Um crepúsculo dez vezes anunciado

Anne Applebaum, redatora da revista The Atlantic, é uma das grandes jornalistas e escritoras da atualidade. Profunda conhecedora das atrocidades perpetradas pela União Soviética, ela é autora do clássico “A fome vermelha”, sobre o “morte por inanição” imposta por Stalin à Ucrânia no inverno de 1932/33.

Applebaum não se cansa de ganhar prêmios. Seu último livro — uma concisa obra-prima sobre a atração macabra por populismos autoritários que de tempos em tempos grassa pelo mundo — valeu-lhe o Pulitzer Prize em 2020. Com sua ampla percepção das tendências mundiais, Applebaum nos proporciona o pano de fundo de que necessitamos para compreender a ignorância que se espraia não só pelo Brasil e pelos Estados Unidos, mas também pela Hungria do primeiro-ministro Victor Orbán e pela Índia do presidente Narendra Modi — para ficarmos só nestes dois exemplos.

O único problema da obra é o título: “Twilight of Democracy” (O Crepúsculo da Democracia), que não poderia ter sido pior escolhido

Faço, porém, uma restrição ao título “Twilight of Democracy” (O Crepúsculo da Democracia), que não poderia ter sido mais mal escolhido. Trata-se de um chavão usado pelo menos umas dez vezes durante o século 20, e novamente em voga. É um caso típico do que os americanos denominam “profecias que se auto-realizam”, quer dizer, ideias tantas vezes marteladas que acabam encontrando adeptos. Mas o pior não é isso. O problema é que esse tipo de formulação traz implícita a noção de que a ruptura (breakdown) de regimes democráticos tendem a ocorrer de forma praticamente automática, sob o impacto de grandes uniformidades — econômicas, culturais, sanitárias. Crises econômicas, por exemplo, não necessariamente se traduzem em crises capazes de trazer abaixo todo o arcabouço constitucional de um país. Regimes democráticos não desmoronam por si mesmos, são derrubados por pseudointelectuais, sub-ideólogos ou políticos corruptos que ingressam na política para solapar os valores e instituições em que elas se baseiam.

Anne Applebaum tem plena consciência disso, tanto assim que adotou como epígrafe uma afirmação de Julien Benda (La Trahison des Clercks, 1926; A traição dos letrados, em tradução livre): “Em nossa época, vivemos a organização política dos ódios”. Applebaum comenta: “de fato, se a democracia liberal entrar novamente em colapso, isso será obra de uma nova geração de clercs: pensadores, intelectuais, jornalistas, blogueiros e artistas empenhados em solapar nossos valores”.

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