Temores de um general

Crédito: Caio de Biasi

(Crédito: Caio de Biasi)

Eduardo Pazuello, o general três estrelas e ex-ministro da Saúde, tem medo. E o governo também. Acuado pelas evidências e provas indiscutíveis, teria de partir para as divagações na sessão do Senado à qual deliberadamente faltou — alegando suspeita de nova contaminação pela Covid, para o escárnio geral, que entendeu como pouco crível a desculpa. Pazuello, que teme a CPI, é o bedel da Corte para deleite bolsonarista. Não iria escapar do aperto inclemente dos congressistas, opositores ou não, para confessar os conhecidos erros. Seu “treino” no final de semana anterior à audiência marcada, com assessores do Planalto que tentavam lhe municiar com algum verniz de credibilidade e argumentos para as lorotas a serem contadas, foi classificado como nada menos que um desastre. Pazuello não sabe se expressar de maneira convincente. Muito menos passa uma narrativa minimamente crível quanto às barbeiragens em série que protagonizou a mando do chefe. O ex-ministro não tem mesmo como explicar a gritante irresponsabilidade cometida no episódio da falta de oxigênio no Amazonas, levando inúmeras pessoas à morte por asfixia. Não sabe como justificar a recomendação expressa, e indevida, do uso, na marra, de um suposto tratamento precoce baseado em drogas sem eficácia. E como se defender do corte de recursos e fechamento de UTIs do SUS, justamente quando o País mais necessitava? Foram tantas e tão assombrosas as decisões e o descaso que o seu testemunho serviria apenas e tão somente para despertar ainda mais a ira de quem clama por justiça. Pazuello não foi um ministro da Saúde. Não na exata dimensão do cargo. Muito menos o “mestre da logística” que o governo propagandeava. Esteve perfeito na condição de pau-mandado, fazendo jus ao vocativo que lançou do “um manda, outro obedece”, referindo-se ao presidente que a tudo controla. Retrato irretocável da irresponsabilidade federal — essa assumida com alto grau de periculosidade nos tempos tenebrosos de pandemia —, o ex-ministro fardado incorporou como tática de ação as propaladas mentiras, falta de planejamento, desprezo e despreparo habituais entre aqueles que hoje ocupam o poder. Rechaçou negociações com laboratórios, criou calendários fictícios de vacinação (que tiveram de ser revistos seguidamente), vendeu o retrato de uma estratégia perfeita de combate a pandemia, sem resultado efetivo e que, na verdade, nunca teve qualquer sustentação na ciência ou fundamentos práticos. Mostrou-se, na mais benevolente hipótese, um intendente de despreparo crônico, preferindo apostar nas loucas ordens superiores a executar o certo. Não realizou nada de razoável, absolutamente nada, digno de registro.

Pazuello, na curta passagem pelo cargo, esteve tão desorientado sobre o que fazer, quando fazer e como, que foi capaz de deixar apodrecer, com vencimento de prazo de validade, inutilizados irremediavelmente, milhares de kits de exames preventivos, colocando o Brasil na triste condição dos piores dentre as nações que menos realizaram testagem no mundo. Em Pazuello está espelhada a imagem da tragédia coletiva que castiga implacavelmente o País. E, talvez, para não refletir em praça pública a sua conhecida imprudência, incontornável por argumentos, Pazuello fugiu da CPI. Deu um “bypass”, na base da desculpa. Que, de maneira alguma, não pegou bem. Afinal, o militar que passeava serelepe, dias atrás, em um shopping de Manaus, sem máscara ou qualquer receio de contaminação pela doença, não poderia ser o mesmo tão zeloso, a ponto de não participar de uma acareação, temendo contagiar os senhores senadores presentes ao esperado confronto. Não era o mesmo Pazuello que deu mostras caudalosas de desrespeito a medidas sanitárias preventivas enquanto esteve no posto. Até as pedras que cercam o Congresso sabem que a súbita conversão do general a uma postura, digamos, mais responsável de prevenção à ameaça de transmissão não combina com o seu perfil. Ele o fez, naturalmente, como alegação para fugir da cena, e com a benção do Planalto — diga-se. Curioso, nesse contexto, é lembrar a fala do próprio Bolsonaro, que classificava de “frouxos” e “maricas” aqueles detentores de alguma preocupação ou receio sobre a doença e seus efeitos. Em última análise, por essa via de entendimento, ao respeitar medidas restritivas de contenção da pandemia, Pazuello poderia ser assim enquadrado nos pejorativos epítetos do capitão. Não tem jeito: se ficar o bicho come, se correr o bicho pega. Pazuello correu, na pele da vestal prudente, ciosa contra a Covid-19, mas seu retrato segue como o de ponta de lança de Bolsonaro nas piores práticas — aquele que preferiu não agir quando as filas de caixões passaram a abarrotar os cemitérios, aquele que fomentou uma falsa dicotomia entre saúde e economia para repelir medidas amargas, que profanou o uso de máscaras e vacinas. Tudo que havia a dizer para expiar seus pecados, Pazuello se eximiu de fazê-lo. Furtou-se do constrangimento, mas não por muito tempo. A CPI vai aguardá-lo, faminta. Conta os dias para ouvi-lo. Sessão remarcada para o próximo 19 de maio. Não há de ser nada algumas semanas a mais ou a menos. Para o general, o encontro com a verdade pode estar inserido na lista dos piores pesadelos. Decerto, talvez seja um horror testemunhar sem saber como se justificar. Não haverá afagos. Apenas cobranças, dúvidas, questionamentos. De um País inteiro. Pazuello foi o coveiro, atendendo aos anseios do dono do cemitério, que mandou enterrar mais de 400 mil. E daí?


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