O Tesouro Nacional ampliou em 2026 a emissão de títulos públicos vinculados à taxa Selic, levando a participação desses papéis no financiamento da dívida pública aos maiores níveis registrados em cerca de duas décadas.
Dados preliminares mostram que os títulos pós-fixados ligados à taxa básica de juros representaram 57,3% das emissões realizadas em agosto. Em julho, essa participação havia alcançado 63,1%.
O movimento ocorre em um cenário de juros ainda elevados e maior volatilidade nos mercados doméstico e internacional. Atualmente, a Selic está em 14% ao ano, o que aumenta a procura dos investidores por papéis cuja remuneração acompanha a taxa básica de juros.
Com o avanço desses títulos, o Tesouro revisou o Plano Anual de Financiamento (PAF) de 2026, elevando a faixa esperada de participação dos papéis vinculados à Selic na Dívida Pública Federal.
Anteriormente, a previsão era que eles representassem entre 46% e 50% do estoque da dívida ao final do ano. Agora, o intervalo passou para 49% a 53%.
Por que os títulos ligados à Selic ganharam espaço?
Os títulos pós-fixados são considerados mais atraentes pelos investidores em momentos de incerteza porque sua remuneração acompanha as mudanças da taxa básica de juros.
Já títulos prefixados, nos quais a taxa de retorno é determinada no momento da compra, podem sofrer maior oscilação quando as expectativas sobre juros, inflação ou situação fiscal mudam.
Segundo o Tesouro, a persistência da volatilidade nos cenários nacional e internacional, incluindo as tensões geopolíticas, tornou o ambiente menos favorável à emissão de títulos prefixados de prazos mais longos.
Com isso, o governo passou a encontrar maior demanda pelos títulos pós-fixados.
A mudança também aparece na composição do estoque da dívida. Em julho, 51,1% da Dívida Pública Federal estava vinculada à Selic, ante 49,3% em junho.
O percentual já se aproxima de níveis observados no início dos anos 2000.
Qual o impacto para a dívida pública?
Apesar de facilitarem a captação de recursos em períodos de maior incerteza, os títulos vinculados à Selic aumentam a sensibilidade das contas públicas às decisões do Banco Central.
Isso acontece porque, quando a taxa básica de juros sobe, o custo de uma parcela maior da dívida também aumenta automaticamente.
Em contrapartida, uma eventual redução da Selic diminui gradualmente o custo desses papéis para o governo.
A maior concentração em títulos pós-fixados também reduz a previsibilidade sobre quanto o Tesouro terá de desembolsar no futuro, quando comparada à emissão de títulos prefixados.
O próprio Tesouro afirma que a mudança busca preservar a capacidade de financiamento do governo diante das condições atuais do mercado.
Dívida pública chega a R$ 9,29 trilhões
A Dívida Pública Federal atingiu R$ 9,289 trilhões em julho, alta de 0,22% em relação ao mês anterior.
A dívida mobiliária interna avançou 0,31%, chegando a R$ 8,949 trilhões, enquanto a dívida externa recuou 2,20%, para R$ 340,06 bilhões.
Somente a apropriação de juros acrescentou R$ 89,95 bilhões à dívida interna no período, efeito parcialmente compensado pelo resgate líquido de R$ 61,91 bilhões em títulos.
Apesar da alteração na composição dos papéis, o Tesouro manteve sua projeção para o estoque total da Dívida Pública Federal ao final de 2026, estimado entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões.
Também permanecem inalteradas as projeções para o prazo médio da dívida, entre 3,7 e 4,1 anos, e para a parcela de títulos com vencimento nos próximos 12 meses, estimada entre 18% e 22%.
Da IstoÉ