Setenta anos após a tragédia de Marcinelle, na Bélgica, a Itália homenageia as 262 vítimas do desastre, considerado um dos mais graves acidentes de trabalho da história europeia, que vitimou 136 trabalhadores italianos. A cerimônia, ocorrida no complexo do Bois du Cazier, foi marcada por protestos contra a presença de representantes da direita italiana.
- Marcinelle: Itália homenageia 262 vítimas do acidente de trabalho na Bélgica, um dos piores da história europeia.
- A cerimônia dos 70 anos do desastre foi marcada por intensos protestos contra a presença da direita italiana.
- Manifestantes viraram as costas durante o discurso de Ignazio La Russa, gerando acusações e controvérsia política.
A delegação italiana foi liderada pelo presidente do Senado, Ignazio La Russa. Ainda pela manhã, manifestantes se concentraram do lado de fora da antiga mina, em uma mobilização marcada por palavras de ordem contra a presença de integrantes do partido Irmãos da Itália (FdI), legenda da primeira-ministra Giorgia Meloni.
Segundo o jornal belga Le Soir, a intervenção policial contra os manifestantes foi intensa. Durante o discurso de La Russa, parte do público protestou e alguns participantes viraram as costas para o palco, em um gesto de desaprovação. A tragédia de Marcinelle, com sua memória dolorosa, se tornou palco para disputas políticas.
Protestos e acusações políticas
O episódio provocou uma troca de acusações entre representantes políticos e sindicais. Carlo Fidanza, chefe da delegação do FdI no Parlamento Europeu, apontou a responsabilidade para a Confederação Geral Italiana do Trabalho (CGIL). Nas imagens da cerimônia, uma das pessoas que estava de costas usava um lenço com as siglas FGTB-CGIL, referência a uma iniciativa conjunta dos sindicatos belga e italiano realizada no dia anterior, em Charleroi.
A FGTB, no entanto, afirmou que apenas seus integrantes belgas participaram do gesto. O secretário-geral da CGIL, Maurizio Landini, também negou que os membros do sindicato italiano tenham se virado durante o discurso de La Russa. Segundo ele, a delegação da CGIL estava sentada em outra área do local. A homenagem às vítimas, assim, foi obscurecida pela polêmica.
Uma das manifestantes, Martine Vandevenne, explicou à ANSA que o protesto foi motivado pela presença de La Russa na cerimônia. “Dar a palavra a ideias fascistas por parte de Ignazio La Russa é um insulto à memória das vítimas e dos trabalhadores que lutaram neste local”, afirmou Vandevenne.
O prefeito de Charleroi, Thomas Dermine, integrante do Partido Socialista Belga, também criticou a presença da direita italiana. Em seu discurso, acusou de “hipocrisia” aqueles que, segundo ele, defendem os trabalhadores enquanto pregam o fechamento das fronteiras. Dermine, cujas declarações receberam fortes aplausos do público, destacou ainda que Charleroi é “uma cidade antifascista”.
Qual o impacto da postura de Giorgia Meloni?
Por sua vez, Giorgia Meloni usou suas redes sociais para condenar o gesto de virar as costas durante a cerimônia e afirmar que o protesto representou um desrespeito às instituições italianas e à memória das vítimas. A premiê italiana classificou como “grave e vergonhoso” o comportamento daqueles que teriam participado da manifestação durante o discurso de La Russa e ressaltou que Marcinelle deveria ser um espaço dedicado à memória, ao respeito e à dignidade do trabalho, e não às divisões políticas.
“Marcinelle não é lugar para divisões políticas. É um lugar de memória, respeito e dignidade do trabalho. Aqueles que optaram por virar as costas hoje desrespeitaram tudo isso”, escreveu Meloni.
Já Landini rebateu as acusações de Fidanza. Em declaração à ANSA, afirmou que a CGIL não participou do gesto de protesto e ironizou a tentativa de responsabilizar a entidade sindical. “Porque a CGIL, se você não sabe, eu lhe digo, nunca fecha os olhos, especialmente quando se trata de respeitar o nosso presidente da República”, afirmou Landini.
Vincent Pestieau, secretário regional da FGTB em Charleroi, confirmou que a manifestação foi uma forma de protestar contra a presença do FdI, partido que o sindicato considera de extrema direita. “Todos os camaradas da FGTB deram meia-volta, porque somos contra a presença de partidos fascistas”, afirmou Pestieau à ANSA, acrescentando que o protesto não foi dirigido ao presidente italiano, Sergio Mattarella, cuja mensagem foi lida durante a cerimônia, mas à participação de La Russa como representante do governo italiano.
A tragédia de Marcinelle ocorreu em 8 de agosto de 1956, na mina de Bois du Cazier. Um incêndio no interior do local provocou a morte de 262 trabalhadores. Entre as vítimas, 136 eram italianos, muitos deles imigrantes que haviam chegado à Bélgica em busca de trabalho. O histórico de acidentes como este faz com que a Itália esteja atenta a casos de incêndio e segurança.
Hoje, o episódio é um símbolo do combate às mortes por acidentes de trabalho e às condições precárias de segurança às quais muitos imigrantes eram submetidos após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.
Esta foi a terceira maior tragédia em número de vítimas com imigrantes italianos em minas. As duas primeiras aconteceram nos Estados Unidos: a de Dawson, em 1913, matou 146 mineradores do país europeu, e a de Monongah, em 1907, vitimou entre 350 e mil trabalhadores, sendo a metade da Itália.