Trump lança Conselho de Paz em Davos sem aliados-chave

Evento de lançamento do polêmico conselho, visto como concorrência da ONU, tem participação de Javier Milei e do paraguaio Santiago Peña. Reino Unido, França e Alemanha ficam de fora.O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou nesta quinta-feira (22/01), em Davos, na Suíça, seu polêmico Conselho de Paz, num evento na qual esteve acompanhado por cerca de 20 chefes de Estado e de governo, entre eles os presidentes da Argentina e do Paraguai.

O órgão havia sido inicialmente concebido como um pequeno grupo de líderes mundiais reunidos para supervisionar o cessar-fogo na Faixa de Gaza, mas acabou evoluindo para algo muito mais ambicioso, abrangendo outros conflitos globais – e o ceticismo em relação à sua composição e mandato levou alguns aliados próximos de Washington a se esquivarem ou mesmo se recusarem a participar.

Em Davos, Trump voltou a criticar a ONU, sobre a qual disse ter um "tremendo potencial" não utilizado, e assegurou que a combinação entre as Nações Unidas e seu Conselho de Paz produzirá "uma coisa única no mundo".

Aliados ocidentais se esquivam

Cerca de 60 governos foram convidados a participar, mas poucos dos aliados ocidentais de Washington aceitaram publicamente o convite, sendo a Hungria e a Bulgária os únicos membros da União Europeia a terem assinado o ato de constituição em Davos.

Dois dos maiores rivais dos EUA, a Rússia e a China, foram convidados, mas ainda não assumiram compromissos firmes. O Brasil, maior economia da América Latina, também recebeu um convite, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não tomou uma decisão.

Os principais aliados ocidentais se esquivaram. O Reino Unido não compareceu à cerimônia de assinatura e seu governo não declarou se pretende aderir. A Alemanha também não compareceu. O ministro do Exterior, Johann Wadephul, disse anteriormente que já existe um conselho de paz, as Nações Unidas.

A França não planeja aceitar o convite para participar, comunicou o governo francês, porque a carta constitutiva não é conforme a uma resolução da ONU para resolver a guerra em Gaza e alguns de seus elementos são contrários à Carta das Nações Unidas.

Já a Noruega se recusou a participar do Conselho de Paz por considerar que a iniciativa não se ajusta às estruturas existentes do direito internacional e desafia o papel das Nações Unidas. A Suécia também disse não.

Argentina entre os que aceitaram

A Casa Branca comunicou que, até agora, ao menos 35 chefes de Estado e de governo aceitaram fazer parte do Conselho de Paz, sem fornecer uma lista detalhada.

Os governantes que se uniram à iniciativa em Davos ocuparam assentos dispostos no palco ao redor de Trump e assinaram o ato de constituição antes dele.

Participaram do evento os presidentes da Argentina, Javier Milei, e do Paraguai, Santiago Peña, assim como o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, e o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev – todos países que apoiam a iniciativa.

Entre os presentes estavam ainda alguns dos integrantes da junta diretiva do novo órgão, como o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair , o secretário de Estado americano, Marco Rubio, o enviado especial da Casa Branca, Steve Witkoff, e Jared Kushner, genro de Trump.

Entre os países que aceitaram ser membros do órgão estão ainda Israel, Paquistão, Egito e Turquia.

A Arábia Saudita comunicou, também nesta terça-feira, que a decisão de integrar a nova entidade foi tomada conjuntamente pelos ministros do Exterior de oito países de maioria muçulmana, incluindo ainda Catar, Egito, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Turquia, Indonésia e Paquistão. Eles elogiaram os "esforços pela paz" promovidos pelo líder dos EUA.

Ainda não deram resposta

Canadá, Ucrânia, China e a Comissão Europeia, o braço executivo da União Europeia, não se comprometeram com a proposta.

Entre os que ainda não responderam ao convite está também Portugal. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, apontou "algumas dúvidas" na configuração do organismo. "A configuração suscita algumas dúvidas. Se fosse apenas confinado a Gaza, seria de integrar claramente", afirmou.

A China confirmou ter recebido um convite, mas se absteve de esclarecer se vai aceitá-lo.

Segundo revelou o próprio Trump na quarta-feira, o presidente russo, Vladimir Putin, aceitou unir-se ao órgão, embora ainda não haja confirmação oficial do Kremlin. Putin disse que está consultando os parceiros estratégicos de Moscou antes de se decidir.

A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, anunciou nesta terça-feira que seu país não vai aderir imediatamente ao Conselho de Paz e disse precisar de mais tempo. "Para nós, há um problema de compatibilidade constitucional, porque, ao lermos o estatuto, encontramos alguns elementos de incompatibilidade com a nossa Constituição", disse.

Guterres: Por ora, amorfo

O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou na quarta-feira, por meio de um de seus porta-vozes, que o Conselho de Paz de Trump é, por ora, "amorfo", e ressaltou que o Conselho de Segurança apoiou o Conselho de Paz "estritamente para o trabalho em Gaza".

A presidente da Assembleia Geral da ONU, Annalena Baerbock, também expressou ceticismo, afirmando que já existe uma organização internacional cuja principal tarefa é salvaguardar a paz mundial e a segurança internacional.

Trump tem sido muito crítico da ONU, criada em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, e que hoje reúne 193 Estados-membros.

as/ra (Efe, Lusa, Reuters, DPA)