Edição nº2539 17/08 Ver edições anteriores

Tiros, flores e intolerância

A pergunta pairava em uma legenda na tela da TV durante o programa apresentado por Leilane Neubath no canal Globo News: “Policiais de folga devem reagir a assaltos?”. O motivo do questionamento era a notícia sobre a atitude da policial militar Kátia da Silva Sastre, que disparou três tiros e matou um assaltante em frente à escola em que a filha dela estuda, em Suzano (SP), quando iria participar de uma festa do Dia das Mães. No dia seguinte à ocorrência, a cabo da PM, que está na corporação há 20 anos, foi homenageada pelo governador paulista, Márcio França. Recebeu flores e elogios. “Ela é um exemplo do que um policial deve fazer. Por ela, pela sociedade, pela própria filha”, disse França. O secretário da Segurança Pública do Estado, Mágino Alves, reforçou as palavras do governador ao afirmar que a policial agiu corretamente, seguindo o protocolo da PM. O secretário aproveitou para lembrar que a população em geral não deve reagir a tentativas de assalto.

Dentro dessa premissa, parece perfeitamente legítimo que um telejornal questione se um policial de folga deve seguir a recomendação que vale para a população em geral — ou reagir. A reação de muitos dos telespectadores não foi responder à pergunta e sim criticá-la com veemência, como se o assunto não pudesse ser nem sequer debatido. Entre os internautas que aproveitaram a oportunidade para manifestar sua visão maniqueísta está a âncora do “SBT Brasil”, Rachel Sheherazade, para quem a pergunta é “estúpida”. Pelo Twitter, Leilane respondeu às provocações de forma igualmente visceral: “As pessoas não querem ler, assistir nem entender nada. Querem apenas odiar. Extravasar seu ódio, sua própria violência interna contra tudo que vem acontecendo nesse país”. O tom da resposta, talvez pelo calor do momento, pode ser exagerado, mas o que ela diz resume a cultura de ódio que divide a sociedade brasileira justamente nas questões que exigem um debate equilibrado. A pergunta exibida no noticiário nem mesmo tocava no ponto crucial da ação da policial: se ela deveria ter atirado com a intenção de matar, como fez, ou tentado desarmar o assaltante que, segundo ela, já havia efetuado dois disparos. Também não se indagiou se cabe ao governador do Estado homenagear a policial pela bravura, mesmo fora de serviço. A questão era simples, sem viés ideológico, sem qualquer apologia a fazer justiça com as próprias mãos ou condenação ao uso de letalidade policial. Por isso mesmo merece ser formulada. Perguntar não ofende.

“Policiais de folga devem reagir a assaltos?”, questionou o telejornal. As respostas mostram o clima de ódio que impera no País

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Celso Masson

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