Internacional

Um futuro incerto

Após a festa do Brexit, negociações com a Europa serão cruciais para o Reino Unido enfrentar o desaquecimento da economia. Separação já custou US$ 170 bilhões

Crédito: Tolga AKMEN / AFP

PROTESTO Manifestantes contrários ao Brexit diante do Parlamento, em Londres: fim da livre circulação de pessoas vai afetar especialmente os jovens (Crédito: Tolga AKMEN / AFP)

Foi com uma grande festa que os apoiadores do Brexit comemoraram a saída formal do Reino Unido, na sexta-feira, 31. A data marcou uma vitória inconteste do premiê Boris Johnson, que providenciou até um relógio projetado na fachada da residência oficial com a contagem regressiva. Em tom solene, ele declarou que “esse não é um final, mas um começo”. Passada a celebração, veio a ressaca. Começou o período de negociação para determinar as novas relações comerciais com o bloco — prevista para 30 de junho, a data-limite dessa definição pode se estender até 31 de dezembro. No período de transição, tudo permanece igual, mas essa nova etapa será determinante para dimensionar os desafios que o país enfrentará — e eles são grandes.

DESAFIO Boris Johnson quer um acordo sem tarifas com a Europa (Crédito: Frank Augstein / POOL / AFP)

A batalha do Brexit já enfraqueceu a economia britânica. Alguns estudos mostram que o país deixou de crescer 3% desde que o divórcio foi votado, há três anos e meio. Ele já custou US$ 170 bilhões, e esse montante pode ainda crescer US$ 91 bilhões. No ano passado, por causa da queda nos investimentos, a economia do Reino Unido cresceu no ritmo mais lento desde 2010. Este ano, o PIB não deve aumentar mais que 0,75%, contra uma previsão inicial de 1,25%, segundo o Bank of England, o banco central britânico. Para o presidente da instituição, Mark Carney, a “década terminou em tom de lamúria”. Para o futuro, o primeiro-ministro espera obter um acordo vantajoso para o país, sem tarifas, assim como ocorre com o Canadá. Mas isso é pouco provável. A União Europeia não deve ceder para não estimular movimentos separatistas no bloco.

Efeitos do divórcio

Enquanto isso, vários setores sentem os efeitos da separação. A City de Londres, maior centro financeiro europeu, é um deles. Até agora, 25 bancos já pediram sua transferência. Na crucial indústria automobilística, montadoras como Ford, Rolls-Royce, Aston Martin e Jaguar Land Rover estão revendo sua atuação no país. A Honda vai fechar sua unidade em Swindon. A BMW congelou os investimentos na unidade de Oxford e pode se transferir para a Holanda. Alguns itens importados pelo Reino Unido devem encarecer, como vegetais e itens de consumo fresco trazidos do continente. A separação também trouxe preocupação para os europeus que vivem no país. Nos últimos dias, centenas deles se aglomeraram na prefeitura londrina para averiguar sua situação. O fim da livre circulação de pessoas vai afetar especialmente os jovens em busca de oportunidades profissionais. Sob as normas europeias, o Reino Unido havia concedido novos direitos trabalhistas. Agora, há dúvida sobre a reversão desses benefícios. Não é só o mercado de trabalho que pode ser impactado. Até o rico futebol inglês está em convulsão. No embalo do Brexit, a Football Association quer restringir o número de jogadores estrangeiros no país — atualmente são 70%. Isso já impactou as últimas negociações dos atletas.

Para os europeus, a separação também já trouxe consequências negativas. O comércio entre o Reino Unido e os países da União Europeia tem encolhido desde que o divórcio foi aprovado. A economia do bloco desacelerou e as projeções indicam crescimento de apenas 1,2% em 2019, gerando o temor de uma recessão. Além das questões econômicas, há uma preocupação sobre o futuro do bloco econômico. O presidente francês, Emmanuel Macron, chamou o momento de “triste” e disse que a saída britânica representava um “sinal de alarme histórico”.

A chanceler alemã, Angela Merkel, apontou a importância do bloco para a estabilidade da região. “É um momento de inflexão decisivo para todos nós”, afirmou.

O momento traz mais preocupação do que otimismo. O país terá menos poder nos acordos comerciais

Uma das apostas dos “brexiteers” era que os EUA supririam a ausência dos europeus. Mas isso é incerto. O presidente dos EUA, Donald Trump, considerou num primeiro momento que o Reino Unido iria acelerar as negociações para um acordo comercial ambicioso entre os dois países. Seria o primeiro acordo do gênero para o americano. Mas Boris Johnson não endossou as negociações, que continuam em banho-maria. Ao contrário, recentemente o premiê afirmou que o Reino Unido vai autorizar a gigante chinesa Huawei, líder mundial em tecnologia 5G, a participar da construção da infraestrutura da nova rede no país. Isso contrariou Trump, que pode exigir maior acesso para as corporações e os produtos agrícolas dos EUA.

O novo momento britânico traz mais preocupação do que otimismo. Os partidários da separação reclamavam que o país precisava se submeter a uma burocracia custosa e que a economia era afetada pelas restrições do bloco. Mas o pós-Brexit não significará um novo impulso. O país terá menos poder nas negociações comerciais, pois o mundo está consolidado em blocos econômicos. Além disso, o Reino Unido não tem mais o poder econômico e geopolítico que exercia há 47 anos, quando aderiu à União Europeia. O desafio para Boris Johnson será enorme. Uma saída é apostar na abertura comercial e no aprofundamento do liberalismo econômico, doutrina que o país exportou para todo o planeta. Mas isso implicaria renegar o nacionalismo regressivo que foi a base do movimento Brexit. Assim, há um duro período de aprendizado pela frente. Para o bem ou para o mal, o país vai servir novamente de guia para o mundo.