Brasil

Um crime tipificado

Denúncia do empresário Paulo Marinho expõe o principal motivo do esforço do presidente Jair Bolsonaro para controlar investigações na superintendência da Polícia Federal no Rio: proteger o filho Flávio no escândalo das rachadinhas

Crédito:  Adriano Machado

ESQUEMA Novas denúncias e investigações complicam a vida do filho 01 do presidente (Crédito: Adriano Machado)

“O delegado me falou: vai ser deflagrada a Operação Furna da Onça. Essa operação vai alcançar pessoas no gabinete do Flávio” Paulo Marinho, empresário e suplente de senador (Crédito:Divulgação)

O senador Flávio Bolsonaro está completamente enrolado. E sua história se complica mais a cada semana, conforme novos episódios, denúncias e depoimentos são revelados. Ficou claro que o presidente Jair Bolsonaro, com suas tentativas de controlar a Polícia Federal, conforme atesta a parte vazada do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, tenta de forma desesperada proteger o filho. Esse esforço já se manifestava na época da eleição. Na semana passada, Flávio foi alvo da denúncia de um ex-aliado, o empresário Paulo Marinho, que contou ter ouvido, entre o primeiro e o segundo turnos da disputa de 2018, que ele teria recebido informação sigilosa de um delegado da PF sobre uma investigação em curso do esquema de “rachadinha”, chamada de operação Furna da Onça. O delegado teria aconselhado a exoneração de Fabrício Queiroz e da fillha dele, Nathalia, que trabalhavam no gabinete de Flávio, impedindo o vazamento de informações para a imprensa, o que poderia implodir a candidatura de Bolsonaro. Queiroz era o responsável por receber os salários de outros 13 funcionários do gabinete. Ele e Flávio eram os principais alvos da investigação. Seguindo orientações do delegado-informante, que ainda não foi identificado, Queiroz e a filha foram exonerados.

DECISÃO O ministro Celso de Mello irá decidir sobre vídeo de reunião ministerial: liberação parcial ou na íntegra (Crédito:Rosinei Coutinho)

Além de ser suplente de Flávio no Senado, Marinho é o nome do PSDB para disputar a Prefeitura do Rio de Janeiro após a morte, em março, de Gustavo Bebianno, ex-ministro bolsonarista. Sua denúncia reacendeu na mídia o caso da investigação sobre o desvio de dinheiro público no gabinete de Flavio e expôs uma relação inaceitável entre a Polícia Federal e a família do presidente. No vídeo da reunião ministerial, Bolsonaro teria confirmado que queria mesmo intervir na Policia Federal, especialmente na superintendência do Rio de Janeiro, para proteger os filhos. O crime está sendo apurado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a pedido do procurador-geral da República Augusto Aras. Mantê-la aberta vai depender do impacto que o vídeo, peça-chave no inquérito, terá sobre a opinião pública. Relator do caso no STF, o ministro Celso de Mello deve decidir sobre a liberação do vídeo, se parcial ou na íntegra. A tendência é de liberá-lo na íntegra. Mello viu o vídeo e ficou estarrecido com seu teor. Enquanto isso, Bolsonaro trata de colocar gente da sua inteira confiança nos postos de comando da PF. Para a superintendência do Rio, por exemplo, foi nomeado o delegado Tácio Muzzi.

Nas investigações sobre o esquema da rachadinha, um outro nome ganhou força na última semana: o de Victor Alves, amigo de infância de Flávio e também seu advogado e ex-assessor. Em 2019, Flávio indicou o escritório de Alves ao PSL, para atender um contrato de 13 meses pelo qual recebeu R$ 500 mil, pago com verba pública do fundo partidário. Além de constar da investigação da PF, Alves também está no relatório do Conselho de Controle Atividades Financeiras (Coaf) por movimentação atípica de dinheiro. Ele tem uma franquia de uma loja de chocolate, comprada com o sócio no escritório Daniel Stoliar, por R$ 540 mil, em 2019. E outra franquia em sociedade com a mulher Mariana Frassetto Granato, também de loja de chocolate. E foi advogado de Flavio na investigação do Ministério Público que apontou suspeita de lavagem do dinheiro obtido com as rachadinhas na franquia de outra loja de chocolates do senador.

CONTROLE Tácio Muzzi foi nomeado superintendente da PF no Rio de Janeiro: interesses da família Bolsonaro em jogo (Crédito:Divulgação)

A PF abriu investigação para descobrir quem é o delegado-delator que protegeu a família Bolsonaro. Em nota, o deputado Junior Bozzella, vice-presidente nacional do PSL, defende que o partido cobre o ressarcimento do valor repassado ao escritório de Alves, usado “para fins particulares”. Colega de Flávio no Senado, o líder do PSL, Major Olimpio (SP), exigiu a apuração das denúncias pela direção nacional do partido por conta do envolvimento de Alves com o esquema de rachadinhas e pelas movimentações suspeitas apontadas pelo Coaf. Além de Alves, outros aliados de Flávio citados na denúncia de Marinho como cientes da ajuda do delegado-vazador serão ouvidos pela PF: o coronel Miguel Braga (chefe de gabinete) e Valdenice de Oliveira Meliga, a Val Meliga, ex-tesoureira do PSL-RJ.

Na quarta-feira (20), em um depoimento que durou 5 horas, Marinho confirmou à PF tudo que disse na sua denúncia para a imprensa. As contradições nas versões de Bolsonaro, ministros e membros da PF, ao longo dos últimos dias, formam um emaranhado que por si merece uma investigação mais profunda e não o arquivamento do inquérito. Mas, assim como os adversários, o presidente Bolsonaro também movimenta suas peças políticas e tenta conquistar o apoio do Centrão para impedir a aprovação de abertura de um processo de impeachment, caso ocorra uma reviravolta na decisão da PGR. O ex-ministro Sérgio Moro, cuja demissão deflagrou o inquérito, espera que o vídeo seja divulgado na íntegra. Em postagem no Twitter, no dia 17, elogiou a atitude de Marinho e disse “torcer” pelo esclarecimento dos fatos. A situação de Flávio se complica cada vez mais.