Tecnologia revela insultos, amores e combates de gladiadores em grafites de Pompeia

NÁPOLES, 19 JAN (ANSA) – Insultos entre gladiadores, histórias de amor entre escravos, votos de felicidade e referências ao cotidiano da Roma Antiga ganham nova vida graças a uma tecnologia inovadora que desvenda o significado de grafites antes misteriosos ou ocultos em Pompeia.   

Escritos sobre amor, vida real, citações esportivas: inscrições antes invisíveis a olho nu foram identificadas em uma parede localizada no corredor que ligava a área do teatro à Via Stabiana, um dos pontos mais movimentados da cidade antiga.   

Escavada há mais de 230 anos, a parede já era conhecida por conter cerca de 200 grafites. Agora, porém, pesquisadores conseguiram identificar outras 79 inscrições inéditas, ampliando significativamente o conhecimento sobre a vida social, afetiva e cultural dos habitantes de Pompeia antes da erupção do Vesúvio, em 79 d.C.   

Entre os textos revelados está a história de amor de uma mulher chamada Erato, além da descrição de uma cena de combate de gladiadores. Há também ofensas, provocações e mensagens afetuosas, como a inscrição: “Methe, (escrava) de Cominia, de Atella, ama Chrestos em seu coração. Que a Vênus de Pompeia seja propícia a ambos e que vivam sempre em harmonia.” As descobertas fazem parte do projeto Bruits de Couloir (“Vozes do Corredor”), idealizado por Louis Autin e Éloïse Letellier-Taillefer, da Universidade Sorbonne, e Marie-Adeline Le Guennec, da Universidade do Quebec em Montreal, em parceria com o Parque Arqueológico de Pompeia.   

O trabalho foi realizado em duas campanhas, nos anos de 2022 e 2025, e os resultados foram publicados no E-Journal das Escavações de Pompeia.   

A pesquisa utilizou uma abordagem multidisciplinar que combina epigrafia, arqueologia, filologia e humanidades digitais. Um dos principais recursos empregados é o RTI (Reflectance Transformation Imaging), técnica de fotografia computacional que registra uma superfície sob diferentes ângulos de iluminação, permitindo revelar traços apagados pelo tempo.   

Segundo os pesquisadores, 300 inscrições adornam a parede, por onde passaram milhões de visitantes ao longo dos séculos.   

Para o diretor do Parque Arqueológico de Pompeia, Gabriel Zuchtriegel, a tecnologia tem papel essencial na preservação desse patrimônio: “Ela abre novas salas do mundo antigo, e também devemos compartilhar essas salas com o público”.   

“Estamos trabalhando em um projeto para proteger e valorizar as inscrições, que somam mais de 10 mil em Pompeia, um patrimônio imenso. Somente o uso da tecnologia pode garantir um futuro para toda essa memória da vida em Pompeia”, acrescentou.   

O projeto prevê ainda a criação de uma plataforma 3D que integrará fotogrametria, dados RTI e informações epigráficas, facilitando a visualização e o estudo conjunto das inscrições.   

Para proteger o local, o parque planeja cobrir o corredor, preservando o gesso original e oferecendo aos visitantes uma experiência integrada com o apoio das novas tecnologias. (ANSA).