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Trump e Bolsonaro: os reis estão nus

Trump e Bolsonaro: os reis estão nus

O presidente Jair Bolsonaro (E), fala enquanto o então colega americano, Donald Trump, observa, durante coletiva no Jardim Rosado da Casa Branca, em Washington, 19 de março de 2019 - AFP/Arquivos

Os Estados Unidos sempre tiveram muito orgulho de sua democracia – principalmente por não possuírem monarcas que representavam o próprio Deus na terra, como acontecia na Europa. A idolatria dos norte-americanos por grandes personagens e dinastias políticas, no entanto, é inegável. Após a família Kennedy, a família Roosevelt e a família Bush, agora é a vez da família Trump. Mesmo perdendo as últimas eleições, Donald recebeu mais de 70 milhões de votos em um país onde votar não é obrigatório. Para se ter uma ideia de seu poder e influência, basta compará-lo com o presidente Jair Bolsonaro, eleito em 2018 com 57 milhões de votos.

O político que chegou até a afirmar que poderia atirar em alguém no meio da Quinta Avenida sem sofrer nenhuma consequência, parece ter perdido um pouco de segurança em si. No meio de tanta popularidade, porém, quem o vence de lavada é o negacionismo e os movimentos contra a ciência. O movimento antivacina conquista, desde os anos oitenta, diversos norte-americanos – e com o coronavírus a situação ficou ainda mais insustentável. Com hospitais lotados, principalmente no sul do país onde está a maior parte de sua base, coube a Trump fazer o apelo à vacinação – quem sabe ele conseguisse algum progresso. Nada feito.

Narcisista e com medo de rejeição, assim que recebeu as fortes vaias da plateia, respondeu: “Vocês têm a sua liberdade”. Ou seja, ao incitar a dúvida sobre a importância da doença durante o primeiro ano da pandemia – , Trump chegou a recomendar a cloroquina e a ingestão de alvejantes contra o vírus. O ex-presidente consolidou as crenças de seus apoiadores e viu que não poderia mais voltar atrás. Perdeu o poder de liderança: a crença cega em suas palavras evaporou-se.

O eleitor de Trump está disposto a morrer – não tomará a vacina, não importa quantos familiares e amigos sucumbam. Esse fiel seguidor não tomará por medo de que a vacina cause autismo, câncer ou até que contenha um microchip que os controle. O trumpista prefere correr o risco de morrer de Covid e, agindo assim, coloca a vida de outras pessoas em perigo. O estrago está feito.

Bolsonaro, que segue à risca a cartilha de erros de Donald Trump, não teve o poder de evitar a vacinação – embora tenha tentado fazê-lo com todas as suas forças. Contudo, Bolsonaro conseguiu uma tragédia de magnitudes impensáveis: fez com que milhões de brasileiros tomassem remédios sem sentido, recusassem o uso das máscaras e também que os infectados tratassem o vírus como “homens” e não como “maricas”. Mandou milhões para a rua sem nenhuma proteção. Riu. E continua rindo do genocídio que causou (e ainda causa).

O que Trump tentou fazer no dia 6 de janeiro, com a invasão do Capitólio, Bolsonaro tentará no Sete de Setembro – à sua maneira, claro. Resta ao brasileiro a torcida pelas instituições e a esperança na solidez das diretrizes da Carta Magna de 1988. Que a Bolsonaro, no futuro, sobre o que sobrou a Trump: as vaias e os patéticos “showmícios” fora de época.

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