Depois do ataque dos Estados Unidos, a captura de Nicolás Maduro e a posse de sua vice, Delcy Rodríguez , como presidente interina da Venezuela , uma das muitas questões que seguem em aberto é qual será o papel das Forças Armadas venezuelanas, até bem pouco tempo fiéis ao chavismo.
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Para o cientista político venezuelano Víctor M. Mijares, os militares continuarão desempenhando um papel muito importante na transição.
“Minha tendência é acreditar que eles se alinharão ao governo, como sempre fizeram. Eles irão identificar qual lado tem a maior chance de sobreviver e se refugiarão sob sua proteção”, analisa. E alerta: “Estamos diante de uma situação de suspeita mútua dentro dos círculos chavistas”.
O pesquisador mexicano Carlos Pérez Ricart compartilha a mesma opinião: “o Exército venezuelano não é monolítico, como qualquer exército”, embora “a elite militar na Venezuela tenha sido leal ao regime”.
Ele explica que os militares venezuelanos são uma elite que se beneficiou de sua relação com a liderança política e que, até agora, não havia demonstrado nenhum sinal de fragmentação.
“É de se esperar que, pensando em seus próprios interesses e considerando as perspectivas futuras, alguns membros da liderança militar tenham cooperado de alguma forma com os Estados Unidos”, admite o especialista.
EUA tiveram apoio dos militares da Venezuela?
Ao ser questionado se os EUA tiveram apoio dos militares venezuelanos, Manuel Supervielle, coronel aposentado do Exército americano e ex-conselheiro do Comando Sul, é categótico: “sinceramente, não tenho dúvidas quanto a isso”. Caso contrário, segundo ele, a operação dificilmente teria se desenrolado da forma como aconteceu.
“Os danos colaterais foram mínimos graças a isso, mas os americanos estavam preparados para tomar o controle pela força”, declara. Ele acredita que os mais próximos a Maduro tenham o traído e questiona o papel que Delcy Rodríguez possa ter desempenhado.
Mijares também acredita em traição. “Há rumores nos círculos chavistas; até o próprio filho de Maduro mencionou a palavra ‘traição'”, lembra, embora admita não haver provas disso. “A baixíssima resistência oferecida pelas Forças Armadas da Venezuela é impressionante”, afirma, reconhecendo, porém, que isso também pode ser atribuído à superioridade militar dos EUA.
Guarda pretoriana de cubanos
A operação teria deixado em torno de 80 mortos, o que, segundo Ricart, contradiz o discurso de baixas mínimas divulgado pelo governo americano. Dentre os mortos, 32 eram militares cubanos e faziam a guarda pessoal de Maduro.
“Acho que essa informação, embora fosse de conhecimento geral, também revela que não havia confiança na própria inteligência venezuelana nem nas Forças Armadas da Venezuela”, observa Mijares.
O próprio presidente americano, Donald Trump , disse em sua coletiva de imprensa após a operação não esperar que alguém fosse reivindicar a recompensa oferecida por Maduro. No entanto, Mijares, Trump poderia simplesmente estar tentando proteger seus informantes.
“Eu não descartaria essa possibilidade, porque é claro que eles continuarão precisando dessas fontes no terreno para manter o controle”, diz o analista venezuelano radicado na Colômbia.
Exército apoiaria uma transição tutelada pelos EUA?
Os especialistas ouvidos pela DW acreditam que, diante dos fatos, o Exército venezuelano se vê diante de poucas possibilidades.
“Não sei se eles aceitarão um governo sob tutela dos EUA, mas também não sei quais alternativas eles teriam”, destaca Mijares. “Porque eles claramente não estão em posição de estabelecer, ou mesmo considerar, assumir o controle por conta própria sem alguma forma de tutela ou, pelo menos, uma ameaça dos Estados Unidos, que agora é absolutamente crível”.
Ricart faz outra ponderação: uma mudança de regime não seria conveniente para a cúpula militar. “Isso traria à tona muitos dos crimes que cometeram nos últimos 20 anos, incluindo inúmeros casos de graves violações dos direitos humanos e corrupção generalizada”, observa.
Por essa razão, para ele, o mais provável é que os militares busquem não uma mudança de regime, mas a manutenção da atual estrutura de poder até que ela possa facilitar “uma transição de longo prazo, não uma imediata, e certamente não uma em direção à oposição”.
Novo ataque dos EUA é possível?
Supervielle duvida que um ataque dos EUA à Venezuela se repita. Ele explica que, se a justificativa legal para o primeiro ataque já é duvidosa, uma segunda incursão não teria “nenhuma justificativa, nem sob o direito internacional, nem sob o direito americano”.
No entanto, o Exército venezuelano estaria indefeso contra isso. “O que eles têm é equipamento muito antigo, da era soviética, e não fazem a manutenção necessária”, afirma.
“Em um [hipotético] futuro ataque, as Forças Armadas venezuelanas não estariam em condições de se defender”, declara Supervielle. Já no caso de um ataque terrestre, a superioridade dos EUA já não seria tão esmagadora.
“Não vejo isso acontecendo de jeito nenhum. Seria um suicídio político da parte de Trump”, afirma. “Colocar tropas americanas na Venezuela seria extremamente rejeitado pela grande maioria dos americanos, e acho que ele entenderia isso”, conclui.