“Telas em crianças” impactam desenvolvimento e geram atrasos em bebês

Estudo e especialistas alertam para os efeitos nocivos do uso precoce de dispositivos eletrônicos nos primeiros anos de vida

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Foto: Imagem ilustrativa

O uso excessivo de telas nos primeiros anos de vida impacta negativamente o desenvolvimento infantil, substituindo interações e brincadeiras essenciais, segundo uma revisão sistemática liderada por pesquisadores da Inglaterra. A pesquisa, publicada em junho, associa a exposição precoce a atrasos na linguagem, desenvolvimento cognitivo e motor, conforme alertam especialistas e a Sociedade Brasileira de Pediatria.

  • Telas em crianças: O uso frequente e rotineiro de dispositivos eletrônicos nos primeiros mil dias de vida está associado a múltiplos atrasos no desenvolvimento.
  • Impactos diversos: Prejuízos incluem problemas de linguagem, cognição, motor, sono, visão, obesidade, neurodesenvolvimento e dificuldades sociais.
  • Recomendação: Especialistas e a Sociedade Brasileira de Pediatria recomendam evitar qualquer contato com tecnologias para crianças pequenas, que é uma fase crítica de desenvolvimento.

A análise compilou estudos sobre os efeitos da exposição precoce a dispositivos eletrônicos. Os trabalhos apontam que o uso frequente e rotineiro nos primeiros mil dias de vida (ou seja, os primeiros dois anos) está associado a atrasos na linguagem, no desenvolvimento cognitivo e motor, além de pior desempenho acadêmico, alterações do sono, obesidade, problemas de visão e dificuldades no desenvolvimento social.

Há também problemas de neurodesenvolvimento, com aumento de sintomas similares aos de transtornos do espectro autista, já que o uso passivo reduz a interação com cuidadores e pares, algo essencial para o desenvolvimento social. Isso sem falar no aumento da obesidade, de problemas de sono e de visão.

Quais os riscos do uso precoce de telas?

“A revisão é relevante porque consegue olhar para esse fenômeno de forma mais completa. A tela deixou de ser vista apenas como um problema de tempo de exposição. A pergunta é: o que ela está substituindo?”, indaga o psiquiatra Thiago Pedrosa, especialista em infância e adolescência do Espaço Einstein de Bem-Estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita. “E não se trata de um comportamento isolado, mas de um fenômeno cultural.”

De fato, os números são alarmantes: o uso nessa faixa etária está profundamente enraizado na rotina, com mais da metade das crianças tendo acesso a telas por volta dos 12 meses, e mais de um terço aos 6 meses. Aos dois anos, praticamente todas têm contato diário, excedendo os limites recomendados, com 9,5% chegando a passar quatro horas por dia nos dispositivos e 20% sem supervisão dos pais.

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda evitar a exposição nessa faixa etária. “Esse período é crítico para o desenvolvimento, ele é diferente dos demais por ser muito acelerado: o bebê sai de um estado em que não fala, não anda, não gesticula, para uma criança de dois anos que fala e caminha”, analisa Pedrosa. “É nessa etapa também que ocorrem a formação do vínculo, o estilo de apego, a aprendizagem da regulação emocional, o desenvolvimento motor.”

Além de oferecerem excesso de estímulos, as telas reduzem a interação física e a exposição dos pequenos a falas, gestos e expressões faciais dos cuidadores. “Os bebês aprendem por meio da repetição de experiências, ao observar a face dos pais, ao imitar gestos”, relata Pedrosa. Para aprender a regulação emocional, por exemplo, é preciso desenvolver linguagem e atenção, coisas que os dispositivos não proporcionam. “O excesso de telas os priva de experiências fundadoras do comportamento e do desenvolvimento, é como se modificasse essa trajetória.”

Como pais e cuidadores influenciam?

Os hábitos de pais e cuidadores influenciam essa exposição. Sobrecarregados ou estressados com as demandas do dia a dia, muitos recorrem a tablets, TV e celular para substituir funções de suporte ou supervisão. No entanto, a ciência ainda não sabe se os prejuízos são irreversíveis. “Os achados sugerem que a exposição precoce pode gerar problemas no futuro, mas essa é uma pergunta que gostaríamos de ver respondida”, pondera o psiquiatra.

O estudo também não responde o que seria um limite seguro. “Sabe-se que nem toda a exposição tem o mesmo impacto. Os autores avaliaram um padrão de uso frequente, prolongado e rotineiro, e não episódios ocasionais. Não sabemos a diferença entre uma criança brincando na sala com a família com a TV ligada, em que ela não é o principal estímulo, e o uso de algum dispositivo cada vez que chora ou anda de carro. Ou qual seria a diferença entre uma videochamada e assistir ao YouTube”, pontua Thiago Pedrosa.

Intervenções práticas podem reduzir danos

É fato que vivemos numa sociedade onde as telas estão em todos os lugares, mas é preciso evitar a exposição direta, regular e intencional. “A principal mensagem do estudo é entender a função que a tela exerce e o que ela substitui. Não pode ser a forma de entreter, de fazer comer, de ajudar a criança a se regular emocionalmente”, frisa o médico do Einstein.

Na prática, reduzir o tempo de exposição exige uma abordagem individualizada e vai muito além de simplesmente proibir o uso. A orientação isolada costuma ser insuficiente. “Não basta dizer aos pais “não ofereçam telas””, observa Pedrosa. “Primeiro, é preciso entender para que a tela está sendo usada: é para aprender? Em quais situações da rotina ela aparece, o que ela substitui ou ajuda?”

Também não é necessário preencher esse tempo com atividades estruturadas. Para o médico, o desenvolvimento infantil acontece justamente nas experiências cotidianas e na exploração do ambiente. “O bebê não precisa de entretenimento o tempo todo, ele aprende muito olhando o ambiente.”

É possível, por exemplo, colocá-lo em uma cadeira enquanto os pais preparam uma refeição, deixar panelas ao alcance da mão para que possa brincar, tornar o ambiente seguro para que engatinhe e explore os espaços. Oferecer objetos com diferentes texturas, mostrar a paisagem pela janela, colocar música, deixar livrinhos à mão para que possa folhear e permitir que observe as pessoas ao redor são outras boas práticas.

A mudança de hábitos também passa pelos próprios adultos. Os pais devem refletir sobre a forma como utilizam as telas no dia a dia e o exemplo que oferecem aos filhos. “Precisam olhar para si e se questionar se conseguem fazer as refeições sem celular, se têm um tempo exclusivo para brincar com os filhos, se não interrompem interações com a criança para responder mensagens, por exemplo”, observa Thiago Pedrosa.

E lembre-se: o tédio faz parte do desenvolvimento infantil. “Esses momentos permitem que a criança invente brincadeiras, solte a criatividade, aprenda a lidar com frustrações, explore o próprio corpo e aprenda a se autorregular”, diz o psiquiatra do Einstein.

Da IstoÉ com Agência Einstein.