atender pedidos de nomeações e de emendas parlamentares

Ao se despedir do Comando Militar do Sudeste, na quarta-feira 3, o general se descreveu como alguém “impetuoso e agoniado”. Neste particular, terá de contrariar Ulysses para quem a impaciência era uma das faces da estupidez. “Joaquim Nabuco admoesta que o tempo não perdoa o que se faz sem ele”, dizia aquele em quem Ramos promete se inspirar. Que o tempo e a serenidade ajudem Ramos em sua nova jornada.

No comando da política

> Ex-comandante Militar do Sudeste, com sede em São Paulo, o general Luiz Eduardo Ramos Baptista entrou no Exército em 1973. Em sua carreira militar, foi também chefe do Comando da 11a Região Militar, em Brasília, e da 1a Divisão do Exército, no Rio de Janeiro
> Foi responsável pelas ações de segurança durante a Copa do Mundo de futebol, em 2014, e dos jogos Olímpicos e Paralímpicos, em 2016. Participou da missão das Nações Unidas no Haiti e chegou a ser vice-chefe do Estado Maior do Exército
> Com grande capacidade de diálogo, foi escalado pelo presidente Bolsonaro para ser seu principal articulador político, ocupando a Secretaria de Governo. Será encarregado de apresentar ao Congresso os projetos de interesse do Executivo
> Essa função era exercida anteriormente pelo ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. A expectativa do governo é ter um homem de confiança que possa melhorar o relacionamento com o Congresso. Ele é amigo de Bolsonaro há quatro décadas