Não é recente a sina do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pela Venezuela. Ainda em 2017, durante seu primeiro mandato na Casa Branca, o republicano defendia uma operação militar em terras venezuelanas para derrubar o ditador Nicolás Maduro, no comando do país desde 2013. Trump conversava com jornalistas durante uma partida de golfe em seu clube quando cogitou um ataque militar contra o país. “Temos muitas opções a respeito da Venezuela, incluindo uma possível opção militar se for necessário”, afirmou na época.
A fala foi corroborada mais tarde, quando disse que já teria tomado ações contra o venezuelano se tivesse sido reeleito em 2020. Oito anos depois, a hipótese se tornou real. Era madrugada de sábado, 3, quando militares americanos invadiram a Venezuela e prenderam Maduro, em uma ação questionada por especialistas e pela mídia estadunidense. Como justificativa, a Casa Branca afirmou que a prisão era necessária para cumprir um mandado em aberto contra o ditador, acusado pelos Estados Unidos de narcoterrorismo e de comandar o Cartel de los Soles. Ambas as acusações caíram por terra pela Justiça americana, que manteve a denúncia por conspiração ao narcoterrorismo e para o tráfico de cocaína. Além disso, o governo americano dizia tentar “restabelecer a democracia”, após anos do período madurista.
Apesar dos porquês, a invasão dos Estados Unidos à Venezuela tem um ponto crucial: o petróleo. Desde a invasão, Trump, em momento algum, deixou de citar o controle da Casa Branca sobre o combustível venezuelano. O país latino-americano conta com a maior reserva petrolífera do mundo, com 303 bilhões de barris. Nos últimos dias, emissários do governo americano passaram a fazer exigências ao Palácio de Miraflores, sede do governo da Venezuela, para apaziguar as relações. Entre as determinações estão o fornecimento exclusivo de petróleo para os Estados Unidos, controle sobre os valores arrecadados com a venda do combustível, além da proibição da exportação do bem para Rússia, Irã e, principalmente, China. Esse é um ponto fundamental para entender o movimento de Donald Trump.
Desde os primórdios, a relação entre Estados Unidos e China foi de amor e ódio. Mais recentemente, no segundo semestre de 2025, as ações tarifárias da Casa Branca provocaram retaliações de Xi-Jinping, que logo passou a controlar as exportações de terras raras para o governo americano. Os minerais são essenciais para a tecnologia de defesa dos EUA, além da fabricação de baterias para carros elétricos. A situação foi arrefecida em outubro, após uma negociação costurada durante a Cúpula de países do Sudeste Asiático, na Malásia, em que o governo chinês suspendeu o controle da exportação dos minerais por um ano. Mesmo assim, a entrada da Casa Branca no comando do petróleo venezuelano é uma estratégia para manter os ataques aos chineses. Atualmente, a China é a maior compradora do combustível vindos da Venezuela, embora a essa importação represente apenas 4% do seu total marítimo. No pano de fundo, os EUA pretendem usar essa importação para forçar os chineses a atenderem seus pedidos e tentar, de alguma forma, enfraquecer Xi-Jinping.

Trump tem tentado dividir o protagonismo mundial com China e Rússia, deixando organizações internacionais e a União Europeia de lado
“A estratégia dos EUA não visa ‘cortar a energia da China’, mas sim usar o petróleo venezuelano pesado e sancionado como instrumento de barganha em três frentes: reorganizar fluxos e preços dos petróleos pesados (Venezuela, Irã, Rússia) e forçar substituições; ampliar o controle dos EUA sobre a oferta, destinos e receitas venezuelanas – como sugerem notícias sobre redirecionar barris antes destinados à China; e tornar a Venezuela um exemplo de coerção para outros parceiros do Sul Global”, avalia João Alfredo Lopes Nyegray, especialista em geopolítica e coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Trump ainda usou a Doutrina Monroe, proclamada em 1823 no mandato do presidente James Monroe, para justificar o controle dos Estados Unidos sobre a Venezuela. A tese tem como lema “a América para os americanos” e foi elaborada para mandar recados à União Europeia de que o continente americano não aceitaria novas colonizações. No contexto atual, o que segundo Trump é nomeado como “doutrina Donroe”, a proposta é usada para afirmar que todo o continente americano é zona de influência dos Estados Unidos.
O argumento da tese reforça os anseios imperialistas de Donald Trump e sua tentativa de reorganizar as potências mundiais. Na nova ordem mundial, Estados Unidos, Rússia e China disputam o poder. “Há sinais de que essas áreas de influência devem se consolidar. Os EUA já indicam, em seu documento de segurança nacional, que veem o mundo se dividindo em zonas de influência — e defendem o hemisfério ocidental como sua esfera de domínio, retomando uma política imperialista e intervencionista”, afirma Denilde Holzhacker, cientista política e professora de relações internacionais da ESPM.
O mesmo pensamento dominam russos e chineses. Vladimir Putin usou sua força militar para dominar a Ucrânia em busca da tomada do lado leste do país, numa guerra que se arrasta por quase três anos. Já a China está de olho em ter controle sobre Taiwan, Estado soberano não reconhecido pelo governo chinês e pela Organização das Nações Unidas (ONU), mas que conta com um enorme polo de tecnologia mundial. “A Rússia age de forma similar na Ucrânia, e a China também reage com firmeza em relação a Taiwan, embora, internacionalmente, ainda defenda a ordem multilateral e a cooperação via acordos. Portanto, a ordem que se molda é de disputa por poder nessas áreas, mas ainda com nuances nas relações fora desses espaços de influência”, completa Denilde.
Mas, embora a ideia da distribuição de forças mundiais seja real, a tese é relativamente instável. “A ideia de uma ‘nova ordem’ com esferas de influência estanques entre EUA, Rússia e China é uma simplificação instável. Embora essas potências usem uma retórica de zonas exclusivas (como a Doutrina Monroe ou a “vizinhança estratégica” russa), a realidade global é mais porosa: economias, cadeias de suprimentos e infraestruturas críticas estão profundamente conectadas”, reforça Nyegray, que pontua a possibilidade de abertura de precedentes para outros países. “Ao derrubar ou capturar uma liderança estrangeira sem aval multilateral, os EUA reduzem o custo reputacional desse gesto, criando um precedente que outras potências podem invocar. Assim, em vez de um mundo de esferas bem delimitadas, caminhamos para um cenário competitivo e sobreposto, cheio de fricções. Nesse contexto, a América Latina deixa de ser um espaço protegido por normas e se torna um campo de demonstração de força e barganha entre as grandes potências”, completa.

Invasão dos EUA na Venezuela pode incentivar a China a entrar em Taiwan, que é monitorado pelo governo Xi-Jinping há décadas
A fala faz referência ao caso de Tawian, que está na mira dos chineses. O governo Xi Jinping já aplicou sanções ao Japão, por exemplo, que se opõe à possibilidade de tomada da ilha. Todavia, uma possível entrada da China no local pode gerar retaliação da Casa Branca. “A China, especialmente desde dezembro, adotou uma postura mais ofensiva, sugerindo que esse cenário é plausível. Um conflito em Taiwan seria diferente do caso venezuelano, devido à importância estratégica da ilha: ela abriga uma das principais bases de produção de chips do mundo, essenciais para a indústria americana. Portanto, os EUA deixam claro em documentos oficiais que Taiwan é um interesse estratégico nacional. Uma ação chinesa provavelmente provocaria uma resposta americana”, analisa a professora da ESPM.
Ao mesmo tempo em que tentam equalizar suas próprias forças, Estados Unidos, Rússia e China ignoram um princípio básico imposto pela ONU após a Segunda Guerra Mundial: o multilateralismo. Embora as organizações internacionais já estejam em fase de enfraquecimento há alguns anos, a tese ainda dava certo poder a União Europeia, que acaba cada vez mais afastada do protagonismo em meio à reorganização das potências mundiais. “A gente tem sim essa ideia de que se afasta o multilateralismo e se volta justamente para uma ordem tripolarizada entre China, Rússia e Estados Unidos. O Trump quando fala América para os americanos, ele quer dizer o seguinte, a América não é uma instituição de influência, a América é dos americanos, mas sou eu quem manda nesse quintal. China manda no Extremo Oriente e a Rússia manda na Eurasia”, explica Priscila Caneparo, advogada e doutora em Direito Internacional.
Foco na Groenlândia e ameaças à Colômbia
Ao mesmo tempo em que Trump quer o controle do petróleo venezuelano, o presidente americano mira seu próximo alvo de aquisição para se manter fortalecido no poder. Desta vez, a Casa Branca quer assumir a Groenlândia, ilha dinamarquesa, mas que os Estados Unidos querem como seu 51º estado. Logo após o ataque militar na Venezuela, o governo americano passou a intensificar as negociações para tentar avançar com um acordo sobre a ilha.
Em coletiva, a secretária de Imprensa dos Estados Unidos, Karoline Leavitt, disse que a Casa Branca já prepara um valor razoável para adquirir a ilha, que, embora siga as diretrizes dinamarquesas, possui governo próprio. A fala foi corroborada por Donald Trump, que, em conversa com jornalistas, não descartou a possibilidade de uma ofensiva militar na região.
A Groenlândia é um desejo antigo dos Estados Unidos. Desde o século XIX, o governo americano tenta controlar a ilha e, de lá para cá, manteve conversas com a Dinamarca para entrar em acordo. Por estar entre o Atlântico Norte e o Ártico, a área é vista como essencial para a segurança militar e para o sistema de alerta de mísseis balísticos americanos. Além disso, Trump quer monitorar navios e submarinos nucleares russos e chineses que navegam pela região. Ainda há interesses sobre a exploração de minerais, como urânio, gás natural e petróleo, que tem sua exploração proibida pela Dinamarca desde 2020.

Casa Branca retomou as tratativas para comprar a ilha e não descarta uma ação militar; do outro lado, Dinamarca e Groenlândia ameaçam fim da Otan em caso de invasão americana – Montagem/AFP
Após as ameaças do presidente americano, os governos dinamarquês e groenlandês foram ao ataque. Ambos pediram o fim das hostilidades e apontaram que qualquer ataque contra a ilha resultaria no fim da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança militar prioritária para o governo estadunidense. A adesão da Dinamarca e da Groenlândia na Otan, inclusive, foi o que fez a Casa Branca recuar da tentativa de compra da ilha na década de 1950.
Mas a área europeia não foi a única ameaça de Donald Trump nesta semana. O republicano também mirou a Colômbia, comandada por Gustavo Petro. Em coletiva, o presidente americano não descartou uma ação militar em áreas colombianas parecidas com a realizada na Venezuela. “Ele [Gustavo Petro] tem rotas de cocaína, tem fábricas onde é produzida cocaína, então eu mantenho o que eu disse anteriormente: ele está produzindo cocaína e depois enviando para os EUA, então, sim, tem que ficar esperto”, ameaçou Trump.
“O direito internacional não autoriza um Estado a agir como “xerife do mundo”, como sugere a fala de Trump sobre a Colômbia. A Colômbia é uma democracia com eleições regulares, diferente da Venezuela. A intervenção americana provavelmente não será militar, mas indireta, por meio de guerra híbrida, com manipulação de conteúdos digitais para influenciar as eleições. A falta de condenação internacional à ação na Venezuela abre precedente para essa escalada. Assim, enquanto a Colômbia sofreria interferência digital, a questão da Groenlândia representa uma ameaça mais séria à ordem geopolítica”, reforça Priscilla.
A relação entre Estados Unidos e Colômbia, todavia, está parcialmente apaziguada. Na última quarta-feira, 7, Trump e Petro conversaram por telefone e marcaram de se encontrar nos próximos meses.
Manutenção do Chavismo
Apesar dos argumentos da Casa Branca de mirar Nicolás Maduro e o restabelecimento do regime democrático na Venezuela, o regime chavista, ou madurista, se manteve intacto após a operação dos Estados Unidos. Principal aliada de Maduro, Delcy Rodríguez, vice-presidente do país, assumiu o comando com o aval das Forças Armadas e do Supremo Tribunal venezuelano. Ambos os órgãos contam com aliados do ditador deposto em suas cadeias de comando.

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, acena após sessão da Assembleia Nacional em Caracas, em 5 de janeiro de 2026
Delcy sempre esteve ligada ao regime venezuelo. Foi apoiadora de Hugo Chavéz, mas nunca foi devidamente valorizada por ele. Passou a ser uma aliada de primeira ordem de Maduro, de quem foi ministra e, posteriormente, escolhida para ser a número 2 dele. Apesar dos últimos diálogos com os EUA, Delcy é vista como mão-de-ferro do madurismo, com acusações de ter um perfil mais ditatorial que o antecessor. Entretanto, foi ela que iniciou as tratativas com a Casa Branca há alguns meses para avançar nas negociações sobre a exploração e a venda de petróleo no país.
Mesmo que digam haver planos para a transição governamental na Venezuela, Trump e Rubio têm dado suporte para a manutenção de Delcy Rodríguez no poder. De acordo com eles, Delcy tem colaborado e que poderá “pagar um preço muito caro” caso não atenda os pedidos da Casa Branca. A decisão ignora a oposição da Venezuela, que tem María Corina Machado, vencedora do prêmio Nobel da Paz, como figura central. Ela chegou a dedicar o prêmio a Trump, mas o presidente americano a vê fraca perante os eleitores e o setor empresarial do país sul-americano.
Por trás da manutenção do regime chavista, no entanto, vem a tentativa de se evitar uma guerra civíl no país e dar mais estabilidade para o próprio Trump e os Estados Unidos, apesar do risco que sofrem com Delcy no comando. “Para os EUA e para o Trump é mais estabilidade. Evita ter que fazer uma intervenção direta e se distancia da política de intervenções, especialmente as que aconteceram depois do Iraque. Se escolher o elemento de uma pessoa de dentro do próprio regime, pode dar mais estabilidade. É um risco, um grande risco que o governo americano está assumindo”, analisa Denilde Holzhacker.
Outro fator colocado para a continuidade do regime é o apoio das Forças Armadas venezuelanas a Delcy, além das garantias de acesso mais controlado que a Casa Branca terá sobre o petróleo venezuelano. “A estratégia é menos belicosa: manter figuras do próprio regime chavista, como a vice de Maduro, para garantir uma transição controlada que preserve o acesso ao petróleo com estabilidade. Essa abordagem busca o apoio das Forças Armadas venezuelanas — historicamente decisivas na América Latina — e evita uma ruptura brusca, que poderia provocar uma guerra prolongada. No fundo, é uma tentativa de obter os recursos venezuelanos com o menor custo político e militar possível”, explica Robson Carvalho, cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB).