Jorge e Bayron Benítez são irmãos e quando crianças chegaram sem documentos aos Estados Unidos, de El Salvador. Jorge está protegido por um programa que lhe permite trabalhar e impede sua deportação, mas seu irmão mais novo não, devido à ofensiva contra a imigração do presidente Donald Trump, que nesta semana reforçou as regras.
A vida dos dois irmãos tem sido um turbilhão de emoções nos últimos anos, depois que o presidente republicano anunciou em 2017 que suspenderia o programa de Ação Diferida para Chegadas na Infância (DACA, na sigla em inglês).
Criada por seu antecessor democrata Barack Obama em 2012, o DACA surgiu para trazer uma solução para centenas de milhares de jovens sem documentos que chegaram ao país quando crianças, conhecidos como “dreamers”(sonhadores).
“Trump nos usa”, disse Jorge, 21 anos, sobre as tentativas do presidente de usar o destino dos “dreamers” em suas negociações políticas.
“Ele nos trata como um jogo, como se fossemos peões”, disse o jovem, que, como beneficiário do DACA, está protegido contra deportação e também pode trabalhar, estudar e ter carteira de motorista.
Para acessar este programa, era preciso ter mais de 15 anos no momento da inscrição, portanto, seu irmão de 17 anos, Bayron, não pôde se beneficiar antes que Trump o cancelasse.
A decisão de cancelar o programa foi contestada em tribunal e seguiu para a Suprema Corte, que em meados de junho decidiu contra o governo e a favor dos “dreamers”.
Assim, a família de Bayron decidiu iniciar imediatamente o processo para que ele pudesse ter os mesmos documentos que seu irmão. Eles processaram o governo e obtiveram a vitória em um tribunal federal de Maryland em 17 de julho, que determinou que o governo tinha que emitir novas permissões.
Mas na terça-feira, o governo Trump anunciou que cortaria a permissão do DACA de dois anos para um e não aceitaria novos pedidos.
– Diferenças entre os irmãos –
“Isso chegou do nada”, disse Bayron, que lamenta não ter conseguido uma carteira de motorista como seus amigos ou um emprego bem remunerado. Sem documentos, ele também é exposto à deportação para um país sobre o qual nem se lembra.
De acordo com o Conselho Americano de Imigração, há cerca de 66.000 jovens nos Estados Unidos na situação de Bayron, em comparação com cerca de 700.000 que conseguiram entrar no programa DACA.
“Minha mãe vê a diferença entre os irmãos, porque meu irmão quer trabalhar, mas não há muitas oportunidades para ele, ela não quer que ele faça um trabalho como o que ela faz, que se mata todos os dias para levar um pouco de dinheiro para casa “, disse Jorge.
A mãe os levou para os Estados Unidos aos 3 e 5 anos de idade, um ano depois de terem fugido de seu país devido à violência de gangues.
“Não tivemos escolha a não ser fugir”, disse Jorge. “Lembro-me de ver nossos vizinhos na rua com a cabeça ensanguentada.”
Jorge disse que estava muito “zangado” com o anúncio e lembrou que fazer um pedido para acessar o programa é muito caro.
O fato de sua duração ter sido reduzida de dois para um ano torna a questão uma preocupação constante, explicou ele, porque o processo deve ser realizado seis meses antes do vencimento da licença.
“O DACA não é barato e as famílias gastam todas as suas reservas, porque isso representa esperança”, disse ele, especificando que, no caso de imigrantes, essas poupanças são escassas e obtidas com grande esforço, com base em horas extras sobre o salário mínimo.
Para Jorge, os próximos meses serão “cruciais” a menos de 100 dias de uma eleição na qual Trump busca um segundo mandato, mas figura atrás nas pesquisas.
“Acho que os latinos vão perceber que Trump não está fazendo nada do que ele disse que faria por nós”, disse o jovem.
Após o anúncio de Trump, seu adversário Joe Biden, o candidato que será oficializado pelos democratas na convenção de agosto, criticou a decisão do governo.
“O presidente Trump não mede esforços para promover a agenda política anti-imigração, mesmo às custas dos jovens que cresceram neste país e que são americanos em sua essência”, disse o ex-vice-presidente.
Jorge afirmou que espera que os eleitores latinos percebam que a única coisa que o presidente faz é agir bem “com seu povo”.
“E seu povo é supremacista branco”, disse ele.