Um agrado ao custo de R$ 4 bilhões
O reajuste no salário dos ministros do STF, bomba preparada pelo Congresso, cai no colo não só do governo Bolsonaro, como no do País
APAGAR DAS LUZES Ministros do STF contemplados no fim do ano: virou tradição (Crédito: Ailton de Freitas)
O presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE) colocou a bomba. O presidente Michel Temer acendeu o pavio. No início do ano que vem, vai estourar no colo do governo do presidente eleito Jair Bolsonaro o reajuste dos salários dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O salário dos ministros, que define o teto dos vencimentos dos servidores públicos, passará dos atuais R$ 33 mil para R$ 39 mil, um reajuste de 16,38%. Em um país onde mais da metade da população, segundo o IBGE, vive com um salário mínimo ou menos, o aumento para os ministros vai gerar um efeito cascata com consequências para todo o funcionalismo. O impacto previsto é de R$ 1,6 bilhões apenas para os cofres federais. Em todo o país, o efeito total poderá atingir a ordem de R$ 4 bilhões. Na reta final de seu mandato, Temer aproveitou a bomba encaminhada pelo Congresso para fazer um afago ao Judiciário, ao qual seu futuro estará atrelado por conta dos inquéritos contra ele que hoje tramitam no STF.
Para que a imagem dos magistrados e do próprio Temer ficasse um pouco mais amena, o governo federal negociou em troca a extinção de benefícios, como o auxílio-moradia. O problema é que esta contrapartida não foi nada favorável ao contribuinte. A economia prevista em troca do aumento é de somente cerca de R$ 400 milhões.
Orçamento
O ministro do Planejamento, Esteves Colnago, afirmou durante a semana que o impacto nas contas públicas chegará a R$ 1,6 bilhão ao ano apenas na União. O R$ 1,3 bilhão será pago com o Orçamento do Judiciário e do Ministério Público. Outros R$ 300 milhões vão arcar aumentos no Executivo, cujas remunerações são baseadas também no teto do STF. Além disso, o problema é que o aumento nos vencimentos dos ministros do Supremo tem “efeito cascata” nas carreiras do funcionalismo público estadual e municipal.
Já virou tradição que os aumentos ao Judiciário aconteçam no apagar das luzes de governos. O último foi concedido ao final do primeiro mandato de Dilma Rousseff, em 2014. Na ocasião, o reajuste foi de 22%. Além do fim do auxílio-moradia, promete-se um esforço de outros cortes que chegariam a R$ 600 milhões. Mesmo assim, o saldo negativo nas contas públicas para o próximo governo permanecerá na casa de R$ 1 bilhão ao ano. Perguntado sobre o aumento, o presidente eleito transferiu a responsabilidade para quem acendeu o pavio. “O Temer que decidiu sancionar, tá ok? A minha responsabilidade começa a partir de 1º de janeiro”.
No dia seguinte, o STF começou a julgar a constitucionalidade do indulto de Natal. O presidente Michel Temer concebeu-o mais amplo, de modo a que abarcasse também aqueles que cometeram crime de corrupção. Estima-se que 22 presos na Operação Lava Jato poderiam ganhar o benefício. Por decisão liminar do ministro Luís Roberto Barroso, o indulto na forma defendida por Temer foi suspenso. Até a decisão do plenário do Supremo, que começou a se debruçar sobre o tema na quarta-feira 28. O julgamento ainda não tinha sido concluído. Espera-se que não comece por aí a troca de favores.











