Edição nº2548 19/10 Ver edições anteriores

Temos um vencedor

Caso nos dedicássemos ao exercício de declinar aqui quem errou no diagnóstico e na maneira de encarar a atual corrida eleitoral, excederíamos com folga os limites desse artigo. Uma faina tão laboriosa, quanto infrutífera, diria. A recíproca não é verdadeira. Se houve alguém certeiro, caprichoso no vaticínio, e com mais de duas décadas de antecedência, foi o historiador e crítico social americano, Christopher Lasch. Poucos compreenderam o zeitgeist (o “espírito do tempo”) com assombrosa antecedência como Lasch na obra “A Rebelião das Elites e a Traição da Democracia”, lançada em 1994.

Às vésperas da eleição de Donald Trump nos EUA, em 2016, a historiadora da Universidade de Harvard e escritora da “The New Yorker”, Jill Lepore, recomendou o livro de Lasch ao tentar explicar os eventos — para muitos estupefacientes — daqueles dias. Convém recorrer ao crítico social novamente, à medida que nos aproximamos do escrutínio das urnas por aqui. Em linhas gerais, a obra revela como “a revolta das elites” transformou o funcionamento da nossa sociedade democrática. Para pior. Ao manifestar suas preocupações com as divisões sociais, o populismo, o multiculturalismo, a educação, a mídia, o papel da religião e da cultura, Lasch já antecipava que as elites, cada vez mais incapazes de conversar com pessoas comuns em sua linguagem igualmente comum, perderam o pulso da opinião popular — e se distanciaram dela. Por elite, na concepção de Lasch, entende-se grupos situados no topo da hierarquia social, que controlam o fluxo internacional do dinheiro e da informação, presidem fundações filantrópicas e instituições de ensino, comandam os instrumentos de produção cultural e impõem os termos do debate público.

Ao remontar ao clássico “A Rebelião das Massas”, de Ortega y Gasset, Lasch dizia, já na década de 1990, que as massas perderam o “interesse pela revolução”. “Não só. Os instintos políticos das massas são declaradamente mais conservadores do que os de seus autodesignados porta-vozes e pseudolibertadores. São a classe trabalhadora e a classe média baixa que apóiam as restrições ao aborto, apegam-se ao modelo familiar pai e mãe como fonte de estabilidade, resistem às ações afirmativas e outras aventuras de engenharia social de larga escala”. Qualquer semelhança com os dias atuais, não é coincidência.

A preocupação do autor é com o futuro da democracia. Para o historiador, a elite americana, cada vez mais distante, incapaz de reconhecer, aceitar e orientar a sociedade, e mais interessada em buscar as benesses da aristocracia, sem as responsabilidades dela, deu de ombros aos princípios democráticos. Na avaliação de Lasch, para existir uma democracia robusta é necessário uma ética mais vigorosa do que a tolerância. “A tolerância é apenas o ponto de partida da democracia, não o destino. A democracia está sendo ameaçada mais seriamente pela indiferença do que pela intolerância”. Bingo!

 


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