O ex-ministro da Defesa Aldo Rebelo (DC) afirmou que os brasileiros devem “agradecer” ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pela naturalização da defesa dos interesses nacionais.
“Antigamente, isso era visto com desconfiança, como se fosse algo anacrônico, do passado. Ao colocar em primeiro lugar o interesse dos EUA, o presidente americano naturalizou que nós também possamos colocar o interesse do Brasil em primeiro lugar“, declarou Rebelo em entrevista à IstoÉ.
Desde que retornou à Casa Branca, Trump declarou a intenção de anexar o Canal do Panamá e a Groenlândia e impôs sobretaxas às transações comerciais com diversos países — incluindo o Brasil — e, após uma operação militar que prendeu o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, afirmou que a nação latina deverá entregar de 30 a 50 milhões de barris do petróleo aos americanos.
“O pretexto foi o petróleo, como ficou comprovado pela composição com a vice do Maduro [Delcy Rodríguez, presidente interina desde a captura do titular]. O americano não precisa da hipocrisia, ele tem força para dizer o que pensa e admitiu que queria o petróleo“, afirmou Rebelo, que chefiou quatro ministérios nos governos Lula (PT) e Dilma Rousseff (PT), presidiu a Câmara dos Deputados e é pré-candidato à Presidência da República pelo Democracia Cristã.
Na avaliação do ex-ministro, a lição de Trump é para que o Brasil altere sua legislação ambiental e supere a atuação de ONGs (Organizações Não Governamentais) em órgãos federais para explorar as próprias reservas de terras raras, petróleo e outros recursos minerais e alcançar a prosperidade econômica, a exemplo de nações como Noruega, Canadá e Austrália. O presidente Lula, na sua avaliação, não está disposto a isso.
“Você não pode ter o petróleo da Margem Equatorial, os insumos do potássio e do fosfato para a agricultura […] isso é inaceitável, são obstáculos que precisam ser removidos”, afirmou à IstoÉ. “O presidente [Lula] é cúmplice desse bloqueio, porque dentro do governo dele estão as instituições que bloqueiam qualquer tipo de investimento que gere renda, emprego, tributos, e divisas para o país. É no Ministério do Meio Ambiente, no Ibama, na Funai, no Ministério dos Povos Índigenas”.
Assista à entrevista
Leia a íntegra
IstoÉ Por que o senhor deseja se eleger presidente da República?
Aldo Rebelo O Brasil vive uma espécie de encruzilhada histórica. O país patina na economia e vive aquilo que os economistas chamam de voo de galinha, que é o voo curto e baixo — ou seja, não consegue crescer. Isso não acontece porque é um país inviável economicamente, mas porque há um bloqueio institucional que tem de ser retirado.
É preciso enfrentar o problema da desigualdade, elevando a qualidade da educação. Recuperar a capacidade de diálogo, conversar sobre os problemas sem ódio, e retomar agendas que foram negligenciadas, como a da segurança. Você anda na avenida Paulista, na principal cidade brasileira, e é o lugar onde mais se rouba celular no mundo. O delegado que investigou o PCC [Ruy Ferraz Fontes] foi assassinado no estado de São Paulo em plena luz do dia.
Na Amazônia, há um problema de segurança nacional, com as fronteiras sob controle do narcotráfico. Os Estados Unidos fizeram uma operação militar na Venezuela, às portas da Amazônia brasileira, e quais foram as providências? Nenhuma. Temos um governo que só pensa em aumentar despesa e impostos, sem construir um caminho para o país crescer. Tenho o desafio de oferecer minha experiência e minhas ideias para o rumo novo que o Brasil precisa tomar.
IstoÉ O senhor passou por cinco partidos mais estruturados, com tempo de televisão, palanques nos estados e representação no Congresso, antes de chegar ao Democracia Cristã. Por que concorrer nesta sigla?
Aldo Rebelo O partido foi a oportunidade que me foi oferecida. Conheço o presidente [João Caldas], que integrou a mesa da Câmara comigo, e ele me garantiu que eu ficaria à vontade para defender minhas ideias.
É um partido pequeno, não dispõe de bancada ou fundo eleitoral, mas ao mesmo tempo isso lhe garante não ter dono, não ser comandando pelo Supremo Tribunal Federal, pelos interesses do capital financeiro, dos bancos da Faria Lima e das corporações que mandam no país. Será um partido independente nas eleições, para fazer as críticas necessárias e defender as soluções adequadas.
Na minha vida política, sempre fiz campanhas sem dinheiro, o que ao mesmo tempo era uma desvantagem e também me garantia independência. Com essa independência eu passei por quatro ministérios, pela presidência da Câmara, secretarias estaduais e municipais sem ter processo no Supremo, sem ter uma conta rejeitada por Tribunais de Contas ou uma ação no Ministério Público.

Ex-ministro dos governos Lula e Dilma nos estúdios da IstoÉ
IstoÉ Um desses ministérios foi a Defesa, até o final do governo Dilma. O atual chefe da pasta, José Múcio, defende o investimento de 2% do PIB brasileiro na área — hoje, o valor está na casa de 1,1%. A Defesa tem o quinto maior orçamento da União. Como defender o aumento diante das necessidades de áreas como saúde e educação?
Aldo Rebelo Porque a segurança é um elemento importante da vida do país. Eu já vivi em uma casa sem piso, onde o chão era de barro, mas nunca vi uma casa sem porta, sem fechadura. O Brasil tem 17 mil quilômetros de fronteiras, mais de cinco milhões de quilômetros de águas jurisdicionais para administrar, e precisa ter Forças Armadas compatíveis com seu tamanho, seu destino e sua responsabilidade.
Todo nosso comércio é pelo mar. Durante a Segunda Guerra Mundial, os alemães enviavam seus submarinos, armas navais e cruzadores afundarem os navios de transporte de gãos e carne para a Inglaterra. O Brasil precisa proteger seu comércio exterior, o que depende de termos Marinha, Força Aérea e Exército fortes.
O ministro José Múcio tem toda a razão em sua exigência. Quando fui ministro [2015 a 2016], o Brasil tinha o menor orçamento proporcional para a Defesa entre os países da América do Sul, e um dos menores do mundo. Isso nos dá ares de irresponsabilidade. É como se não tivéssemos noção do que precisamos proteger.
“Brasil precisa ter Forças Armadas compatíveis com seu tamanho“.
IstoÉ O investimento nas Forças Armadas pode ter efeitos práticos na segurança pública, em especial em áreas urbanas?
Aldo Rebelo Quando fui ministro da Defesa, fizemos uma operação chamada “Agata”, nas fronteiras do Norte do país. Ela envolveu Exército, Marinha, Aeronáutica, polícias civis, militares e federais com o objetivo de enfrentar o crime transfronteiriço. Nós reduzimos a zero essa criminalidade, mas após o encerramento, tudo voltava a ser como antes. O que o Brasil precisa é exatamente de equipamentos e de meios.
A Marinha tem três barcos de patrulha para cuidar de 20 mil milhas navegáveis na Amazônia. As polícias civis e militares não dispõem de lanchas, helicópteros, instrumentos e equipamentos para fazer face ao crime organizado. O Estado precisa ter recursos para assumir funções na segurança pública, não só nas metrópoles do Sul e Sudeste, mas nas áreas de fronteira.
IstoÉ A amplicação dos investimentos em Defesa ganha força como instrumento diplomático de muitas nações pelo mundo, enquanto o governo Lula aposta no multilateralismo e nos acordos vigentes. Esse modelo está ultrapassado?
Aldo Rebelo Não creio, acho que o multilateralismo é importante. Quando fui ministro do Esporte [2011 a 2015], organizando a Copa do Mundo, nós tínhamos receio de atos de terrorismo, porque havia delegações como a da Rússia, a seleção do Irã, a seleção da Inglaterra, da França, da Alemanha, em complicações dessa dimensão. Fizemos um trabalho de cooperação com os serviços de inteligência dos países vizinhos e de outras nações para receber informação sobre atividade suspeita aqui nas nossas fronteiras. Esse é um exemplo de multilateralismo eficiente.
Para isso, nosso serviço de inteligência, a nossa polícia precisa ser eficiente — em última instância, a polícia da Colômbia, do Paraguai, do Uruguai ou da Argentina, não vai operar dentro do Brasil. Nós temos de ter nossos próprios meios para a cooperação ter uma função relevante, porque, senão, ficaremos dependendo da eficiência alheia, o que não pode se tornar realidade dentro das nossas fronteiras.
IstoÉ Por que a segurança não é prioridade para o atual governo Lula?
Aldo Rebelo Porque o conceito que o governo tem da violência é ultrapassado. A violência não é um problema social em primeiro plano. É, principalmente, um problema policial.
O crime organizado não se faz porque o criminoso precisa do dinheiro para fazer a feira. Não é um estado de necessidade social. Não é o faminto da seca do Nordeste que entrava numa cidade e saqueava uma feira ou um mercado para matar a fome. A delinquência do crime organizado, do narcotráfico, obedece a outra natureza. Então, há um problema essencialmente policial.
Esse problema tem que ser no plano da infantaria, como foi o caso da operação no Rio de Janeiro [que deixou 121 mortos em comunidades em outubro de 2025], que foi atrás daqueles que estavam mobilizados naquelas áreas. Mas há também o Estado Maior, que não está na favela, e sim em condomínios de luxo. Para combatê-lo, precisamos dos serviços de inteligência da Polícia Federal, da Abin [Agência Brasileira de Ingeligência], das polícias civis, militares, da Receita Federal, do Coaf [Conselho de Controle de Atividades Financeiras]. É preciso combinar esses dois movimentos de repressão, para desarticular [as facções] em baixo e em cima.
“A violência não é um problema social em primeiro plano.
É, principalmente, um problema policial“.
IstoÉ Nos últimos meses, propostas como o PL Antifacção e a PEC da Segurança Pública foram apresentadas para o combate ao crime organizado, mas nenhuma delas avançou. Ao que o senhor atribui essa estagnação?
Aldo Rebelo Essa agenda também se transformou em palco de disputa ideológica, onde grupos de governo e oposição não buscam o denominador comum; eles partem da ideia de que é preciso em primeiro lugar divergir e disputar, e não buscar a convergência e o interesse do cidadão.
Em São Paulo, por exemplo, as polícias militar e civil são eficientes, e o que explica que um ex-delegado-geral seja assassinado à luz do dia? Claro que o problema não está na eficiência polítical, mas na direção desse aparelho. A Polícia Federal não confia na Civil, que por sua vez desconfia da Militar. A Abin não interage com as demais forças. Então, há um desperdício de força, energia e meios. E quem ganha com isso é o crime organizado.

Aldo Rebelo (DC) participa do IstoÉ Entrevista: ‘Governo Lula é cúmplice do bloqueio’
IstoÉ O senhor atribuiu ao interesse no petróleo a operação militar que os EUA fizeram na Venezuela para prender Nicolás Maduro. O Brasil faz o suficiente para proteger e ter soberania sobre seu próprio petróleo?
Aldo Rebelo Nós precisamos agradecer ao presidente Donald Trump por ter naturalizado o nacionalismo. Antigamente isso era visto com desconfiança, como se fosse algo anacrônico, do passado. Ao colocar o interesse dos EUA em primeiro lugar, o presidente americano naturalizou que possamos colocar o interesse do Brasil em primeiro lugar.
Os EUA nunca tiveram a agenda da democracia como uma coisa importante, e o mundo sabe disso. Aqui [no Brasil] foi derrubado um governo democrático eleito que não oferecia nenhum risco às instituições democráticas, do presidente João Goulart. Foram derrubados governos democráticos no Chile, Uruguai Argentina, enquanto os EUA mantém relações muito próximas com países que não têm democracia, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, que nem sequer Parlamento ou atividade partidária têm.
A prova disso é que os EUA compuseram com a vice-presidente de Maduro [Delcy Rodríguez]. Não trouxe para o governo a ganhadora do Nobel, Maria Corína Machado. O americano não precisa da hipocrisia, ele tem tanta força que [depois] declarou o desejo pelo petróleo.
O Brasil não é a Venezuela. É um país muito mais complexo, com uma imagem diferente e onde não há um governo ilegítimo, resultado de uma fraude eleitoral. Temos um governo que, aos olhos do mundo, funciona com suas instituições, apesar dos exageros e da morbidez da relação entre os Poderes.
O Brasil não está na área de risco de uma intervenção militar, mas na área de risco de um bloqueio ao desenvolvimento, que já está em curso. Não podemos explorar o petróleo da Margem Equatorial ou da bacia de Pelotas, explorar o potássio do Amazonas, o cobre e o fosfato da reserva do Amapá. Precisamos enfrentar esse bloqueio, que não é externo, mas institucional.
“O bloqueio do Brasil não é externo, mas institucional“.
IstoÉ O Ibama deu aval aos estudos exploratórios na Margem Equatorial, depois de anos de negativas, e as terras raras ganham centralidade na economia global. O que o Brasil perde ao, na sua avaliação, não explorar devidamente seus recursos?
Aldo Rebelo O Brasil está imobilizado pelo licenciamento ambiental. Quem vai investir em um país onde se sabe que um processo de licenciamento pode levar de cinco a 50 anos? Não se pode ter um processo que depende de tantos órgãos — Ibama, Funai, Ministério Público e poder estadual –, isso afasta qualquer investimento.
Portanto, nosso problema econômico é institucional. Sem os obstáculos existentes, o Brasil poderá dobrar a geração de energia elétrica na Amazônia; [explorar] a Margem Equatorial, que rende 20 bilhões de dólares por ano à Guiana, e os insumos do potássio e do fosfato para agricultura. Ao remover essas restrições, o Brasil terá resolvido seu problema fiscal e alcançará, em quatro anos, uma taxa de crescimento de 4%.
Investidores internacionais virão para o Brasil se houver essa garantia. O que fez a prosperidade econômica da Noruega foi o fundo soberano de petróleo; do Canadá, os minérios dentro de terras indígenas; da Austrália, a exportação de carne e minérios. E o Brasil segue congelado. Isso tem que ser enfrentado.
IstoÉ O governo Lula enfrenta esses obstáculos?
Aldo Rebelo Não, o governo atual é o governo do bloqueio. O presidente do Ibama [Rodrigo Agostinho] nunca pisou no Amapá, um estado onde 73% da população vive de Bolsa Família e que tem a exploração dos recursos de petróleo bloqueada.
O presidente Lula é cúmplice disso, porque dentro do seu governo estão as instituições que bloqueiam qualquer tipo de investimento que gere renda, emprego, tributos e divisas para o país. Elas estão no Ministério do Meio Ambiente, no Ibama, na Funai e no Ministério dos Povos Indígenas.

Marina Silva: para Rebelo, escolha da ministra do Meio Ambiente pelo presidente Lula foi imposta por agenda internacional
IstoÉ Essas instituições são ONGs?
Aldo Rebelo São ONGs que dirigem suas ações de dentro do governo. Basta examinar quem são os secretários e executivos do Ministério do Meio Ambiente e do Ibama. É uma porta giratória, em que integrantes de ONGs atuam no governo, transferem atividades do Estado para essas organizações e voltam a trabalhar nelas.
IstoÉ O senhor foi ministro de Lula em um período de avanço expressivo da exploração de petróleo no Brasil. Por que o bloqueio atual não ocorria na época?
Aldo Rebelo Ocorria, mas com limites, porque havia dentro do governo gente que defendia o desenvolvimento, como eu, Roberto Rodrigues [ministro da Agricultura de 2003 a 2006], Luiz Fernando Furlan [ministro do Desenvolvimento de 2003 a 2007] e uma base defensora do desenvolvimento no Congresso.
Depois de ser preso e prestes a disputar uma eleição polarizada, Lula buscou apoio internacional, no partido Democrata e nas embaixadas da Dinamarca, da Noruega e da Suécia, que financiam essas ONGs, e se compôs. Havia dúvida se ele escolheria Marina Silva como ministra do Meio Ambiente e esse presidente do Ibama, mas isso foi imposto. O presidente se tornou uma espécie de refém dessa agenda internacional. Ele recebeu apoio dessas organizações e agora está retribuindo, parando o Brasil de Norte a Sul.
“Lula se tornou refém dessa agenda internacional“.
IstoÉ Qual será a discussão prioritária da eleição presidencial de 2026?
Aldo Rebelo A discussão do desequilíbrio entre os Poderes. O Supremo Tribunal Federal se tornou uma espécie de super-Poder, que impõe aos governos a escolha de ministros, revoga decisões soberanas do Congresso e impede até nomeação de delegados pelo Executivo. Os abusos e o protagonismo do Supremo estarão em discussão, porque são inaceitáveis.
Além disso, a segurança pública, porque não há condição de que a população não tenha tranquilidade para andar na rua e atender um celular sem medo de assalto, de sequestro, e o anseio do crescimento econômico. Uma mãe não cria um filho, dois jovens não se casam para viver de Bolsa Família, que é uma contingência. O país tem a obrigação de oferecer outra perspectiva, e o que pode oferecer isso é a garantia de desenvolvimento, que virá com a descriminalização do investimento privado.