Trump pressiona líderes europeus com vazamento de mensagens

Trump pressiona líderes europeus com vazamento de mensagens

"PresidenteDivulgação quebra decoro diplomático para expor "outro lado" daqueles que criticam ameaças dos EUA contra a Groenlândia. Presidente americano também ameaçou taxar vinhos franceses.O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump , vazou nesta terça-feira (20/01) mensagens enviadas a ele pelo presidente da França, Emmanuel Macron, e o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Mark Rutte. Além de quebrar o decoro diplomático, o republicano pressiona os líderes europeus num momento de alta tensão sobre a Groenlândia, território da Dinamarca cuja segurança é coberta pela organização.

Com potencial de causar constrangimento para os autores, os textos foram divulgados por Trump na rede social Truth Social. A mensagem de texto de Macron, que reconheceu a autenticidade das mensagens, dizia: "Meu amigo, estamos totalmente alinhados sobre a Síria. Podemos fazer grandes coisas no Irã. Eu não entendo o que você está fazendo na Groenlândia."

O tom adotado pelo chefe do Palácio do Eliseu se distancia do explícito tom crítico da França e de outros membros da Otan, que publicamente chegaram a acusar Trump de "chantagem" , sobre as pretensões cada vez mais agressivas dos EUA de assumir o controle da Groenlândia.

Macron também propôs que, depois do Fórum Econômico Mundial em Davos, Trump estique a viagem para uma reunião do G7. "Posso convidar os ucranianos, dinamarqueses, sírios e russos às margens", prosseguiu, citando os atores envolvidos em conflitos que figuram alto na lista de temas sensíveis para a agenda entre Europa e EUA. Outra proposta do francês foi um jantar na capital francesa.

Quebra de decoro

Horas depois, Trump publicou mais uma suposta reprodução da tela do seu celular, em que Rutte elogia as ações dos EUA na Síria, Faixa de Gaza e Ucrânia. "Estou comprometido a achar um caminho adiante sobre a Groenlândia", escreveu o chefe da Otan, que também confirmou a autoria da mensagem. "Mal posso esperar para vê-lo."

Apesar de a Groenlândia estar sob proteção da Otan, Trump insiste que comprá-la é uma questão de segurança, em vista de percebidas ameaças de Rússia e a China.

Rutte se recusa a falar publicamente sobre a ilha do Ártica, apesar da crescente preocupação com a retórica de Trump e o que ela significaria para a integridade territorial dinamarquesa. Depois de a Dinamarca ter alertado que qualquer ação militar dos EUA poderia levar ao fim da Otan, Rutte disse: "Eu nunca poderia comentar isso. É impossível em público."

Diante da escalada de tensão em janeiro, países europeus membros da Otan, entre eles Alemanha e França, enviaram soldados à Groenlândia para treinamento. O gesto foi lido como expressão de apoio à Dinamarca em detrimento das pretensões de Trump.

Ressentimento pelo Nobel

Vazou ainda um recado enviado por Trump ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre. O americano teria dito que não sentia mais "a obrigação de pensar puramente na paz", uma vez que não foi agraciado com o Nobel da Paz de 2025.

O prêmio é concedido pelo Comitê Nobel Norueguês, composto por cinco membros apontados pelo Parlamento da Noruega e aconselhados por especialistas. "Considerando que o seu país decidiu não me dar o Nobel da Paz por ter impedido mais de oito guerras", escreveu o americano, "eu agora posso pensar no que é bom e apropriado para os Estados Unidos da América."

Quem levou o último Nobel foi a opositora venezuelana María Corina Machado, que ofereceu sua medalha a Trump depois que forças de segurança americanas capturaram Nicolás Maduro.

Em outra mensagem co-assinada por Støre e pelo presidente da Finlândia, Alexander Stubb, os dois líderes nórdicos disseram que era hora de reduzir as tensões. "Tanta coisa está acontecendo ao nosso redor que nós precisamos nos manter unidos."

Ameaça sobre Champanhe

As mensagens privadas que líderes mundiais trocam entre si raramente chegam ao público de forma literal, o que lhes permite projetar uma imagem em público e manter relações potencialmente diferentes entre eles.

Mas Trump — como é do seu feitio em vários domínios — lança a tradição e a delicadeza diplomática ao vento.

É sensível, por exemplo, que ele tenha levantado a cortina para o fato de Macron estar disposto a convidar Ucrânia e Rússia para uma reunião. O momento é de costura de um acordo para pôr fim à guerra, e o presidente francês não expressara a ideia publicamente até então.

O americano ainda aumentou o mal-estar com os franceses ao ameaçar tarifas de 200% sobre os vinhos e o champanhe importados da França para os EUA. A medida seria uma retaliação depois que Macron recusou o convite do americano para se juntar ao seu controverso Conselho de Paz para Gaza e outras regiões em conflito.

"A ameaça de tarifas para influenciar nossas políticas externas são inaceitáveis e ineficientes," disse uma autoridade francesa sob anonimato.

ht/ra (AP, ots)