Edição nº2573 18/04 Ver edições anteriores

Um apelo à verdade

Estava aqui pensando com minhas teclas sobre a monumental quantia de dinheiro que o País gasta com essa busca incessante por Justiça. Isso nos últimos anos, já que Justiça é coisa nova para nós. No governo militar ninguém perdia tempo correndo atrás de Justiça. Para quê? Com direitos cassados, não tinha jeito.

Nos primeiros anos da Nova República, tempos de Sarney e de Collor, a Justiça ainda não estava na moda. Não fosse assim, Zélia Cardoso de Mello não teria feito suas estrepolias. Mas isso mudou. Millennials descobriram os benefícios da Justiça e começaram com essa picuinha de exigir direitos. Deu no que deu. Um prejuízo financeiro imenso.

O trabalho do Ministério Público, da Polícia Federal, promotores, advogados, juízes e investigadores, além de material de escritório, papel higiênico, luz, água, enfim, um ecossistema caríssimo para enxugar gelo combatendo crimes, corrupções e contravenções. Afinal, convenhamos, pegam um corrupto aqui, brota outro ali. Para cada Roger Abdelmassih aparece um João de Deus. Para cada caseiro, um motorista. Em nossa ilusão, movimentamos uma engrenagem bilionária. Isso precisa acabar.

A solução não está nos tribunais, nem nos escritórios de advocacia. Muito menos nas delegacias e presídios. Crime é sintoma, não doença. Para evoluirmos, temos que acabar com a raiz do problema: a mentira. Todo mundo mente. Mentir de maneira contumaz é a ética estabelecida nesse País obcecado por Justiça. Mentem políticos e criminosos, CEOs, líderes sindicais, operários e — por que não? — cidadãos comuns.

Um imovelzinho não declarado no imposto de renda, uma doençazinha inventada para não trabalhar numa sexta-feira, uma vista grossa na inspeção da obra. Sabe como é? A imprensa, claro, se faz de desentendia. Isso a Globo não mostra (sempre quis usar essa frase). Proponho dar um basta e enfrentar o problema com uma lei que proíba a mentira. E pronto, acabou.

Vamos ser um País onde só se fala a verdade. Falou a verdade, está liberado. Rápido, simples e barato.
No trânsito:

– Eu sei, seu guarda. Bebi duas vodcas e estava acima do limite de velocidade.

– Ok, cidadão de bem, está liberado. Cuidado que tem outra blitz ali na frente.

Pronto. Só nesse diálogo já economizamos um dinheirão em papelada, guincho e sei lá.

Imagine que bom viver num País onde o médico diz:

– O senhor não tem nada, mas vou receitar este remedinho aqui, já que ganho comissão do laboratório.

– Só isso doutor?

– Posso implantar essa prótese desnecessária aqui, se o senhor não se incomodar.

Ao receber o apartamento comprado na planta, seremos informados que a construtora recomenda que ninguém use o playground e a sala de ginástica, onde foi usado cimento de pior qualidade e tudo pode desabar sobre a garagem.

Em suas campanhas, os deputados serão claros:

– Quem paga a minha campanha é o setor agropecuário. Então se você defende o meio ambiente, vote no fulano que abraça árvores.

Ou mesmo:

– Apoio este projeto porque recebi 200 mil reais do partido do presidente da República.

Percebe? Chega de enganação. Chega de STF. Num País onde todos só falarão a verdade, seremos até mais solidários. A verdade, finalmente, nos libertará.

Para cada Roger Abdelmassih aparece um João de Deus. Para cada caseiro, um motorista. Movimentamos uma engrenagem bilionária

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Mentor Neto

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