Trabalhadores de saúde em Moscou resistem ao otimismo

Trabalhadores de saúde em Moscou resistem ao otimismo

Exausto, um paciente escreve lentamente sua mensagem, letra por letra: “Doutor, quando posso ir para casa?”. Nas últimas três semanas, vem travando uma batalha contra a morte por coronavírus em um hospital de Moscou.

“Espere um pouco”, responde Dmitri Cheboksarov, chefe da unidade para COVID-19 do hospital Vinogradov, em voz baixa: “aqui te ensinamos como respirar. Isso levará mais quatro dias”.

Comparado às semanas anteriores, a tensão diminuiu um pouco neste hospital, mas a equipe médica se recusa a ser otimista, já que a epidemia está longe de ser derrotada na capital russa, que registrou metade das 291.000 infecções relatadas em todo país.

Cheboksarov, usando máscara, óculos e um macacão completo, explica ao paciente de 54 anos que é melhor permanecer conectado ao respirador, o que o impede de falar. “Não fique triste, seus parentes te enviam abraços. Estou em contato com eles, eles telefonarão para você amanhã”, o médico conforta o paciente, privado de visitas por medo de contágio.

Desde meados de abril, os 36 leitos nesta unidade específica para COVID-19 estão permanentemente ocupados. Cheboksarov, pai de dois filhos, mal dormiu quatro horas por dia durante um mês.

“Não me permito pensar no fim da epidemia. Isso prejudicaria meu trabalho”, confidencia à AFP, durante uma visita às instalações, supervisionada pelo Departamento de Saúde da capital russa.

Em sua unidade, a morte é onipresente. No domingo, três corpos embrulhados em sacolas pretas foram removidos do local.

– “Algo nunca visto” –

Embora a epidemia pareça se estabilizar, segundo as autoridades, a Rússia continua sendo o segundo país do mundo em número de infecções por coronavírus. O governo se orgulha da baixa mortalidade – 2.722 mortes – em comparação com a Europa Ocidental.

Críticos questionaram o número de mortos, acusando Moscou de subestimá-lo deliberadamente.

As autoridades russas justificam essa baixa mortalidade por contar apenas mortes cuja causa principal é o coronavírus, enquanto outros países registram quase todas as mortes de pacientes que apresentaram resultado positivo. Além disso, argumentam que a epidemia chegou mais tarde à Rússia, dando ao Kremlin tempo para equipar hospitais e implementar uma política de detecção em massa.

Os trabalhadores do serviço de terapia intensiva e reanimação do Hospital Vinogradov não comentam essas considerações.

Dada a magnitude dessa crise de saúde, a unidade COVID-19 do hospital recebeu todo o necessário. A equipe aumentou de 20 para mais de 90 pessoas, com profissionais do setor de saúde de outras regiões menos afetadas.

Olga Chursinova, de Ivanovo, nordeste de Moscou, trabalha aqui há um mês. “É muito difícil, nunca vi nada assim”, diz a anestesista de 57 anos, com o rosto marcado por olheiras profundas.

Ela ressalta que o hospital está muito bem equipado: “os dispositivos são mais modernos e (existem) mais remédios” do que em Ivanovo, uma realidade muito comum na Rússia, onde a capital tem melhores recursos que a província.

Dmitri Cheboksarov, chefe da unidade, compara sua equipe a uma “orquestra”, que agora conhece melhor a partitura a ser tocada. “Tivemos pouco tempo para ensaiar. Mas a música está tocando e continuaremos nosso trabalho pelo tempo que for necessário”, garante.