O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma que está “considerando” ataques ao Irã caso não se chegue a um acordo nuclear, mas tem mantido silêncio sobre seus objetivos de longo prazo, enquanto no país o debate sobre o tema praticamente não existe.
Ataques cirúrgicos contra a Guarda Revolucionária – pilar do poder iraniano – ou contra o programa de mísseis, como exige Israel? Uma mudança de regime?
O líder republicano, que ordenou um desdobramento naval e aéreo maciço no Golfo, tem múltiplas opções com consequências potencialmente desestabilizadoras para a região.
O Irã, por sua vez, ameaçou com severas represálias.
– Quais são as opções? –
Trump indicou na quinta-feira que se daria de “dez” a “quinze dias” para decidir se é possível um acordo com o Irã ou se recorrerá a ataques.
Segundo o veículo Axios, foram apresentados ao presidente americano planos militares que propõem atacar diretamente o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei.
O magnata reitera que prefere uma abordagem diplomática com vistas a um acordo que iria além do programa nuclear iraniano e incluiria a capacidade de mísseis balísticos e o apoio de Teerã a seus aliados, como os já enfraquecidos Hezbollah e Hamas, proposta que Teerã rejeita.
Estados Unidos e Irã mantiveram duas rodadas de conversas indiretas, primeiro em Omã e depois na Suíça.
Essas conversas não pareceram levar a uma convergência significativa de posições. Mas a porta permanece aberta.
O presidente Trump está “surpreso” de que o Irã ainda não tenha “capitulado” diante do desdobramento militar de Washington, segundo seu enviado, Steve Witkoff.
“O mais provável é que a administração Trump busque um conflito limitado que redefina o equilíbrio de poder sem mergulhá-lo em um atoleiro”, escreveu Alex Vatanka, do Instituto do Oriente Médio, em Washington.
Segundo ele, os iranianos contam com “uma campanha militar breve e de alto impacto que paralisaria a infraestrutura de mísseis balísticos do Irã, enfraqueceria seu poder de dissuasão e restabeleceria o equilíbrio de poder após a guerra de 12 dias com Israel em junho de 2025”.
– Qual é a justificativa? –
O presidente americano afirma ter “destruído” o programa nuclear iraniano nos ataques de junho passado, direcionados contra várias usinas de enriquecimento de urânio.
Isso lança dúvidas sobre a real necessidade de um acordo nuclear.
No entanto, o movimento de protesto de janeiro, que foi brutalmente reprimido, mudou as regras do jogo.
Trump prometeu então “ajudar” o povo iraniano. Também se gaba de ter levado “paz” ao Oriente Médio, especialmente a Gaza, e acredita que uma mudança no Irã fortaleceria esse impulso.
A oposição democrata, por sua vez, teme que os Estados Unidos estejam sendo arrastados para um novo atoleiro e exige que o Congresso seja consultado, único órgão autorizado a declarar guerra.
– Com quais recursos? –
O Exército americano conta atualmente com treze navios de guerra no Oriente Médio: um porta-aviões, o “USS Abraham Lincoln”, que chegou no fim de janeiro, nove destróieres e três fragatas leves. Outros estão a caminho da região.
O maior porta-aviões do mundo, o “USS Gerald Ford”, foi fotografado transitando pelo Estreito de Gibraltar e entrando no mar Mediterrâneo na sexta-feira, segundo fotos publicadas pela AFP feitas a partir de Gibraltar.
Os Estados Unidos também enviaram uma grande força aérea no Oriente Médio, juntamente com dezenas de outras aeronaves de combate.
Isso sem mencionar a presença de dezenas de milhares de soldados em numerosas bases militares por toda a região.
– Com que finalidade? –
Para Richard Haass, ex-presidente do Conselho de Relações Exteriores, ninguém sabe “qual seria o impacto de um conflito na manutenção do regime iraniano no poder”. “Poderia tanto fortalecê-lo quanto enfraquecê-lo”, escreveu no site Substack.
No fim de janeiro, durante uma audiência no Congresso, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, admitiu que ninguém sabe “o que acontecerá no Irã se o líder supremo e o regime caírem, além da esperança de que haja alguém dentro de seu sistema com quem se possa trabalhar”.
As monarquias do Golfo Pérsico, que mantêm relações estreitas com o Irã, advertiram Donald Trump contra qualquer intervenção, por temor de serem atacadas e de desestabilizar ainda mais a região.
Mona Yacoubian, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, declarou recentemente à AFP que “um ataque destinado a ‘decapitar’ o regime na verdade acabaria (…) semeando o caos no Irã”.
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