Edição nº2573 18/04 Ver edições anteriores

Tudo pelo social

Prezado presidente;

Venho por meio desta dar voz a um apelo de milhões de brasileiros.

Estou certo que, no isolamento do poder, em Brasília, o senhor pode imaginar que as reformas da Previdência e Tributária possam parecer importantes.

Bobagem, presidente.

Deixe para o Posto Ipiranga esses problemas menores e o trato com o Congresso, onde ele já se mostrou um verdadeiro diplomata. Importante mesmo é o senhor investir em social. Rede social.

Rede social, presidente, é coisa que o senhor, como bom brasileiro, domina.

Somos bons nisso desde o tempo do Orkut, quando tomamos a rede de assalto a tal ponto que os gringos desistiram. O senhor, então, nem se fale.

Por isso meu apelo, presidente.

Passados três meses, o senhor continua governando pelo Twitter.

É claro que o Twitter tem seus encantos. Nada de discursos longos, horários reservados na TV, Voz
do Brasil.

Twitter é pá e bola, certo? Um veículo prático, pois seus filhos podem postar e ninguém percebe. Mas o social (no sentido de network) é mais que isso.

O senhor foi eleito por brasileiros anônimos de todas as redes. Gente que nem conta verificada tem. Chegou a hora de investir no social para todos.

De WhatsApp eu entendo. Tecnicamente nem é uma rede social de verdade e, de mais a mais, o senhor não poderia passar seu celular para todo mundo. Além disso, o WhatsApp é o antro das terríveis fake news que o senhor passou a abominar depois de eleito.

Mas e o Instagram? Hoje o senhor tem lá um instagranzinho mixuruca.Não pode. A nação clama por sua presença consistente nesta importante rede.

Presidente, deu no Datafolha.

O seu ruim/péssimo bateu 30%, me desculpe tocar neste assunto tão sensível.

O Collor que é o Collor, quando confiscou a Poupança tinha só 19%. Sabe por quê?

Imagem, presidente. Imagem é tudo.

E imagem é Instagram.

Além disso, investir no Instagram é investir em inclusão social.

Milhões de brasileiros que hoje estão esquecidos pelo seu governo poderão acordar com aquele pãozinho sem miolo besuntado de leite condensado, renovando as esperanças em dias melhores. Aquelas broas de milho com danoninho vão derrubar seus 30% para um dígito num final de semana. É batata.

Já pode ver aquele pôr do sol no planalto, hein? Fale a verdade. Imagine que beleza, num domingo com o Palmeiras jogando, o senhor faz uma foto com as pernas esticadonas, de chinelo, TV ao fundo. Quem sabe a Damares Alves recitando uma oração para começar a semana? Seus stories vão bombar quando demitir ministros ao vivo. Está mais do que na hora do senhor abraçar os brasileiros preteridos em outras redes.

Minha mãe, por exemplo, não votou no senhor, mas não é por isso que a coitada deve ficar ao relento, no Facebook, sem acompanhar o seu governo, não é mesmo? Ela não entende nada de Twitter. Como ela, há milhões de brasileiros. Para o Facebook, quem sabe um ou outro textão onde o senhor — ou alguém familiarizado com o assunto — poderia explicar melhor a política econômica.

Vamos lá, presidente.

Atenda ao pedido deste cidadão. Tenho certeza que seu investimento no social vai trazer frutos.

E quando as redes mais conhecidas estiverem dominadas, Trump morrendo de inveja, o senhor dará o golpe final — claro que com o conhecimento e a aprovação da primeira-dama — com um perfil no Tinder.

Aí pronto.

Será só correr para o abraço. Literalmente.

Basta de Twitter, presidente. Poste imagens no Instagram e mande alguém cuidar dos textões no Facebook. Depois será a vez do Tinder


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