Trump e apagões forçam Cuba à mesa de negociações

Trump e apagões forçam Cuba à mesa de negociações

"CubaCasa Branca aumenta pressão sobre a ilha, que já enfrenta múltiplas crises. Apesar da fragilidade do regime em Havana, especialistas não creem na possibilidade de um colapso.Nos últimos dois anos, Cuba sofreu quatro apagões em todas as regiões do país. Desde fevereiro de 2024, dez apagões generalizados abalaram a economia e o ânimo da população. Enquanto aumenta a pressão do bloqueio petrolífero imposto pelos Estados Unidos, o governo cubano se viu forçado a iniciar negociações com Washington.

O presidente dos EUA, Donald Trump, reiterou, no início desta semana, suas ameaças de assumir o controle de Cuba e disse que poderia fazer "qualquer coisa" que quisesse com o país caribenho – o que aumentou as especulações de que os principais líderes cubanos poderiam enfrentar o mesmo destino do ex-líder venezuelano Nicolás Maduro.

A prisão de Maduro na capital venezuelana, Caracas, em janeiro, não apenas mostrou a Cuba o que Trump estava disposto e era capaz de fazer, mas também privou o regime de um de seus aliados mais próximos e de um de seus mais importantes fornecedores de petróleo.

Relações espinhosas entre EUA e Cuba

Localizada a cerca de 150 quilômetros do estado da Flórida, no sul dos EUA, Cuba tem sido uma pedra no sapato dos Estados Unidos desde a revolução de 1959 liderada por Fidel Castro. O regime comunista se impôs de maneira consistente perante os EUA, que costumavam exercer influência significativa sobre a ilha e, durante a Guerra Fria, consideravam Cuba um ponto de entrada para outros Estados comunistas, como a União Soviética e a China, ou países hostis aos EUA, como a Venezuela.

O ex-presidente dos EUA Barack Obama buscou uma aproximação e tentou reavivar as relações com Havana. Mas esses esforços foram revertidos por Trump durante seu primeiro mandato (2017 a 2021), para o alívio de muitos exilados cubanos e seus descendentes, muitos dos quais desejam a queda do regime. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, é um dos cidadãos americanos de ascendência cubana mais proeminentes. A diáspora cubana representa um importante bloco eleitoral, particularmente no estado da Flórida, considerado um estado decisivo nas eleições.

Klemens Fischer, especialista em política externa da Universidade de Colônia, na Alemanha, afirmou à emissora alemã ZDF que a atual escalada da retórica de Trump em relação a Cuba provavelmente é motivada por questões de política interna.

"Pode ser uma tentativa de se desvencilhar, visto que as coisas não estão indo como ele gostaria no Irã", observou. "Ele precisa mostrar que é um presidente forte. Por outro lado, ele também precisa evitar se envolver em outra guerra."

Trump, no entanto, já havia intensificado a pressão sobre Cuba. Foi a seu pedido que a presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, interrompeu completamente, em janeiro, o envio de petróleo para Cuba – que já havia diminuído.

Os EUA também bloquearam as rotas marítimas para a ilha e ameaçaram com sanções os países que fornecem petróleo a Cuba. Segundo o governo cubano, o país não recebe nenhum carregamento de petróleo há três meses. A produção interna, que vem diminuindo há anos, cobriu menos de 30% da demanda em 2024. O aumento dos apagões está diretamente ligado a isso, já que a eletricidade de Cuba provém em grande parte de usinas termelétricas a petróleo.

Pior crise econômica em três décadas

A escassez de energia é apenas um – embora significativo – aspecto da atual crise econômica, afirmou à DW o economista cubano Elias Amor, que vive na Espanha. Ele disse que, além de um breve período de recuperação, a economia cubana encolheu em média 2,75% ao ano desde o início da pandemia de covid-19 em 2020, sendo que em 2025 essa retração aumentou para 5%. "A economia cubana está em seu pior estado desde o 'Período Especial'", observou.

O Período Especial é o termo dado pelo regime cubano à profunda recessão que atingiu o país após o colapso da União Soviética no início da década de 1990, quando os salários reais caíram 90% em quatro anos. O governo de Fidel Castro introduziu reformas temporárias, incluindo a abertura gradual do setor de turismo, o que resultou em uma recuperação parcial. Mas foi somente quando Hugo Chávez chegou ao poder na Venezuela e o país assumiu o papel de patrocinador de Cuba, substituindo a União Soviética, que a economia realmente começou a se recuperar de maneira substancial.

Amor especulou que foi a abertura gradual da economia cubana nas últimas décadas que impediu uma crise semelhante à do início dos anos 1990. No entanto, ele previu que as reformas limitadas que o irmão de Fidel, o ex-ditador Raúl Castro, e seu sucessor, Miguel Díaz-Canel, introduziram provavelmente não teriam um grande impacto.

"Nem mesmo o turismo será capaz de estancar esta crise, já que as forças motrizes da economia pararam completamente", disse ele.

Rubio: sistema cubano precisa "mudar drasticamente"

Aparentemente, foi a enorme pressão interna e externa de Cuba que forçou o regime à mesa de negociações. Na semana passada, o presidente cubano confirmou que as conversas aconteceriam, como Trump havia anunciado no início de março.

No início desta semana, o vice-primeiro-ministro Oscar Pérez-Oliva, sobrinho-neto dos irmãos Castro, afirmou que Cuba estava aberta a permitir o comércio com empresas americanas e a permitir que cubano-americanos investissem em empresas cubanas.

Rubio, no entanto, disse que os esforços do regime não foram "suficientemente drásticos". Ele afirmou que o sistema político e governamental não poderia ser consertado e acrescentou que a economia não estava funcionando, acrescentando que "eles precisam mudar drasticamente".

Apesar da grave situação econômica, Maria José Espinosa, diretora do Centro para o Engajamento e Ativismo nas Américas (Ceda), com sede em Washington, duvida que o regime cubano esteja à beira do colapso.

"O aparato estatal – o partido comunista, as forças de segurança e o sistema militar-econômico – permanece relativamente coeso", afirmou.

Somente os Castro podem introduzir mudanças reais

No entanto, as rachaduras estão começando a aparecer. Para muitos, Díaz-Canel é considerado um membro do partido que perdeu influência e é efetivamente intercambiável. De acordo com Ted Henken, professor da City University of New York (Cuny), somente os militares – e os Castros – seriam realmente capazes de introduzir mudanças fundamentais no país.

"É a família Castro que controla e dirige as negociações com os Estados Unidos", disse o especialista à DW.

Além do vice-primeiro-ministro Pérez-Oliva, cuja estrela está em ascensão, também está se tornando cada vez mais importante o neto de Raúl Castro, Raúl Guillermo, conhecido como El Cangrejo ("O caranguejo").

"Tudo aponta para o fato de que eles representarão os interesses da família Castro e, de uma forma ou de outra, acabarão liderando o governo", afirrnou Henken. Ele disse ainda duvidar que a nova geração consiga promover reformas estruturais que levariam vários anos até que fossem implementadas.