Cultura

Tiago Barbosa faz show inspirado em memórias

Ao escolher as canções de seu show, Tiago Barbosa ouve mais o coração que a razão. Um dos grandes atores do musical brasileiro e há quatro anos como único protagonista estrangeiro da montagem espanhola de O Rei Leão, ele elaborou com cuidado o repertório do que vai apresentar em Estrada – Sonhos Não Envelhecem, que acontece apenas hoje, no Theatro Net SP. “Apresento ali parte da minha história, em três momentos diferentes”, explica. “É um resumo das minhas inquietações, da minha vida.”

Assim, quando interpretar Meu Guri (Chico Buarque), Barbosa vai se lembrar da mãe, Maria da Penha, que vendia balas nas ruas de São João do Meriti, no Rio. Ou, no momento em que surgirem os primeiros acordes de Travessia (Milton Nascimento/Fernando Brant), vai ser impossível para ele não se lembrar dos diversos desafios que marcaram seu destino – como vir de ônibus para São Paulo (graças a um amigo, que financiou a passagem), em 2012, para enfrentar o teste de O Rei Leão, aquele cujas imagens em vídeo mostrando a principal criadora do musical, Julie Taymor, caindo em lágrimas com sua apresentação viralizaram e se tornaram o documento de uma vitória.

“Por isso, o show é uma celebração – não das minhas conquistas, mas de até onde consegui chegar na minha carreira”, diz ele, que obteve uma breve licença da produção espanhola para vir a São Paulo. Rápida, mas suficiente para Barbosa se desdobrar em várias entrevistas e também para cuidar de todos os detalhes da apresentação. Não se trata de figura de retórica: ele cuidou realmente de todos os itens.

O repertório, por exemplo, terá, além de Chico e Milton, sucessos de Tim Maia e Jorge Ben Jor, além de composições autorais, clássicos da Disney e homenagens aos espetáculos dos quais participou. “Começo com uma música mais reflexiva, que conta um pouco sobre como foi minha infância e como poderia ter sido”, explica. “Parto da influência do meu pai, com um pouco de MPB, samba, e R&B. Depois, entro em um momento mais clássico, com orquestra, chego até a história do programa Ídolos, que é o momento onde preciso me entender e me aceitar como um cantor, até a fase em que descubro o universo do teatro musical e começo a trabalhar para a Disney, chegando até o momento em que estou, de compor o som que realmente gostaria de fazer e que por muito tempo optei por esconder. Isso é a estrada.”

Para percorrer todo esse caminho lírico, Barbosa vai ter a companhia de uma banda especialmente montada com nove músicos, além de três backing vocals e a participação de um coral. Convidados especiais também marcarão presença, como Thiago Machado. Para que o show não perca seu caráter intimista, o também ator Rodrigo Miallaret foi convidado para dividir a direção com Barbosa. A direção musical está a cargo de Jorge de Godoy e Gilberto Rodrigues, e a produção geral tem a assinatura de José Vinicius Toro, à frente da novíssima e já atuante LAB Cultural.

Se sempre foi perfeccionista, Tiago Barbosa foi obrigado a se superar quando chegou na Espanha, há 4 anos, para enfrentar o desafio de continuar vivendo Simba, em O Rei Leão. A tarefa não era fácil, pois, quando chegou, tornou-se um dos vários substitutos do papel. Apesar de conhecer bem o personagem, o idioma espanhol era um entrave. “Comecei como quarto substituto de Simba e, por mais que tentasse, não conseguia subir. Daí, percebi meu erro: eu falava em espanhol no teatro, mas em inglês nas ruas. Eu precisava me adaptar a esse povo, estar inserido na sociedade. E, também importante, tinha de engolir meu ego.”

Esforçou-se como pode, a ponto de não mais falar em português, para tornar o novo idioma mais fluente. Entregou-se aos ensaios e esteve pronto para se apresentar em qualquer uma das nove apresentações semanais que acontecem em Madri. Tamanho empenho logo rendeu frutos: no ano seguinte, foi oficialmente consagrado como o principal intérprete do musical. “Foi uma conquista pessoal: não tive nenhuma indicação e me convenci da minha importância, pois eu já não era mais o menino da favela.”

A provação influenciou até na sua visão do personagem. “Hoje, sou um Simba mais maduro. E, como sou o único estrangeiro entre os quatro intérpretes, tornei-me mais competitivo comigo mesmo. Não quero, nem posso errar.” O reconhecimento veio em terra espanhola: Barbosa recebeu duas indicações ao 12º Premios del Teatro Musical. Detalhe: o espetáculo está há oito anos em cartaz e numa teve nenhuma indicação.

ESTRADA – SONHOS NÃO ENVELHECEM

Theatro Net SP

Rua Olimpíadas, 360. Ingressos: R$ 100 / R$ 150. Hoje (27), 21h.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.