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Entrevista

Antonio Lavareda

Temer deve assumir as rédeas do País sem complexo de vice

Isadora Brant/Folhapress

Temer deve assumir as rédeas do País sem complexo de vice

Para cientista político, peemedebista precisa executar uma agenda de reformas e reverter a tendência de desemprego para recuperar a economia e reanimar a sociedade

Fabíola Perez (fabiola.perez@istoe.com.br)
Edição 13/05/2016 - nº 2423

Após atravessar uma das maiores crises de sua história, o Brasil deu início ao seu processo de mudança com o afastamento da presidente Dilma Rousseff, decidido pelo Senado na semana passada. Para o cientista político e especialista em pesquisas eleitorais Antonio Lavareda, o impeachment marca o encerramento de um ciclo importante. “Mas esse é só o primeiro passo. Para avançar, ainda dependemos do desempenho do governo Temer”, diz. Os desafios a serem enfrentados pelo novo presidente, porém, não serão simples. E ele terá pouco tempo para mostrar resultados de impacto. Ao mercado, o peemedebista deverá assumir um compromisso com a disciplina fiscal. No Congresso, terá de pavimentar uma maioria de apoio parlamentar para recuperar a governabilidade. E precisará afastar com urgência a tendência de desemprego crescente, a fim de acalmar a sociedade. O cientista político afirma também que, apesar do sentimento de frustração social, o saldo desse processo é o aumento da participação da população no processo político. “Nunca se debateu tanto política como nos últimos tempos e essa ansiedade produz cidadãos mais engajados”, diz. No entanto, para um avanço real, Lavareda propõe a reforma do sistema eleitoral, que considera fragmentado e repleto de vícios. Para o cientista político, Temer deve colocar a reforma política no topo da lista de prioridades.

ISTOÉ – Como o sr. vislumbra um governo Michel Temer?

Antonio Lavareda – Ele tem dois caminhos: ou corresponde à expectativa da sociedade, assume as rédeas do País sem complexo de vice, faz as reformas necessárias e rompe  com o presidencialismo de cooptação, ocupando assim um lugar na história, ou patina na política tradicional, flutuando como substituto acidental entre as bandas medíocres de avaliação da sociedade.

ISTOÉ – Quais são os desafios e as prioridades do novo presidente?

Lavareda – Já na largada ele precisa mostrar aos agentes econômicos um forte compromisso com a disciplina fiscal, pulso firme na administração da previdência social, que é a principal fonte de despesas do governo, e trazer a inflação para o centro da meta. No Congresso, através dos ministérios e por meio de seu programa de governo, tem de solidificar a maioria para tomar o pulso da governabilidade. Ele também deve implementar uma agenda de reformas no curto prazo e reverter o quadro de tendência de desemprego. Temer tem de mostrar à sociedade que possui condições de governar, para que não ocorra o que ocorreu no governo Dilma: a perda progressiva de credibilidade e a deterioração do governo. Só assim ele conseguirá dar passos decisivos para a recuperação do País.

ISTOÉ – Recentemente, Michel Temer anunciou que cortaria ao menos dez ministérios, reestruturando-os. Como o sr. vê essa decisão?

Lavareda – É um importante aceno para a sociedade e para o mercado. À primeira, significa passos na direção de coibir o desperdício. Para o segundo, simboliza o enxugamento da máquina pública. Num país com esse número de ministérios como o Brasil é impossível que o presidente tenha uma rotina regular de interlocução com os ministros. Muitos nomes anunciados por Temer mostram que ele fez uma aposta na experiência. O novo presidente está compondo seus ministérios com quadros de ex-ministros e ex-governadores. Isso permite a ele apresentar resultados mais rapidamente. Com a pressão por resultados, ele terá praticamente 90 dias para imprimir marcas fortes.

ISTOÉ – Economistas preveem que um governo Temer oferecerá certa estabilidade ao mercado. Como o sr. vê os indicadores econômicos nos próximos meses?

Lavareda – A escolha do Henrique Meirelles funcionou como um “rivotril” para o mercado. Ele representa um fator de administração e ponderação da ansiedade. Sua experiência anterior no Banco Central e no enfrentamento da crise no ano de 2003 explica o otimismo. Apesar das turbulências, é bom lembrar que uma pesquisa do fim do ano passado revelou que 37% dos brasileiros acreditam que o Brasil tem jeito e é capaz de enfrentar seus problemas. O novo presidente tem de ir ao encontro desse otimismo latente entre os brasileiros. Esse é um capital subjetivo que o governo Temer contará.

ISTOÉ – Como o sr. vislumbra o quadro político para as eleições presidenciais de 2018?

Lavareda – Depende do governo Temer, do êxito relativo, de eventuais dificuldades. Essas são variáveis importantes. Une-se a isso a reação do País à crise econômica. Além disso, a operação Lava Jato poderá comprometer futuros candidatos. As pesquisas feitas até o momento mostram muito mais uma perspectiva sobre o passado do que em relação ao futuro. E se esquecem de ponderar que todos os candidatos que conhecemos têm alto índice de rejeição.

ISTOÉ – A operação Lava Jato deve perder forças com o impeachment?

Lavareda – Pela formação de jurista, pela sensibilidade política e pelo bom senso, Michel Temer deverá se esforçar para preservar a operação Lava Jato. Não acredito que em seu governo venham a ocorrer tentativas de limitação dos agentes da operação.  Ao contrário, o novo presidente vai ter todo o cuidado de anunciar que irá preservar e prestigiar a operação.

ISTOÉ – Em menos de 25 anos, o Brasil teve dois presidentes que sofreram impeachment. O que isso simboliza?

Lavareda – São processos diferentes, mas com similaridades. No caso do ex-presidente Fernando Collor, sua eleição foi a expressão de uma crise de representação que ocorreu na Nova República. Os partidos políticos que dominavam a cena ficaram inviabilizados. Abriu-se espaço, então, para uma força antissistema, com o candidato Fernando Collor.  Com isso, ele ganhou a eleição e fez uma aventura econômica, que não surtiu resultado, e gerou grande indignação na sociedade. Apesar de Collor ter se tornado uma força política construída apenas de forma circunstancial, o impeachment dele e de Dilma simbolizam a máxima insatisfação da população com a má condução da política econômica e com a corrupção.

ISTOÉ – Como o sr. avalia os efeitos dessa crise política e institucional no futuro no País?

Lavareda – O PT tem grande responsabilidade pelo descalabro da economia do País: uma situação de déficit fiscal expressivo, desemprego recorde e inflação descontrolada. É uma década perdida para o Brasil. Só não será mais grave se algumas medidas forem adotadas pelo novo governo. Como é possível que se cometa tantas ilicitudes em tão pouco tempo, como ocorreu no governo de Dilma Rousseff? Até hoje, em termos de presidentes eleitos, tivemos quatro chefes do Executivo e dois sofreram impeachment, ou seja, 50% não terminaram mandatos. É um quadro que deve levar o País a refletir sobre o presidencialismo que temos.

ISTOÉ – Que consequências esse processo de mudanças trará para a população brasileira?

Lavareda – O economista americano Douglass North, prêmio Nobel de 1993, dizia que o desenvolvimento de um país depende essencialmente de suas instituições políticas e econômicas. E nós temos problemas com as nossas instituições. Ele dizia que o Brasil havia sido assaltado por grupos de interesses que se aproveitaram do Estado em seu benefício. Temos que mudar diversas instituições de Estado. Uma delas é o sistema eleitoral que escolhe deputados federais, estaduais e vereadores. É um sistema repleto de vícios, que só existe no Brasil e produz a representação parlamentar mais fragmentada do mundo. Isso dificulta a governabilidade e induz à corrupção.

ISTOÉ – O segundo mandato da presidente Dilma coloca em xeque o legado social do PT?

Lavareda – Do ponto de vista efetivo, esse mandato não começou. Há um período Dilma que foi absolutamente negativo para a memória do PT. Isso vai contribuir para que o partido não consiga alcançar nas urnas o resultado do passado. O PT não terá expressividade nas disputas próximas por, pelo menos, dois ciclos eleitorais. Sobre o legado social, o programa Bolsa Família vai perdurar associado ao partido. Mas essa memória vai conviver com o descontrole da inflação ao final do primeiro governo Dilma, do desemprego, da falência das contas públicas, da desorganização do Estado e de episódios inimagináveis no campo dos escândalos. O Petrolão já ficou para a história como o maior escândalo de todos os tempos.

ISTOÉ – Como o PT sai desse processo de desgaste? Que tipo de representatividade terá o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a partir desse momento?

Lavareda – O PT continuará como uma legenda importante de centro esquerda. É um partido que tem enraizamento social. Porém, nenhum partido resiste ao volume de escândalos revelados. O PT será penalizado nas urnas. Provavelmente encolherá nas eleições deste ano e no pleito de 2018. Lula continuará sendo a principal liderança do partido. Ele não terá penetração para ganhar uma eleição presidencial, mas tem força para ser um player importante. Se for preso, a legenda precisará lançar mão de novos quadros para se renovar.

ISTOÉ – Como o sr. vê a judicialização da política, que se mostrou explícita nas diversas vezes em que o STF e outras instâncias do judiciário foram acionados?

Lavareda – Por um lado, no contexto de enfraquecimento do Poder Legislativo, que está ultra-fragmentado e em conflito com um Executivo sitiado pela crise e pelas denúncias da operação Lava Jato, o Judiciário tinha de assumir naturalmente o papel de poder moderador. Por outro lado, há uma tendência geral definida pelo ministro Ricardo Lewandowski de que “o século 19 foi do Legislativo, o século 20 do Executivo e o 21 do Judiciário.” E essa ponderação se confirma.

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