Comportamento

Tire a roupa e diga “ohm”

Já existe até fila de espera para quem quer fazer ioga nu — prática que chegou ao Brasil depois de fazer sucesso em Nova York. Além de superar a inibição, o desafio é ver os outros corpos sem erotismo

Crédito: Shannon Stapleton

TODO MUNDO NU Aula de ioga em que os praticantes tiram a roupa: vontade de experimentar supera a inibição inicial (Crédito: Shannon Stapleton)

Praticar ioga é ótimo. Aprende-se a respirar melhor, o corpo ganha flexibilidade e a mente se aquieta. Os benefícios são conhecidos há milênios, primeiro a Índia, depois no mundo todo. Agora, a lista de propriedades terapêuticas da prática começa a ganhar novos itens. Para alcançá-los, porém, há uma exigência: é preciso estar completamente nu. A onda começou em Nova York e logo cresceu nas redes sociais e nas salas de aula. Apenas no primeiro mês em que foi criada, a página @nude_yogagirl ganhou 30 mil seguidores. Hoje soma mais de 700 mil.

Parte desse sucesso pode ser atribuída às fotos postadas. Extremamente sensuais, elas rendem em média 25 mil curtidas. Mas não é só: em São Paulo, um grupo de praticantes que reúne iniciados e iniciantes uma vez por mês já tem lista de espera. Antes de tirar a roupa e entoar o “ohmm” profundo que acompanha o final das práticas de meditação, é preciso se libertar do constrangimento de estar em posições tão contorcidas como as da ioga e ainda por cima sem roupa e cercado de estranhos.

“Fui me soltando e percebi que, sem roupa, somos 100% nós mesmos, sem máscara, sem escudo. Conseguimos nos libertar da vaidade e do ego”  Yuri Morroni, praticante de ioga

Como? “Esse é um dos maiores desafios para os marinheiros de primeira viagem”, afirma o instrutor Fred Schinke. Naturista desde os anos 1990 e engenheiro de profissão, ele sempre praticou ioga até que um dia começou a oferecer suas aulas nos encontros da turma de naturismo. A ideia deu certo, apesar do nervosismo antes da primeira prática. “O momento mais tenso, que noto nas pessoas que estão começando, é a hora de tirar a roupa. Mas existe a coragem e a vontade de experimentar”, afirma. Outro desafio é se libertar do conceito de erotismo do corpo nu. “É preciso entender que ninguém está ali sexualizando”, diz Schinke. “O objetivo é buscar o autoconhecimento dentro de uma experiência completa. Sem roupa temos uma percepção maior e melhor do que está ao redor, além da sensação de liberdade que a nudez nos proporciona durante a prática da ioga”

PIONEIRO Fred Shinke, instrutor de ioga pioneiro das aulas sem roupa: naturista desde os anos 1990 (Crédito:Divulgação)

Ganho emocional

Bruno Souza, de 26 anos, começou a praticar ioga nu recentemente e diz que o maior ganho é emocional. “Percebi uma conexão maior comigo. Mesmo que tenha me sentido vulnerável no início por estar sem roupa, logo percebi que todos ali estavam na mesma situação e isso me trouxe uma sensação de segurança que foi libertadora. Se você consegue levar isso para além da prática é muito interessante porque ajuda a mudar sua relação com o exterior”, afirma Bruno. “Mas não dá para negar que num primeiro momento você pensa que todos vão reparar nos seus defeitos e que será julgado. É natural. Afinal, muitos bloqueios que temos do nosso corpo são sociais. E ao praticar ioga sem roupa você consegue perceber isso e passa a aceitar seu corpo como ele é”, afirma Bruno.

Formado em artes visuais, Yuri Morroni fazia uma pesquisa sobre nudez para um livro que está escrevendo quando teve contato com as aulas de ioga sem roupa. “Nunca tinha feito ioga. Durante a aula, enquanto fazia os movimentos, confesso que senti pudor de estar ali exposto em frente a outras pessoas que não conhecia”, diz Morroni. “Mas acho que isso é natural porque culturalmente não estamos habituados a expor nosso corpo sem ser de forma sexualizada”, afirma Morroni. “Fui me soltando e percebi que, sem roupa, somos 100% nós mesmos, sem máscara, sem escudo, sem verniz. Conseguimos nos libertar da vaidade e do ego.” Esse também é o conceito da ioga sem roupa: fazer com que as pessoas se desapeguem da vaidade, do erotismo e respeitem o corpo nu.

 

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