Cultura

Tempos modernos

Aproxima-se o centenário de um dos momentos mais importantes na formação de uma identidade nacional – a Semana de Arte Moderna de 1922. O País tem pouco a comemorar em decorrência do desdém com o qual o governo federal trata a cultura

Crédito: Divulgação

HISTÓRIA Grupo de modernistas, liderado por Mário de Andrade, na entrada do Hotel Terminus, em março de 1924: ruptura com as tradições (Crédito: Divulgação)

1. Francesco Pettinati
2. Flamínio Ferreira
3. René Thiollier
4. Couto de Barros
5. Manuel Bandeira
6. Sampaio Vidal
7. Paulo Prado
8. Graça Aranha
9. Manuel Villaboim
10. Gofredo da
Silva Teles
11. Mário de Andrade
12. Cândido
Mota Filho
13. Rubens Borba
de Moraes
14. Luís Aranha
15. Tácito de Almeida
16. Oswald de Andrade

Brasileiros, chegou a hora de realizar o Brasil”, declarou Mário de Andrade na abertura da Semana de Arte Moderna de 1922. A frase, versão artística do grito da independência, marcou a ruptura com o tradicionalismo e o nascimento de um novo jeito de pensar a cultura brasileira. Os “modernistas” não aceitariam mais a imposição conceitual do classicismo europeu. O grupo de intelectuais e artistas anunciava no Theatro Municipal, em São Paulo, que, a partir daquele momento, uma nova forma de se expressar poderia até engolir o que vinha de fora, mas regurgitaria arte tupiniquim.

Realizada entre 13 e 17 de fevereiro de 1922, a Semana de Arte Moderna nasceu de um contexto local, o centenário da Independência, mas também internacional. Na Europa, movimentos como o cubismo, o expressionismo, o surrealismo e o dadaísmo rompiam com os valores antigos da arte, permitindo obras revolucionárias e fora dos padrões. Foi o futurismo, porém, o grande inspirador da estética mostrada no Municipal. Nascido em 1909, com a publicação do “Manifesto Futurista” pelo poeta italiano Filippo Marinetti, o estilo abandonava os limites entre a arte e o design, assim como valorizava a velocidade e o desenvolvimento tecnológico. Nossos modernistas, que viviam em São Paulo os primeiros passos da industrialização do País, incorporaram esses elementos.

Apesar do maior número de escritores, as artes plásticas foram a principal base do movimento. Curiosamente, a pintora Tarsila do Amaral não estava no evento porque havia viajado a Paris. Mesmo assim, a artista, que era casada com o escritor Oswald de Andrade, outro ícone do grupo, é considerada um dos seus símbolos. Tarsilinha, sobrinha-neta de Tarsila, acredita que isso ocorre porque o Modernismo mostrou pela primeira vez o protagonismo das mulheres. “Tivemos Tarsila e Anita Malfatti, hoje temos Adriana Varejão e Beatriz Milhazes.”, afirma. “Quando Tarsila voltou de Paris, suas telas mostravam exatamente o que os modernistas queriam: as novas técnicas das vanguardas europeias, mas com temas que valorizavam o Brasil.” Segundo Tarsilinha, cada geração interpreta o movimento à sua maneira. “O Tropicalismo, por exemplo, foi influenciado pela antropofagia de Oswald de Andrade. Precisamos renovar o espírito dos modernistas, resgatar o orgulho que eles tinham do País.”

MINIMALISTA Cartaz criado para a Semana de 22: obra de Di Cavalcanti

“A Semana são diversas Semanas”, afirma Giselle Beiguelman, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP). “A Semana foi importante para o momento, mas também pelo que veio depois. Ela se renova a cada data importante. Agora, por exemplo, provoca um pensamento crítico relativo a grupos que foram mitificados pela Semana, como os indígenas. O próprio ‘Macunaíma’ está sendo contestado pela primeira vez.” Giselle coordena o projeto “Demonumenta”, estudo crítico que analisa obras arquitetônicas produzidas na época. “É preciso repensar continuamente o Brasil. Isso inclui desidealizar a Semana para entendermos como ela não foi um evento isolado, mas um processo construído ao longo do tempo.”

Analisar a Semana como um fenômeno que influenciou toda a produção artística no País, no entanto, não é unanimidade. O escritor Silviano Santiago acredita que ela criou um espírito de vanguarda que correspondia a uma demanda municipal de industrialização urbana no Brasil, em plena República Velha, e que somente mais tarde se nacionalizou. Com o correr dos anos, segundo ele, a Semana se tornou um vetor privilegiado da cultura brasileira. “A comemoração é merecida, mas também simboliza a pobreza da pesquisa cultural e acadêmica no Brasil. Espero que o centenário estimule mais estudos sobre o que havia ao redor, outros movimentos paralelos e simultâneos que ocorriam em outras partes do País.” Santiago acredita que um evento com esse perfil não fazia sentido no Rio de Janeiro porque a então capital do País era mais cosmopolita que a metrópole paulista. “O que aconteceu foi uma Semana de Arte Moderna de São Paulo, fruto de um certo ressentimento provinciano.” Segundo Santiago, a cultura brasileira atualmente luta contra o atraso da visão de mundo predominante em Brasília. “Voltamos a ser exportadores de produtos agrícolas, como fazíamos com o pau-brasil no passado. Um movimento cultural que surgisse hoje para se opor a isso teria de nascer de uma visão aberta, pluralista e democrática do mundo, que é o contrário do que há no governo federal.”

VICTOR BRECHERET Caldeirão modernista: o artista italiano tinha formação europeia, mas prezava a inspiração brasileira (Crédito:Divulgação)

Descaso federal

Com a aproximação de uma data tão importante para a cultura, enfrentamos um desafio: como reconstruir as políticas públicas para o setor no ambiente pós-Bolsonaro? A relação do governo federal com a área é de confronto desde a posse do presidente. Uma de suas primeiras medidas foi extinguir o Ministério da Cultura, criado em 1953 em uma pasta conjunta (Educação e Cultura) e tornada ministério independente em 1985. Hoje, é apenas uma discreta secretaria vinculada ao Ministério do Turismo, comandado pelo empresário Gilson Machado.

Não é apenas o tamanho da pasta que diminuiu, mas sua relevância. Em seus 34 meses de existência, a Secretaria Especial de Cultura acumula apenas um histórico lamentável: o primeiro a ocupá-la, Roberto Alvim, foi afastado após divulgar um vídeo com referências nazistas. Foi substituído pela atriz Regina Duarte, que ficou pouco tempo no cargo e saiu sem deixar saudade – nos dois meses em que ocupou o gabinete, colecionou mais humilhações que ações. Em seu lugar, foi nomeado o inexpressivo ator Mário Frias, que, desde então, tem sido mais conhecido pelo comportamento errático – e por andar armado – que pelos projetos na área. O descaso virou tema de um estudo realizado pela Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados. O relatório traz críticas que vão desde a extinção do ministério ao desmonte da Lei Rouanet. Cita ainda o atraso na execução de projetos da Ancine, a ideologização da Fundação Cultural Palmares e o abandono das instalações do setor, referência ao incêndio na Cinemateca, em julho.

OPERÁRIOS Tarsila do Amaral, uma das artistas-símbolo do modernismo:
técnicas da vanguarda europeia, mas com temas que valorizavam o Brasil (Crédito:Divulgação)

A visão é compartilhada por artistas. Para a escritora Marina Colasanti, há um desmonte intencional da cultura. “Bolsonaro nunca leu um livro, nunca foi a um museu, despreza a cultura porque nunca a absorveu. Esse cenário só vai mudar pela educação. É a única maneira de nivelar a diferença social e consertar essa situação alarmante.”

Lúcia Murat, a mais prolífica cineasta latino-americana, com 14 longas no currículo, sofre com a situação, mas mantém a esperança. “Nem na época de Fernando Collor, que acabou com a Embrafilme, vivíamos um momento tão difícil. Todos os instrumentos criados para fomentar a cultura foram suspensos. Destruir é sempre mais fácil, mas acredito que o cinema brasileiro será forte e irá sobreviver.”

Espero que o centenário da Semana estimule estudos sobre o que havia ao redor, outros movimentos paralelos e simultâneos” Silviano Santiago, escritor

Caminhos para a arte

Com a ausência federal, estados e municípios assumiram o protagonismo nas comemorações da Semana de 22. Em São Paulo, a Secretaria Municipal de Cultura lançou o “Modernismo 22+100”, programação intensa de eventos que inclui uma série de debates no Youtube, com participação de artistas e personalidades. Já o governo de São Paulo anunciou a “Agenda Tarsila”, calendário com mais de 100 eventos até dezembro de 2022. “Uma data dessa importância precisa ser celebrada ao longo de um período significativo, suficiente para que muitos eventos aconteçam”, afirmou o secretário de Cultura e Economia Criativa do Estado, Sérgio Sá Leitão. Entre os destaques está a programação da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), cuja programação em 2022 terá 122 obras em homenagem aos modernistas – inclusive a retrospectiva “Viva Villa”, em homenagem a Heitor Villa-Lobos.

Qual seria o caminho, então, para a arte brasileira? Paula Alzugaray, curadora e crítica de arte, acredita que é preciso rever a Semana de 22 à luz das transformações políticas, teóricas e estéticas que o Brasil atravessou nesse século. “Um novo modernismo só seria possível através do filtro do fragmento e da diversidade. Um movimento mais plural, para mostrar que não há nada de plano, definitivo ou excludente, mas uma variedade de vozes. Uma semana de arte hoje não poderia ser reduzida a apenas uma semana, nem a uma só região.” Como disse Mário de Andrade, “o passado é para refletir, não para repetir”. Cem anos depois, a ruptura idealizada pelos modernistas ainda mexe com a cultura brasileira. Resta lutarmos para mantê-la viva.