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Trump x Biden: o que muda no cenário internacional pós-eleição?

Por Tatiana Girardi SÃO PAULO, 30 OUT (ANSA) – A eleição do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mudou a política externa norte-americana de maneira intensa, com o republicano abdicando dos tradicionais organismos internacionais e adotando uma forma de ação mais direta e unilateral, porém uma eventual vitória de Joe Biden pode proporcionar uma nova guinada.   

A postura de Trump foi oposta à de seu antecessor, Barack Obama, e deve causar problemas para Biden em caso de vitória do democrata no pleito de 3 de novembro, especialmente considerando os desafios criados pelo republicano em múltiplas frentes internacionais.   

Ao longo de seus quase quatro anos de mandato, Trump atacou órgãos como a Organização das Nações Unidas (ONU) e seu Conselho de Segurança, retirou os EUA do tratado nuclear com o Irã e rompeu com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Acordo de Paris sobre o clima.   

Também sob ordens do mandatário, foi intensificada a aplicação de sanções econômicas e políticas unilaterais, especialmente contra Irã e China, e houve ainda uma abordagem completamente nova na relação com a Coreia do Norte. Outro ponto crucial foi a movimentação de retirada de tropas norte-americanas de Iraque, Síria e Afeganistão.   

Além disso, Trump intermediou acordos de normalização de relações diplomáticas entre rivais históricos no Oriente Médio – Israel, Emirados Árabes Unidos e Bahrein. Entre erros e acertos, no entanto, a postura do republicano modificou amplamente a visão internacional sobre a liderança dos EUA no mundo.   

Para o coordenador da pós-graduação em relações institucionais e governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, Márcio Coimbra, uma eventual eleição de Biden vai acabar levando a uma “recalibragem do sistema internacional” por conta da promessa do candidato de reaproximar os EUA de organismos multilaterais.   

Guerras internacionais e Irã – Ao longo dos anos, Trump adotou uma postura de retirada e diminuição de tropas ao redor do mundo. Para ele, era preciso dar fim a “guerras intermináveis” e focar a atenção em questões internas. Para Coimbra, essa postura é reflexo do que pensam os republicanos.   

“Os dois partidos têm posturas diferentes em relação a guerras.   

Apesar de a gente achar que os republicanos começam guerras e os democratas terminam guerras, a realidade é o oposto. Os republicanos são muito mais isolacionistas e não querem meter suas patas ao redor do mundo, enquanto os democratas têm uma postura muito mais interventora na área internacional”, disse o cientista político em entrevista à ANSA.   

O especialista ressalta, no entanto, que acredita que haverá um incremento em operações mais objetivas, como o uso de tecnologia de ponta em ações militares na era Obama. “Trump fazia incursões objetivas, como por exemplo, o assassinato do [Qassem] Soleimani. E os democratas defendem uma presença maior de tropas no exterior. Então, acredito que a gente possa ter um incremento de tropas americanas no exterior, mas os democratas são mais reticentes em fazer esse tipo de campanha mais combativa que o Trump faz. A única exceção que a gente teve, e isso pode nos sinalizar como seria no governo Biden, foi com o governo Obama”, ressalta o cientista política, pontuando que o ex-presidente democrata criou um comando especial que operava muito por meio de drones.   

“O Obama conseguiu brecar o terrorismo internacional usando esses métodos seletivos e de segurança nacional onde você tem um comando central na Casa Branca com autorizações rápidas, fáceis e seguras para atingir, por meio de drones, os objetivos internacionais. Mais ou menos o que foi feito no caso do Soleimani, mas o Obama fazia isso cotidianamente”, ressaltou.   

O professor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas Pedro Brites tem opinião semelhante sobre o uso de drones e a postura que poderá ser adotada por Biden em caso de vitória.   

“Acho que tem uma questão central para pensar a política americana em uma eventual vitória democrata porque, bem ou mal, quem colocou o país nessa situação foi o governo [George W.] Bush e, apesar de o Obama vir com um discurso contrário, ele mudou os meios, mas implantou o uso de drones”.   

Já no caso do acordo nuclear com o Irã, a situação se põe mais complicada. O tratado foi firmado em 2015, quando Obama ainda era presidente, após anos de intensas negociações, mas acabou rompido por Trump em maio de 2018.   

Além disso, a assinatura de acordos de normalização diplomática entre Israel e países do Oriente Médio mudou o cenário internacional e incomodou Teerã, que afirmou que essas nações árabes vão se “arrepender”.   

“Me parece que o governo Biden teria alguns desafios no Oriente Médio porque você tem uma relação que foi muito alterada desde o governo Trump. O peso que se deu a Israel como aliado estratégico foi muito maior, teve a questão de Jerusalém. Os EUA sempre tentaram não mexer muito na questão que envolve a Palestina para manter a relação com os países árabes e, com a possível volta dos democratas, a gente vai observar um cenário diferente”, pontua Brites à ANSA.   

“É difícil ter certeza sobre como Biden vai atuar. Acho que os EUA vão continuar com essa política de alianças locais, especialmente Arábia Saudita, além de Israel. E continuar a política de isolamento com relação ao Irã, que todo mundo sabe que é um desafio histórico para os Estados Unidos”, acrescentou e professor, que lembra que Obama precisou “sacrificar” muitas ações para conseguir o acordo nuclear.   

Rivalidade com a China deve continuar – Grande rival dos Estados Unidos no mundo, a China deve continuar antagonizando o país no cenário internacional. Isso porque os problemas entre Pequim e Washington são anteriores ao governo Trump, embora tenham se acentuado com o republicano.   

Porém os especialistas consultados pela ANSA apostam em uma mudança na forma de combate no caso de vitória dos democratas: deixaria de ser algo direto para voltar a ser feito através de organismos internacionais.   

“Me parece que a questão da rivalidade entre EUA e China já ultrapassou a pauta de um ou de outro candidato, passou a pauta de um ou outro partido. Me parece uma pauta mais latente na sociedade americana e em todo o establishment, nas Forças Armadas”, ressalta Brites.   

“Até pela histórica pauta do governo democrata, talvez [Biden] use mais as organizações institucionais na questão da China, e não tão unilateralmente, mas me parece que continuaria essa política de competição porque isso é uma coisa mais estrutural”, concluiu.   

Márcio Coimbra, do Mackenzie, segue na mesma linha. “Acho que com a China a gente vai ter uma mudança porque o Trump tem uma postura muito mais ativa, que não se vale muito dos organismos internacionais. Ele faz mais uma oposição direta, colocando a Casa Branca na linha de frente. Os democratas fazem um jogo mais pelos organismos internacionais, o que é mais lento e muitas vezes leva as pessoas a acreditarem que é pouco efetivo. Mas é simplesmente uma outra estratégia: eles iriam pressionar a China por outros caminhos. Agora, se essa estratégia funciona, ela só dá resultados no médio-longo prazo”, explicou o cientista político.   

O especialista lembra que, no caso da Coreia do Norte, essa abordagem mais dura e direta de Trump provocou os melhores resultados já obtidos pelos norte-americanos, mas que tanto republicanos como democratas “têm os mesmos objetivos” na questão chinesa.   

Para Coimbra, os resultados do atual chefe da Casa Branca são mais “midiáticos e de curto prazo”. “Os Estados Unidos passaram a vida inteira negociando com a Coreia do Norte em fóruns internacionais. Chega o Trump e ele entra em embate com a Coreia do Norte, e os progressos que ele consegue em seis meses são maiores do que os que se consegue em 20 anos. Então, depende se isso vai ser melhor ou pior, depende dos objetivos e com quem você está lidando do outro lado. Com a Coreia do Norte, por exemplo, o Trump conseguiu ser muito mais efetivo, conquistou muito mais resultados”, ressaltou. (ANSA).   

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