Trump, Bolsonaro e o vírus anti-democrático

Na noite dessa segunda-feira, Donald Trump deve ocupar a ribalta mais uma vez para dizer que as eleições americanas do ano passado foram roubadas. Durante um comício de apoio aos republicanos que concorrem às duas vagas da Geórgia no senado federal, num pleito extraordinário, ele promete demonstrar que não perdeu a disputa naquele estado, contrariando o que dizem os números auditados e certificados pelas autoridades. A mesma alegação vem sendo feita há semanas, sem que uma prova concreta jamais tenha se materializado.

Será a penúltima oportunidade para que o presidente e seus seguidores contestem em grande estilo o resultado do pleito. A derradeira ocasião virá na quarta-feira, quando o Congresso se reúne para computar os votos de cada estado no colégio eleitoral americano. Um punhado de senadores e outros tantos deputados do partido de Trump anunciaram que vão pôr os resultados sob suspeita, o que deve acarretar debates e deliberações que podem se estender noite adentro.

As chances de a investida surtir efeito são ínfimas, para não dizer nulas. As maiorias do Senado e da Câmara teriam de acolher os argumentos trumpistas, mas a esta altura eles não são unanimidade nem mesmo no Partido Republicano. Diversos parlamentares graduados da legenda vêm dizendo nos últimos dias que a novela foi longe demais, pois nenhuma alegação de fraude ou irregularidade se confirmou até agora, em instâncias administrativas ou judiciais. Insistir na briga, dizem eles, significa minar irresponsavelmente a credibilidade da democracia americana, sem que nenhum benefício possa vir daí.

Ou será que existe algum benefício? Essa talvez seja a verdadeira questão neste momento – e a resposta também interessa ao Brasil.

Não acho que se deva ignorar a obstinação quase patológica de Trump como um dos fatores em jogo. Ele quer ganhar a todo custo. Neste domingo, o jornal The Washington Post divulgou a gravação de uma conversa assombrosa entre ele e Brad Raffensperger, responsável pela organização das eleições na Geórgia.


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O presidente desfiou todo o rol das suas teorias conspiratórias, e fez de conta que não ouviu quando Raffensperger, que é republicano, as rebateu. Com incrível cara de pau, e beirando a ilegalidade, Trump chega a dizer que tudo que ele precisa é “encontrar” 11.780 votos – um a mais do que a vantagem obtida por Joe Biden no Estado.

Misturada à maluquice, contudo, há uma dose de cálculo racional. O que está em jogo é o controle do Partido Republicano nos próximos anos.

Um número considerável dos eleitores republicanos está convencido que alguma falcatrua ocorreu de fato nas eleições. Trump e seu time atuam para essa plateia. E não hesitam em chamar de traidores os correligionários que não os acompanham na cruzada. “Os republicanos não esquecem”, disse ele no Twitter a um dos senadores que desejam mudar de assunto.
Assim, a menos que um novo reality show ou algum negócio das arábias desvie a atenção de Trump da política, são enormes as chances de ele manter a cantilena da “eleição roubada”, mesmo se a quarta-feira sacramentar de uma vez por todas a vitória de Joe Biden. Essa seria a plataforma de Trump para se manter relevante e lançar novamente uma candidatura em 2024. Sua – ou de um “poste”.

Como se sabe, Jair Bolsonaro imita Trump. Já faz algum tempo que ele vem fomentando a desconfiança contra as urnas eletrônicas brasileiras. Já afirmou ter provas de que ganhou as eleições de 2018 no primeiro turno. Há poucos dias, disse a um apoiador que não há chance de reeleição em 2022 se o voto impresso não for instituído – o raciocínio implícito é que as urnas eletrônicas seriam adulteradas para impedir a vitória do bolsonarismo.

Não há dúvida nenhuma que, assim como Trump, Bolsonaro vai chamar de fraudulento qualquer resultado que não seja a sua reeleição em 2022, pouco importando a inexistência de provas de que há “bugs” no sistema. Assim como Trump, ele está pouco se lixando para os danos que possa causar à democracia.

Por isso, vale a pena acompanhar o desenrolar da estratégia do republicano. Mesmo que as situações não sejam idênticas – Bolsonaro, para começo de conversa, não tem um partido para liderar – o presidente brasileiro vai continuar buscando inspiração naquela fonte. E quanto mais rápido o Brasil conhecer o vírus que Trump está tentando inocular nos Estados Unidos, melhor poderá se vacinar contra ele.

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