Cultura

Luz, câmera, portas abertas: o renascimento da Cinemateca Brasileira

Depois de quase dois anos fechada, a Cinemateca Brasileira reabre as portas em busca de incentivos para resgatar projetos de preservação do maior acervo audiovisual da América Latina

Crédito: Divulgação

NA PRATELEIRA Museu vivo: manutenção de filmes é mais complexa que a de obras como quadros e esculturas (Crédito: Divulgação)

Se fosse uma produção cinematográfica, a história da Cinemateca Brasileira nos últimos tempos seria um enredo híbrido de terror, filme-catástrofe e final feliz. Após quase dois anos fechada, período em que enfrentou um alagamento e dois incêndios que colocaram em risco o maior acervo audiovisual da América Latina, a instituição voltou a abrir as portas em São Paulo. A data escolhida para a reinauguração, sexta-feira 13, remete à programação escolhida pela Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), a nova responsável pela gestão do local: a mostra O Cinema sem Medo de Mojica, com filmes do ator e diretor José Mojica Marins, o Zé do Caixão.

1949 A instituição surgiu como Filmoteca do Museu de Arte Moderna (MAM)
40.000 títulos Acervo inclui telenovelas, conteúdo jornalístico e produções da Vera Cruz e Atlântida

“A formação de técnicos em restauração é uma área defasada no País que merece nossa atenção” Dora Mourão, diretora-executiva da Cinemateca (Crédito:Divulgação)

Além de obras pouco exibidas do nosso mestre do horror, o destaque da coleção é A Praga, média-metragem de 1980 restaurado por Eugenio Puppo e inédito no País. O produtor descobriu as latas de rolos Super-8 perdidas no escritório de Mojica em 2007, mas a produção permaneceu inacabada até 2020 por falta de recursos. Puppo editou os originais, filmou novas cenas e inseriu efeitos especiais. Sua única exibição até agora havia ocorrido no Exterior, no festival de Sitges, na Espanha, um dos maiores eventos do estilo no mundo. Em outra sessão, o público terá acesso a A Última Praga de Mojica, de 2021, curta-metragem que narra o processo de resgate da obra.

A reabertura da Cinemateca é um alento não apenas para o setor, mas para a sociedade brasileira. É uma vitória contra o descaso do governo federal, que chegou a enfrentar ação do Ministério Público Federal por abandono do local. Sua importância, afinal, ultrapassa as fronteiras do País: em 2020, o cineasta Martin Scorsese enviou uma carta ao colega brasileiro Walter Salles Jr., afirmando que estava “angustiado e incrédulo” com a suspensão da verba federal por Jair Bolsonaro. O americano é presidente da Film Foundation, instituição cujo programa World Cinema Project ajudou a restaurar o filme Limite (1931), de Mário Peixoto. Em 2021, a Federação Internacional de Arquivos e Filmes (FIAF) culpou a Secretearia Especial de Cultura pela situação precária. “É impossível não vincular os desastres que causaram graves danos às instalações e acervos da Cinemateca nos últimos anos à flagrante falta de apoio financeiro e institucional do governo brasileiro.”

NOVA GESTÃO Focos da Sociedade Amigos da Cinemateca: investimento na memória e em mostras nacionais, como a de Zé do Caixão (Crédito:Divulgação)

Dora Mourão, nova diretora-executiva, pretende investir na preservação do acervo, mas também promete cuidar da formação de técnicos em restauração. “Essa é uma área defasada no País que merece nossa atenção. A Cinemateca é um museu vivo e a manutenção do material audiovisual é muito mais complexa e específica que a de obras de arte como quadros e esculturas”, diz ela. Dora quer estimular também a difusão da produção nacional, investindo em mostras e sessões especiais: “Teremos programação para os cinéfilos, mas também para o público em geral.”

A Cinemateca, que conta hoje com o apoio do Instituto Cultural Vale, nasceu em 1949 como Filmoteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). Abriga 40 mil títulos, que incluem coleções dos estúdios Vera Cruz e Atlântida, além de milhares de horas de conteúdo jornalístico e de telenovelas, grande parte disponível ao público gratuitamente no Banco de Conteúdos Culturais (bcc.gov.br). A última cena dessa história ainda não foi escrita, mas o Brasil espera que a fase de terror na Cinemateca fique restrita aos filmes de Zé do Caixão.

Clássicos da cinemateca

A Dupla do Barulho (1953)
Estrelada por Grande Otelo e Oscarito, a popular comédia marca a estreia do diretor Carlos Manga, que se tornaria famoso mais tarde com as “chanchadas” da Atlântida

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O Cangaceiro (1953)
Inspirado na vida de Lampião, o filme da Vera Cruz foi a primeira produção nacional a ganhar o mundo: venceu o Festival Internacional de Cannes nas categorias Aventura e Trilha Sonora

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Limite (1931)
A obra-prima de Mário Peixoto é um dos primeiros filmes produzidos no País. Foi restaurado em parceria com o programa World Cinema Project, da Film Foundation, de Martin Scorsese

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