Trump, Merz e o futuro da aliança entre EUA e Alemanha

Trump, Merz e o futuro da aliança entre EUA e Alemanha

"MerzProvável próximo chanceler, Friedrich Merz se diz um "transatlanticista" de longa data. Mas, com Trump em Washington, o desafio tende a ser maior. Embora haja pontos de convergência com o novo governo americano.Ainda nem existe um novo governo na Alemanha, mas após as eleições deste domingo (23/02), é praticamente certo que Friedrich Merz, líder da conservadora União Democrata Cristã (CDU), será o próximo chanceler. Ele e seu partido, juntamente com a sigla irmã da Baviera, a União Social Cristã (CSU), ainda terão que encontrar parceiros de coalizão para governar.

Um dos grandes tópicos de debate desde a divulgação dos resultados é a questão de como a Alemanha e a Europa lidarão com o presidente dos EUA, Donald Trump.

Depois que a vitória do bloco CDU/CSU foi confirmada na noite de domingo, Merz disse querer trabalhar para criar unidade na Europa o mais rápido possível, "para que, passo a passo, possamos nos tornar independentes dos EUA".

Até pouco tempo atrás, isso seria algo muito incomum para qualquer líder da CDU dizer. Afinal, o partido sempre teve uma forte afinidade com os EUA.

"Merz se alinha com o legado de líderes históricos da CDU, como [os ex-chanceleres] Konrad Adenauer e Helmut Kohl, que desempenharam papéis fundamentais no fortalecimento das relações transatlânticas", disse Evelyn Gaiser, consultora de políticas sobre relações transatlânticas e Otan da Fundação Konrad Adenauer, um think tank alemão associado à CDU, mas independente.

"Transatlanticista" de longa data

Em 2018, Merz se descreveu como "um europeu convicto, um transatlanticista, um alemão aberto ao mundo".

Durante 10 anos, de 2009 a 2019, ele foi presidente da Atlantik-Brücke (Ponte do Atlântico), renomada associação alemã sem fins lucrativos que promove a amizade e o entendimento entre a Alemanha e os EUA.

"O partido de Merz é o mais transatlântico da Alemanha, e ele não é exceção", disse Rachel Tausendfreund, pesquisadora sênior do think tank Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP). "Ele é também um firme defensor da Otan, assim como pró-europeu."

Merz chegou mesmo a exercer um mandato no Parlamento Europeu no início da década de 1990.

De 1994 a 2009, ele representou a CDU no Bundestag, o Parlamento da Alemanha. Sempre foi um fã em particular das políticas econômicas liberais dos EUA – em 2008, publicou um livro chamado Mehr Kapitalismus wagen (que se traduz aproximadamente como "aventurando-se mais no capitalismo").

Merz diz que já viajou aos EUA mais de 100 vezes e, de acordo com relatos da mídia, um de seus ídolos é o ex-presidente dos EUA Ronald Reagan.

Atitude anti-Otan não agrada Merz

No entanto, com Trump, os EUA não são mais a nação parceira favorita de Merz. O provável futuro chanceler da Alemanha não gosta da atitude anti-Otan do novo presidente dos EUA e do distanciamento do governo Trump dos aliados europeus, aparentemente em favor da Rússia.

Merz encontrou palavras claras após o discurso de J.D. Vance, na Conferência de Segurança de Munique neste mês, no qual o vice-presidente dos EUA disse que a maior ameaça à Europa não vinha da Rússia ou da China, mas "de dentro".

"Esta é realmente agora a mudança de uma era", disse Merz no palco da MSC. "Se não ouvirmos o sinal de despertar agora, pode ser tarde demais para toda a União Europeia."

Trump não parabenizou Merz diretamente por sua vitória eleitoral, mas elogiou o "partido conservador" da Alemanha nas mídias sociais. "Parece que o partido conservador na Alemanha venceu a enorme e muito esperada eleição", escreveu, em letras maiúsculas, o governante americano em sua plataforma, Truth Social. "Assim como os EUA, o povo da Alemanha se cansou da agenda sem bom senso, especialmente em energia e imigração. Este é um grande dia para a Alemanha."

Convergências

Apesar da retórica, Trump e Merz têm algumas coisas em comum, principalmente no que diz respeito aos assuntos de seus respectivos países.

"Ambos são conservadores pró-negócios e anti-regulamentação”, disse Tausendfreund. Ambos usaram uma linguagem dura em relação aos imigrantes e aos manifestantes de esquerda."

Ambos querem conter a migração irregular, por exemplo, fortalecendo ou controlando melhor as fronteiras nacionais. A postura dura de Merz em relação à migração e o fato de querer recusar os solicitantes de asilo nas fronteiras alemãs podem tê-lo ajudado a vencer a eleição alemã, considerando que segundo partido de maior votação foi a AfD, de ultradireita, sigla conhecida por sua retórica racista e xenófoba.

Durante sua campanha para 2024, Trump prometeu continuar construindo um muro ao longo da fronteira com o México e, em geral, culpou os migrantes pela maioria dos problemas enfrentados pelos EUA.

Há muito que imigração passou a ser um dos assuntos favoritos do milionário. Durante sua campanha para 2024, ele prometeu continuar construindo um muro ao longo da fronteira com o México e, em geral, culpou os imigrantes pela maioria dos problemas enfrentados pelos EUA.

Merz e Trump também compartilham uma ideologia conservadora quando se trata de questões relacionadas a gênero. Ao ser questionado em um debate na TV sobre o que ele achava da declaração de Trump no dia da posse de que os EUA passariam a reconhecer apenas dois gêneros, Merz disse que entendia perfeitamente.

Diferenças na política externa

No entanto, no campo da política externa, os dois são muito diferentes. Merz deixou bem claro que, com ele no comando, a Alemanha continuará apoiando a Ucrânia e reiterou que a Europa deve ser forte e unificada diante do fato de os EUA estarem se voltando para a Rússia.

"O que também vemos com grande preocupação é, claro, a tentativa [de Trump] de fazer um acordo com a Rússia sobre a Ucrânia, passando por cima da cabeça dos europeus e da Ucrânia", disse o líder da CDU em uma coletiva de imprensa na segunda-feira. "Não será surpresa para vocês quando eu digo que isso é inaceitável tanto para a Ucrânia quanto para a Europa."

Certa vez, Trump disse que não defenderia os países da Otan que não tivessem pago sua "parte justa" no financiamento da defesa contra um ataque da Rússia.

Ele teve que recuar dessa ameaça, mas não parece mais considerar Moscou como um inimigo. Recentemente, anunciou que se reuniria com seu colega russo, Vladimir Putin, para discutir a guerra em curso na Ucrânia.

Merz pode ser pilar europeu para enfrentar Trump?

Quando um governo for formado, a Alemanha provavelmente tentará construir uma forte coalizão interna europeia para compensar o afastamento dos EUA.

"Eu esperaria que um governo liderado pela CDU assumisse um papel mais influente na União Europeia e promovesse uma posição europeia unida e forte", disse Gaiser, da Fundação Konrad Adenauer. "Como chanceler, o principal objetivo de Friedrich Merz será fortalecer rapidamente a Europa – cujo poder econômico ele enfatiza com frequência – e aumentar sua independência como ator global.”

Tausendfreund, da DGAP, também acredita que Merz desejará aumentar a cooperação europeia com relação à segurança e à Ucrânia, para mostrar que o continente pode agir sozinho, sem os EUA sob o comando de Trump. Ela disse que seria interessante ver como ele se sairia, já que nunca foi chefe de uma cidade, estado ou país.

"Merz é nunca foi testado como líder político, portanto não sabemos se ele está à altura do desafio", disse Tausendfreund. "Mas ele parece entender e apreciar os riscos."