Aproximação de Trump com Putin amplia pressão sobre a Ucrânia e divide aliados

Enviados dos EUA se reúnem com Zelensky na Noruega e devem seguir para conversas com Moscou; convite a Putin para o G20 reforça debate sobre reabilitação diplomática da Rússia

Donald Trump recebe Vladimir Putin em Anchorage, no Alasca, em 15 de agosto de 2025. Foto: Benjamin D. Applebaum/Departamento de Defesa dos EUA.
Foto: Donald Trump recebe Vladimir Putin em Anchorage, no Alasca, em 15 de agosto de 2025. Foto: Benjamin D. Applebaum/Departamento de Defesa dos EUA.

A intensificação dos contatos entre o governo Donald Trump e Vladimir Putin reacendeu o debate sobre o custo político de uma negociação para encerrar a guerra na Ucrânia. Enquanto Washington apresenta a ofensiva diplomática como tentativa de abrir caminho para um acordo, aliados europeus e autoridades ucranianas veem o risco de que Moscou recupere espaço internacional sem oferecer contrapartidas concretas.

Nesta segunda-feira, 20, o enviado especial americano Steve Witkoff participou de conversas em Oslo com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e líderes europeus. Jared Kushner, genro e assessor de Trump, acompanhou a reunião de forma remota.

Depois da etapa na Noruega, Witkoff deve viajar à Rússia para discutir propostas elaboradas com participação de Kiev e de parceiros europeus. Não há, por enquanto, anúncio de acordo de cessar-fogo ou confirmação de uma reunião direta entre Trump, Putin e Zelensky.

Contatos com Moscou ganham peso político

A nova rodada de diálogos ocorre enquanto Trump sinaliza disposição para ampliar a agenda com a Rússia para além da guerra na Ucrânia. O presidente americano afirmou estar aberto a uma eventual reunião com Putin e o líder chinês Xi Jinping durante a cúpula da Apec, prevista para novembro, na China.

O tema central, segundo Trump, seria o controle de armamentos nucleares. A hipótese, porém, é vista por críticos como um possível movimento de normalização da relação entre Washington e Moscou, em um momento em que a guerra continua e a Rússia mantém territórios ucranianos ocupados.

Outro gesto que alimentou essa leitura foi o convite feito por Trump para que Putin participe da cúpula do G20, em dezembro, em Miami. A Rússia segue integrante do grupo, mas Putin não comparece pessoalmente a um grande encontro multilateral no Ocidente desde antes da invasão em larga escala da Ucrânia, em 2022.

Ucrânia teme pressão por concessões

O ponto mais sensível das negociações continua sendo o futuro dos territórios ocupados pela Rússia e as garantias de segurança exigidas pela Ucrânia. Kiev insiste que não pode aceitar a perda de áreas reconhecidas internacionalmente como parte de seu território sob pressão militar.

A leitura de que os Estados Unidos buscam acelerar um entendimento preocupa autoridades ucranianas, sobretudo diante da dependência do país de apoio militar, financeiro e de inteligência vindo de Washington e de parceiros europeus.

Para o governo Trump, no entanto, conversar com Putin não representa endosso à invasão, mas uma tentativa de construir uma solução negociada. A estratégia enfrenta resistência porque qualquer acordo que envolva concessões territoriais pode ser interpretado como recompensa à agressão russa.

Entre diplomacia e reconstrução de relações

O diálogo entre Washington e Moscou pode ainda incluir assuntos paralelos à guerra, como a libertação de cidadãos americanos detidos na Rússia e a retomada de conversas sobre segurança estratégica.

Especialistas ouvidos pela imprensa americana avaliam que uma agenda mais ampla pode reduzir o isolamento internacional de Putin e deslocar a Ucrânia do centro das discussões. Já defensores da aproximação argumentam que nenhum acordo duradouro será possível sem interlocução direta com o Kremlin.

O resultado das conversas em Oslo e da possível viagem de Witkoff à Rússia deve indicar se os Estados Unidos conseguirão combinar pressão diplomática, participação europeia e garantias a Kiev — ou se a busca por um acordo rápido ampliará a vulnerabilidade ucraniana diante de Moscou.

Da IstoÉ