Apesar de várias conquistas da comunidade surda ao longo de diferentes governos, como o reconhecimento da Libras como língua e a obrigatoriedade de sua presença na formação de futuros professores por exemplo, ainda há muito o que se avançar em termos de inclusão educacional, linguística e social do surdo em nossa sociedade. Talvez, a principal delas seja enxergar o surdo como ele é: não um sujeito de falta, não um não-ouvinte, e sim alguém com língua, cultura, experiência de ser e estar no mundo diferente do ouvinte!
E se pudéssemos ver o surdo sem lhe imputar o modelo ouvinte como forma à qual se adequar? Quando não há intérpretes em hospitais ou delegacias, por exemplo, não é a negação do próprio ser surdo que estamos realizando? Quando os alunos surdos (ou o único aluno surdo) incluídos em escolas regulares precisam aprender a língua majoritária (português) como se fosse sua primeira língua, às vezes até uma língua estrangeira, mas sua turma e a escola não têm nenhum contato efetivo com a Libras, podemos dizer tratar-se de inclusão? Educa-se sem conversa, sem contato, sem relação?
Um aluno surdo com o qual trabalho, ao ser perguntado se cachorro era ser vivo ou não durante uma aula, respondeu dizendo que não. À minha réplica, respondeu: “Cachorro não tem vida porque não sabe Libras”.
Sim, sua resposta incomoda, lembra que a língua nos constitui. Somos humanos, sujeitos, cidadãos na linguagem! E Libras é parte fundamental nisso para os surdos: é com ela que eles sonham, pensam, criam conceitos, sentem dor… Libras é vida, sobretudo para aqueles que experienciaram e têm experienciado, a vida toda, a privação linguística… Que este mês seja de celebração da vida, da Língua de Sinais, não só para os surdos, mas para todos nós!