Tiago Ribeiro: Libras: questão de vida

Rio – Dia 26 de setembro comemoramos o Dia Nacional do Surdo, festejo que marca a criação da primeira escola voltada exclusivamente à educação das pessoas surdas no Brasil, o Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). O INES foi fundado em 26 de setembro de 1857 por um professor surdo francês e, de lá para cá, tem estado presente nas lutas da comunidade surda brasileira. Sua história nos remete a memórias, biografias e acontecimentos que nos ensinam sobre as pessoas surdas e sua educação, bem como sobre a importância da afirmação dos surdos como grupo linguístico minoritário plural, com cultura visual.

Apesar de várias conquistas da comunidade surda ao longo de diferentes governos, como o reconhecimento da Libras como língua e a obrigatoriedade de sua presença na formação de futuros professores por exemplo, ainda há muito o que se avançar em termos de inclusão educacional, linguística e social do surdo em nossa sociedade. Talvez, a principal delas seja enxergar o surdo como ele é: não um sujeito de falta, não um não-ouvinte, e sim alguém com língua, cultura, experiência de ser e estar no mundo diferente do ouvinte!

E se pudéssemos ver o surdo sem lhe imputar o modelo ouvinte como forma à qual se adequar? Quando não há intérpretes em hospitais ou delegacias, por exemplo, não é a negação do próprio ser surdo que estamos realizando? Quando os alunos surdos (ou o único aluno surdo) incluídos em escolas regulares precisam aprender a língua majoritária (português) como se fosse sua primeira língua, às vezes até uma língua estrangeira, mas sua turma e a escola não têm nenhum contato efetivo com a Libras, podemos dizer tratar-se de inclusão? Educa-se sem conversa, sem contato, sem relação?

Um aluno surdo com o qual trabalho, ao ser perguntado se cachorro era ser vivo ou não durante uma aula, respondeu dizendo que não. À minha réplica, respondeu: “Cachorro não tem vida porque não sabe Libras”.
Sim, sua resposta incomoda, lembra que a língua nos constitui. Somos humanos, sujeitos, cidadãos na linguagem! E Libras é parte fundamental nisso para os surdos: é com ela que eles sonham, pensam, criam conceitos, sentem dor… Libras é vida, sobretudo para aqueles que experienciaram e têm experienciado, a vida toda, a privação linguística… Que este mês seja de celebração da vida, da Língua de Sinais, não só para os surdos, mas para todos nós!

Tiago Ribeiro é autor, com Aline Gomes, do “Leitura e escrita na educação de surdos”