Tenebrosa caricatura

Crédito: Ueslei Marcelino

(Crédito: Ueslei Marcelino)


Corpos já são empilhados em frigoríficos nas portas dos hospitais por falta de espaço. O sistema funerário não dá mais conta de atender ao ritmo frenético de enterros, hoje na casa de quase três mil diariamente, apenas de vítimas da Covid. Cemitérios abarrotados. UTIs colapsadas. A rede pública e privada sem leitos suficientes. Médicos e enfermeiros, na exaustão, não conseguindo esconder o desespero. No conjunto da ópera trágica, o País alcançou a ruptura sanitária. Refém da incompetência, irresponsabilidade e descaso federais, legou cenas dramáticas de milhões de famílias enlutadas, a pedir socorro sem resposta, enquanto um presidente que preza pela falta de escrúpulos, ensandecido pela sede de poder, tortura as evidências, trombeteia barbaridades horrorosas e deixa à deriva, sem projeto alternativo, sem sequer uma palavra de consolo ou piedade, sem vacinas suficientes, comandados de uma Nação inteira. O capitão do “vamos deixar de mimimi!”, do “vão chorar até quando?”, do “País de maricas”, do “saiam debaixo da cama”, do “não passa de uma gripezinha” solapa o bom senso e acaba de cruzar qualquer limite de decência. Até um suposto “suicida” ele foi capaz de exibir em redes sociais para arrancar dividendos políticos da furada tese contra o isolamento. Chegou a levantar suspeitas sobre a real quantidade de mortos, alegando tratar-se de números inflados para prejudicar a sua imagem e corrida eleitoral rumo às urnas em 2022. Pensa apenas naquilo! Repulsivo, ainda mais radicalmente mentiroso e incitador da baderna, ele tratou de sugerir o risco de convulsões sociais, em virtude das medidas restritivas, falando em invasões de supermercados, fogo nos ônibus, piquetes, paralisações e greves. Dava a senha para a anarquia, com o grito fanfarrão do “eu sou o garantidor da democracia”, como se estivesse a segurar uma boiada de agitadores prestes a tomar às ruas. Há de se perguntar: de qual democracia trata o presidente? Daquela na qual ele saúda torturadores, confraterniza com defensores do fechamento de poderes constituídos e sugere golpes? Sem papas na língua, Jair Messias Bolsonaro, em pessoa, voltou a insinuar um novo regime de exceção por essas bandas. “Seria fácil impor a ditadura no Brasil, bastando levantar a caneta”. O mito está louco por isso e deixou a ameaça no ar: “eu faço o que o povo quiser. Eu sou o chefe supremo das Forças Armadas. As Forças Armadas acompanham o que está acontecendo”. Que delírios autocráticos, afrontosos à Constituição, sem o menor rastro republicano ou de respeito às Leis, ainda serão necessários para interditar o fanático de Brasília? Aquele que hoje senta na cadeira do Planalto nem mereceria mais o título de chefe de Estado. É o “inominável”. Nada mais que um Messias das trevas, que condenou a população brasileira ao sofrimento lancinante, violou o decoro inerente ao cargo, quebrou os protocolos dignos de estadista e rompeu a fronteira da civilidade. Com claras intenções maquiavélicas, bradou contra as ações de governadores estaduais e de prefeitos – que tentam, a todo custo, conter a catástrofe, enquanto ele a assiste de camarote ou em passeios de Jet Ski. Classificou de maneira proposital, deliberada e errada os movimentos de “lockdown” como exemplos de estado de sítio. Na prática sabe: uma coisa não é, nem de perto, a outra, e nesse País, onde o bacana é desdenhar da doença e sabotar os esforços de controle da praga, estamos perdendo fragorosamente a batalha, dada a sua máxima culpa, péssimos conselhos e atos. É alarmante a incapacidade de sua figura. Na rabeira de bater 300 mil mortos, com os piores números e estatísticas do planeta, o Brasil vergou frente à pandemia. Mesmo assim, o presidente, que foi contra a máscara, contra a vacina, contra o isolamento, a favor de drogas miraculosas e sprays mágicos, não cansou de desdenhar da situação. Nos últimos dias, movido a pressões alheias a sua vontade, viu-se premido a substituir o ministro da Saúde. Não cedeu na teimosia descabida de desacatar a Ciência, mas resolveu mudar as peças do xadrez. O general de saída, Eduardo Pazuello, malgrado o festival de erros cometidos, foi bedel providencial dos delírios do capitão. Ousou, a bem da verdade, contrariar o chefe. Logo humilhado e repreendido publicamente pela tentativa. Quando, no início, articulou a encomenda de 46 milhões de doses da Coronavac tomou a bordoada: “Não vai comprar vacina chinesa do Doria não! Eu não quero e acabou!”. Destemperado, o presidente vangloria-se de reprimendas do tipo, mesmo depois voltando atrás, na maior desfaçatez. O recado moldou a postura medíocre e estabanada do intendente dali para frente. No esforço de paparicar o superior, Pazuello acelerou o acordo para uso da cloroquina, com a recomendação e aval da pasta em todas as fases de tratamento, mesmo sendo a droga comprovadamente ineficaz na luta contra a doença. O cúmulo dos absurdos a marcar a gestão do general aconteceu na dramática morte de pacientes em Manaus por asfixia, sem oxigênio. Nunca a crueldade do Estado alcançou tamanho disparate. E o mandatário da República teve, naturalmente, parcela considerável de culpa em cada um desses episódios. Sempre diz ser dele a caneta Bic e a tem usado para questões bem menos vitais e urgentes: despacha homenagens a aliados, com direito a medalhas e condecorações, cassa investigações de corrupção e manipula organismos federais para esconder malfeitos da família, mas, na hora de encomendar vacinas, por exemplo, diz que os laboratórios devem correr atrás, porque o Brasil é um grande mercado. O desprezo a oportunidades (inúmeras) de garantir doses de imunizantes, antecipadamente, a sabotagem ao distanciamento social e uma penca de outras insidiosas deliberações constituem crimes clamorosos desse inquilino do Planalto. Dito “mito”, ele está indo além do inimaginável, do bestial, do indecoroso. É repugnante assistir a seus espetáculos de loucuras, patetices, confusões mentais misturadas a fake news, falta de discernimento, presunção e narrativas beligerantes. São grotescas as manobras diversionistas, o recalque latente, a incapacidade crônica e as palavras de ordem tribais de quem não oferece o mínimo de patrimônio mental e equilíbrio para conduzir o País. Caberia discutir, de uma vez por todas, os problemas éticos de alguém com tamanho pendor ao desastre administrativo.

Podem-se aduzir diversos motivos para essa índole destrutiva. Aceitar e acatar os desígnios frutos dessas barbeiragens é, no entanto, outra história. Altamente representativo do casuísmo totalitário do mandatário é o ardil leguleio para impor suas vontades. Na base do “quem manda sou eu”, não escuta nem os conselhos dos aliados e assessores mais próximos. Dia desses, numa dura conversa com partidos que lhe dão base, escutou que precisava dar um cavalo de pau, uma guinada na atuação, passando a defender a vacina que sempre repudiou. O capitão cloroquina seria transmutado no capitão gotinha. Até topou. Ele e os filhos venderam a mensagem, via slogan, do “nossa arma agora é a vacina”. Na prática, não mudou um milímetro na forma de ser. Acompanha a pressão eleitoral, os índices de popularidade, pode até ir a uma fila tomar o imunizante para captar votos, mas não mexeu uma palha para tocar um programa nacional eficaz nesse sentido. Se dependesse de Bolsonaro, os brasileiros estariam sem vacina até hoje. Nove em cada dez vacinados recebem a Coronavac que ele sempre repudiou. O capitão não está nem aí, não é sua prioridade. Comporta-se como um ser inominável.

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