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Entrevista

Evan Jean Lawrence

Trump ajuda a disseminar o terror nos EUA

Divulgação

Trump ajuda a disseminar o terror nos EUA

Camila Brandalise
Edição 07.07.2017 - nº 2482

Uma das maiores especialistas em terrorismo e segurança internacional do Reino Unido, Evan Jean
Lawrence acredita que nem a polícia nem os serviços de inteligência são suficientes para prever e evitar ataques. Para ela, é preciso olhar o problema de outra maneira. “Terrorismo é mentalidade, é filosofia, é crença. Temos que pará-lo como sociedade e, assim, ajudar a polícia. Não podemos exigir que as autoridades resolvam tudo”, afirma. Evan defende um trabalho de educação que ensine pensamento crítico e capacidade de lidar com conflitos como estratégia para evitar que recrutadores de grupos radicais disseminem o ódio. Nesta entrevista à ISTOÉ, a pesquisadora da University of Central Lancashire explica como os extremistas atuam para promover atentados na Europa, diz que um grande ataque nos Estados Unidos é só uma questão de tempo e aponta caminhos para brecar o avanço do radicalismo.

 

O número de atentados terroristas tem aumentado na Europa?

Na verdade, o número de ataques está caindo. O que está mudando é a metodologia. São de maiores proporções, chamam mais a atenção e, por isso, há maior cobertura da imprensa. A notícia se espalha pelo mundo com maior abrangência e rapidez. Há 20 anos isso não acontecia.

 

Como os terroristas atuam para cooptar jovens dispostos a lutar?

Há recrutadores que fazem uma lavagem cerebral. Pensam no contexto e se perguntam: “Essa pessoa está vulnerável, será que consegue pensar criticamente?” Imagine esta situação: a pessoa tem uma briga com os pais, entra na internet, e de repente alguém aparece para dizer: “Seus pais estão errados, veja quanta coisa ruim foi feita por um governo no qual eles votaram. Junte-se a nós. Você receberá recompensas, terá uma noiva, lutará pela causa e seu nome será conhecido em todo lugar.” Um adolescente pode cair nessa. É o tipo de combinação perfeita. A pessoa não entende a religião, mas está vulnerável, procurando por um sentido e por pertencimento.

 

Isso quer dizer que sem a internet a ideologia não teria se propagado da maneira como se propagou?

Até o começo dos anos 2000, para se tornar terrorista a pessoa precisava conhecer alguém que já fosse. A Al-Qaeda recrutava no boca a boca. O interessado falava com um, com outro, até conseguir ser aceito. Hoje, se você quer se juntar, se junte. Não importa quem você é. Muito disso tem a ver com a propaganda que fazem e com a maneira como eles recrutam. A ideia é “se você não pode vir até nós, vamos fazer algo onde você está”. Hoje em dia, as crianças já estão conectadas a partir dos 7, 8 anos. É uma mudança definitiva na maneira como novos terroristas são cooptados.

O Google anunciou que vai aumentar os esforços para barrar vídeos com propaganda terrorista. É suficiente?

Temos que ser vigilantes em relação à internet. A questão é que não conseguimos parar essas pessoas antes de elas se tornarem radicais. A polícia só tem consciência de que uma pessoa é terrorista quando já é tarde. Precisamos impedi-las de agir mais cedo e isso envolve lidar com questões sociais, racismo, educação. As medidas tomadas hoje são sempre de reação a um evento. Nós precisamos prevenir, pará-los antes que cheguem no ponto de procurar por isso na internet.

As pessoas que se tornam terroristas têm pontos em comum, como origens parecidas, por exemplo?

Não. Uma das coisas contra as quais lutamos nos estudos sobre terroristas é que não há ligação entre eles. A única coisa em comum é a situação de vulnerabilidade, qualquer tipo. Não necessariamente a pessoa vai parar no terrorismo. Ela pode começar a usar drogas, entrar para o crime. E não são só homens. Temos visto muito aqui no Reino Unido muitas mulheres jovens se tornando noivas de jihadistas.

 

De que forma isso ocorre?

Meninas com idade entre 14 e 15 anos foram para a Turquia para entrar na Síria e se tornar mulheres de jihadistas. Os recrutadores dizem: “Se seus pais vão escolher seu marido de qualquer maneira. Venha para cá. Se você casar com um de nós, será livre para fazer o que quiser, terá uma boa vida e não precisará mais obedecer a seus pais”. Mas essas garotas estão morrendo. Se tornam escravas sexuais, não há nada de bom esperando por elas.

 

Por que os atentados não têm ocorrido nos EUA da mesma maneira que na Europa, já que o país também é visto como inimigo?

Os Estados Unidos já foram palco de grandes tragédias. Se ainda não vimos um novo grande atentando de extremistas islâmicos é porque eles ainda não foram bem sucedidos. Só por isso. Na verdade, a discussão é “quando” vai acontecer e não “se” vai acontecer. É só uma questão de tempo.

 

Que tipo de reação o governo de Donald Trump irá adotar diante de um grande ataque nos EUA?

Grupos terroristas estão se preparando para usar armas químicas. Trump disse que, se isso acontecer, a resposta será severa. Não tenho dúvida que a decisão tomada no mais alto nível do governo americano não é feita sob uma visão crítica em relação às consequências. É de curto prazo. Se George W. Bush não tivesse atacado o Afeganistão depois do 11 de setembro, as pessoas no Oriente Médio teriam menos do que se queixar contra os americanos. Não haveria crianças mortas, bombardeios. É esse tipo de motivação que os recrutadores usam quando procuram pessoas vulneráveis. Dizem: “veja o que seu governo está fazendo”. Bombardear um país não leva à paz.

Voltando a Trump…

Provavelmente suas ações só vão acelerar o processo de disseminar o terrorismo nos EUA. Ele cria muita divisão na sociedade. Acho que ele está promovendo a ideia do “nós versus eles”, que era o discurso de Adolf Hitler. Obviamente não acho que Trump é um Hitler, mas a mesma ideia existe nos dois discursos. É isso que assusta. Quando você começa a se referir a outra cultura como “eles”, é como se valessem menos. Passam a ser tratados não como pessoas, mas como uma ideologia ruim, o mal, e aí é muito fácil matar quando a pessoa não é vista como alguém que pode ser um pai ou uma mãe.

 

A América Latina poderá se tornar alvo do terror?

Participar de uma coalizão coloca um país alinhado com o Ocidente. Se o Brasil vai se tornar um alvo ou não depende de como o País vai se alinhar com a maneira como Europa e Estados Unidos lidam com assuntos de política externa.

Que tipo de ação pode funcionar para evitar atentados?

O que fizemos em relação ao terrorismo nos últimos 20 anos não está funcionando. Por que não tentar algo diferente? Claro que precisamos de uma boa resposta da polícia ao terrorismo, pois uma pessoa não pode chegar em um lugar e explodir tudo. As autoridades devem detê-la. Em um momento de austeridade não há mais dinheiro para injetar na polícia, que já não consegue fazer o que vinha fazendo. Não há mais verba, não há mais força humana. Temos essa ideia já cristalizada de que é função da polícia parar o terrorismo. A função da polícia é evitar crimes. Terrorismo é mentalidade, é filosofia, é crença. Então temos que pará-lo como sociedade, e assim ajudar a polícia. Não podemos exigir que as autoridades resolvam tudo. Se formos apenas dar dinheiro para a polícia nos tornaremos um governo ditatorial, é o que acontece na Coreia do Norte.

 

Quais são as alternativas?

Políticas públicas. Primeiro, pensar em como lidamos com vulnerabilidades. Olhar para a proteção das crianças, ensinar pensamento crítico nas escolas. Ensinar política. Se uma pessoa não entende como o governo funciona, ela vai sentir que foi afastada das decisões. As pessoas não entendem como o processo funciona, não sabem em que estão votando. Chegando nesse nível fica difícil explicar para um adolescente de 16 anos que o voto dele importa. Não vai resolver completamente o problema, mas vai nos ajudar a ser uma sociedade mais saudável que sabe lidar com conflito, sempre visto como algo negativo. O conflito às vezes é necessário para o funcionamento da democracia. É importante que aprendamos a ouvir opiniões divergentes para melhorar como sociedade.

 

Há exemplos de como essa estratégia pode funcionar?

Estou trabalhando com uma organização de serviço de apoio à vítima que lida com a questão da violência doméstica. Eles receberam um investimento alto do governo para ir até as escolas conversar com jovens entre 13 e 16 anos para que tenham pensamento crítico sobre essa questão. Esse projeto vai ser testado em uma região da Inglaterra e, se der certo, irá para todo o país. Talvez não funcione tão bem, mas é uma nova alternativa.

 

Por que os terroristas querem que o Ocidente reaja de maneira violenta aos ataques que promovem?

Eles querem mudar a maneira como nossa sociedade funciona. Fazer-nos reagir da mesma maneira que eles vivem. Se há 20 anos eu falasse que para entrar em um avião você teria seu corpo todo escaneado, me chamariam de doida. Mas hoje isso é um procedimento normal. Estamos perdendo nossas liberdades civis.

 

Por isso eles agem como no atentado que matou dezenas de crianças durante um show em Manchester?

É uma coisa horrorosa entrar em um estádio para matar crianças. Mas, pensando no contexto, foram 22 pessoas mortas em Manchester. Quantas vezes o mesmo número de crianças morreu em ataques na Síria ou no Iraque? Na verdade, a quantidade de vítimas é substancialmente maior nesses lugares. O terrorismo islâmico mata muçulmanos muito mais do que qualquer um. É como se eles quisessem que sentíssemos na pele o que eles estão vivendo. No Reino Unido, na Alemanha, na França e na Bélgica existe a ideia de que querem revidar o que sofrem, mostrar como a vida deles é tornando a do Ocidente um pouco parecida. É uma retaliação, dentro do conceito de radicalização recíproca. Um grupo faz um atentado e a nação atingida bombardeia o país que julga culpado. Torna-se uma espiral.

 

Isso fortalece o radicalismo entre a extrema direita?

Sim. Os ataques de grupos radicais islâmicos se tornaram material de radicalização para a extrema direita, que pensa que vai virar minoria na própria nação e agora se levanta pela cultura branca.

 

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