CATÂNIA, 11 JUN (ANSA) – A emissora pública italiana Rai entrou no centro de uma polêmica por veicular em um programa no início da semana declarações contrárias aos juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, assassinados pela máfia siciliana em 1992.
A última edição da atração “Realiti” foi dedicada a músicos da Sicília que cantam em dialeto napolitano, os chamados “neomelódicos”. Em determinado momento, um dos participantes, Leonardo Zappalà, cujo nome artístico é “Scarface”, foi questionado pelo apresentador Enrico Lucci sobre Falcone e Borsellino.
“Essas pessoas que fizeram essas escolhas de vida sabiam as consequências. Como gostamos do doce, também devemos gostar do amargo”, disse, em referência aos juízes. Falcone e Borsellino lideraram os inquéritos contra a Cosa Nostra e foram mortos em atentados a bomba em 1992.
Zappalà também permaneceu sentado enquanto os magistrados eram aplaudidos de pé no programa. Suas figuras são reverenciadas até hoje na Itália como símbolos da luta contra a máfia.
A atração também citou como exemplo dos “neomelódicos” Niko Pandetta, o “Tritolo”, sobrinho de um mafioso que cumpre prisão perpétua em regime de isolamento total.
Em um vídeo publicado depois da transmissão, Pandetta mostrou uma pistola de ouro para ameaçar um conselheiro regional da Campânia, Francesco Emilio Borrelli, que o criticara. Além disso, ele afirmou ter escrito uma música baseando-se em uma carta que o tio teria lhe enviado da cadeia.
No entanto isso significaria uma violação do regime “41 bis”, como é chamado o sistema de isolamento imposto a expoentes da máfia. O caso motivou até a abertura de um inquérito do Ministério Público de Catânia.
“Realiti deve recompensar imediatamente a memória das vítimas, dos familiares e de uma inteira nação que ainda carrega as feridas daqueles atentados”, disse o parlamentar Giorgio Mulè.
Em reação à polêmica, o CEO da Rai, Fabrizio Salini, afirmou que o episódio é “inaceitável”. “Temos o dever de ser garantidores da legalidade, mas não o fomos. Pedimos desculpas aos parentes de Falcone e Borsellino, aos familiares de todas as vítimas da máfia e aos telespectadores”, disse. (ANSA)