Internacional

Um ditador de ocasião

Por que o combate a Covid-19 virou pretexto para o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, tomar medidas arbitrárias que lhe permitiram fechar o Parlamento

Crédito: Zoltan MATHE / POOL / AFP

PODER Desde que se tornou primeiro-ministro, em 2010, Orbán vem tomando medidas que atentam contra a democracia (Crédito: Zoltan MATHE / POOL / AFP)


Diversos líderes mundiais inclinados ao autoritarismo estão se aproveitando do novo coronavírus e do pânico da população para instaurar verdadeiras ditaduras. É o caso de Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria. Na segunda-feira 30 Orbán, cujo partido Fidesz-União Cívida Húngara detém dois terços do parlamento, aprovou por 153 votos a 53, um estado de emergência sem prazo para acabar. Na prática isso significa que ele está autorizado a governar por decreto – ou seja, sozinho e sem parlamento. Ficaram permitidas também a prisão por até oito anos daqueles que descumprirem a quarentena e por até cinco quem divulgar intencionalmente notícias que vão contra as medidas do governo frente à pandemia. Um pacote completo no estilo dos mais tiranos ditadores.

EMBATE A presidente da Comissão Europeia, Úrsula Von der Leyen, criticou o líder húngaro cujas medidas restritivas foram aprovadas pelo parlamento (Crédito:Aris Oikonomou / AFP)

Mesmo com tanta crítica da imprensa internacional e de organizações de direitos humanos, a verdade é que pouca coisa irá deter Viktor Orbán. Afinal, a seu favor ele conta com um conjunto de fatores que o permitiram edificar, pouco a pouco, o seu púlpito ditatorial. O enfraquecimento dos políticos oposicionistas é um deles. Desde 2006 a ala socialista do país perdeu espaço, quando vazou o teor de uma gravação do seu antecessor, o então primeiro-ministro Ferenc Gyurcsany. Na época, foi divulgado um áudio de um discurso privado em que Gyurcsany admitia ter mentido deliberadamente ao povo húngaro: “É obvio que mentimos ao longo destes 18 meses”.

Com a infeliz fala que até hoje ecoa pelo país, a oposição não conseguiu formar uma coalizão suficientemente forte para derrubar Orbán. Desde que foi eleito pela primeira vez, em 2010, o primeiro-ministro vem fazendo reformas para desmantelar a democracia da Hungria, como criar instrumentos para controlar a mídia, aumentar a influência do governo sobre a Justiça e revisar a constituição. Sua intenção é, como disse em uma entrevista em 2013, enfraquecer os poderes: “Em uma crise, você não precisa de governança por parte das instituições”.

Tamas Kovacs/MTI via AP

Corte de recursos

Outra razão para a força de Orbán é o fato do seu partido, Fidesz, fazer parte do Partido Popular Europeu (EPP), de centro-direita, que ocupa a maior parte do Parlamento da União Europeia (UE). No EPP predominam mentalidades que vão ao encontro à de Orbés, como defender que refugiados sejam expulsos das nações. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, diz que vai avaliar as medidas antidemocráticas do primeiro-ministro.

Em 2020, a Covid-19 criou o pânico e as condições ideais para Orbán concluir o seu plano de poder. A UE não tomou medidas contundentes para detê-lo, apenas fez alertas e recomendações. Há ainda, no entanto, uma maneira de brecá-lo: cortar recursos financeiros do bloco à Hungria, que correspondem a 6% do seu PIB. Essa atitude deteria a “Coronaditadura”, expressão usada pelo historiador israelita Yuval Harari, autor de “21 Lições para o Século XXI” para definir a atual tentação de muitos líderes mundiais a aproveitar o surto da Covid-19 para “abolir todos os controles e equilíbrios democráticos”. Uma decisão contundente como essa impediria que a primeira ditadura se legimite no bloco e assim sinalizaria ao mundo que, pelo menos ali, o autoritarismo não tem vez.

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