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Tensão entre Rússia e Turquia sobe de tom por ofensiva na Síria

Tensão entre Rússia e Turquia sobe de tom por ofensiva na Síria

O presidente turco Recep Tayyip Erdogan se dirige aos deputados de seu partido, Justiça e Desenvolvimento, na Grande Assembleia Nacional, em Ancara - AFP

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, anunciou nesta quarta-feira (19) uma ofensiva militar de forma “iminente” em Idlib, noroeste da Síria, mas a Rússia lançou uma advertência contra estas pretensões.

Sinal da extrema tensão na zona, Erdogan reiterou seu ultimato ao regime para que se retire antes do fim de fevereiro do leste de uma estratégica estrada e dos arredores dos postos de observação turco, em Idlib.

“A operação em Idlib é iminente”, disse Erdogan em um discurso no Parlamento.

“Estamos em contagem regressiva. São as últimas advertências”, insistiu.

De Moscou, porém, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, advertiu Erdogan de que “se trata de uma operação contra o poder legítimo da República síria e das Forças Armadas da República síria, o que seria, sem dúvida, o pior cenário”.

Estas ameaças acontecem no momento em que as conversas entre Ancara e Moscou, que apoia o governo Bashar al-Assad, não conseguiram reduzir a tensão na região de Idlib.

“Infelizmente, nem as conversas realizadas no nosso país e na Rússia, nem as negociações no terreno nos permitiram chegar ao resultado que desejamos”, condenou Erdogan.

“Estamos muito longe do ponto que queremos alcançar, é um fato. Mas as conversas (com os russos) continuarão”, acrescentou.

O emissário da ONU para a Síria alertou, nesta quarta-feira, o Conselho de Segurança das Nações Unidos para o “risco iminente de escalada”.

“Não posso informar de nenhum avanço para dar fim à violência no noroeste (sírio) ou retomar o processo político”, lamentou Pedersen em uma reunião mensal do conselho.

A Rússia se opôs nesta quarta-feira à adoção no Conselho de Segurança da ONU de uma declaração para pedir o fim das hostilidades e o respeito ao direito internacional humanitário no noroeste da Síria, impulsionada pela França, apontou o representante desse país, Nicolas de Rivière.

“A Rússia disse que não”, declarou de Rivière a jornalistas, depois de uma reunião muito tensa do conselho a portas fechadas. “Não há declaração”, confirmou seu homólogo belga, Marc Pecsteen de Buytswerve, presidente em exercício do Conselho.

Apoiadas pela aviação russa, as forças de Damasco realizam nas últimas semanas um duplo ataque para recuperar este último bastião rebelde e jihadista.

No início de fevereiro, as tensões aumentaram de várias maneiras quando os soldados turcos estacionados em Idlib no âmbito de um acordo entre Ancara e Moscou morreram em bombardeios sírios.

Em paralelo às advertências, a Turquia vem mobilizando há vários dias importantes reforços militares na região de Idlib.

“Fizemos todos os nossos preparativos para poder aplicar nossos próprios planos”, declarou Erdogan na quarta-feira.

“Estamos decididos a fazer de Idlib uma região segura para a Turquia e para a população local, a qualquer custo”, acrescentou.

– Êxodo em massa de civis –

Essas tensões também provocaram atritos entre Ancara e Moscou, que cooperam estreitamente na Síria desde 2016, apesar de seus interesses divergentes.

Em 2018, os dois países alcançaram um acordo em Sochi (sul da Rússia), no intuito de silenciar as armas.

A Turquia vê com maus olhos o avanço do regime em Idlib, temendo um novo fluxo de deslocados para seu território. Cerca de 3,7 milhões de sírios se refugiam nesta área desde 2011.

Após várias semanas de ofensiva do regime sírio, determinado a recuperar o controle de Idlib, a situação humanitária é catastrófica.

Segundo a ONU, cerca de 900.000 pessoas, a grande maioria mulheres e crianças, fugiram desde o início de dezembro pela ofensiva lançada pelo governo Assad e por Moscou na região de Idlib e seus arredores.

Em guerra desde 2011, o país nunca havia experimentado um êxodo desses em um período de tempo tão curto.

No total, o conflito sírio levou milhões de pessoas ao exílio e deixou mais de 380 mil mortos.

Em uma entrevista coletiva em Istambul, nesta quarta, uma coalizão de ONGs sírias, a SNA, pediu “ao mundo que desperte e detenha o massacre” em Idlib.

Segundo a SNA, “os acampamentos de refugiados estão lotados (…) e os civis não têm outra opção a não ser dormir ao ar livre”, apesar das baixas temperaturas do inverno.

As ONGs estimam em cerca de US$ 335 milhões a ajuda de urgência para atender às necessidades básicas dos deslocados refugiados perto da fronteira turca, amontoados aos milhares em acampamentos improvisados.

Segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), mais de 400 civis, incluindo 112 crianças, morreram desde que o regime e a aviação russa lançaram a ofensiva.

Muitas ONGs acusam o governo Assad e a Rússia de tomarem a população e infraestrutura civis como alvo.

Das 550 instalações sanitárias da região, apenas metade continua funcionando, lamentou ontem a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), os dois últimos hospitais operacionais no oeste da província de Aleppo, vizinha de Idlib, foram afetados pelos ataques.