Artes Visuais

Teatro vivo

Judson Dance Theater, lenda da dança nova-iorquina, volta à vida em mostra e programa de performances no MoMA-NY

JUDSON DANCE THEATHER: THE zWORK IS NEVER DONE/ Museum of Modern Art, Nova York/ Até 3/2/19

Nos anos da contracultura, artistas se recusavam a fazer cultura nos espaços tradicionais da arte. Rejeitavam, inclusive, limitar-se a uma só maneira de fazer arte. Ser escultor não se resumia a moldar a matéria. O escultor moldava, filmava, sonorizava e performava a sua escultura. Esse foi o espírito mobilizador do Judson Dance Theater, formado em 1962 a partir de uma serie de workshops envolvendo coreógrafos, artistas visuais, compositores e cineastas, que se encontravam no porão da Judson Memorial Church, uma congregação protestante socialmente engajada, situada no Greenwich Village de Nova York. Transitaram pelos projetos do grupo o artista Andy Warhol, o coreógrafo Merce Cunningham e o artista Robert Rauschenberg, que pode ser flagrado na mostra do MoMA em um filme, dançando twist com a coreógrafa Yvonne Rainer.

A existência efêmera do grupo não relegou seu projeto ao esquecimento. As 16 performances realizadas entre 1962 e 1964, na igreja e em seus arredores, são até hoje referência de pesquisas de ponta em arte e dança contemporânea. Caso do coreógrafo Trajal Harrell, que entre 2009 e 2017 desenvolveu uma série de 8 performances investigando o que teria acontecido se nos anos 1960 os dançarinos do Judson Dance Theather tivessem encontrado a comunidade latina, gay e transgênero dos bailes Vogue, do Harlem.

Mas o fato é que, até que o MoMA-NY tenha trazido à tona os filmes, as fotografias, os objetos de cena, os áudios de entrevistas gravadas e mais um monte de material de arquivo nesta primeira exposição sobre o grupo a ser realizada em uma grande instituição de arte, o Judson Dance Theater permanecia como uma referencia a iniciados. Esse destino não deixa de ser uma grande contradição, posto que o programa da trupe consistia em trazer para o âmago da dança tudo aquilo que as pessoas fazem todos os dias da vida: andar, correr, sentar, levantar, gritar. Ao redefinir os movimentos que poderiam ser considerados dança e desafiar o entendimento tradicional de coreografia, eles expandiram sua arte para a vida comum, englobando até mesmo a dança dançada por “gente comum”. Como a crítica de arte do jornal The Village Voice, num pas de deux improvisado com o dançarino Fred Herko, na laje de um edifício do Lower East Side, filmados por Andy Warhol.

A mostra “The Work is Never Done”, no MoMA, inclui ainda um programa de performances no imenso átrio do museu, trazendo à baila as grandes estrelas do lendário movimento. Performam ao vivo para o grande público do museu monstros da dança nova-iorquina como Yvonne Rainer, Trisha Brown, Deborah Hay, Steve Paxton, David Gordon e Lucinda Childs. Nos intervalos entre performances, é exibido no átrio uma compilação em vídeo de imagens históricas, editada pelo artista Charles Atlas. Luxo total.

O artista é uma fonte

BRUCE NAUMAN: DISAPPEARING ACTS/ MoMA-NY – até 18/2/19/ MoMA-PS1 – até 25/2/19
Reencena a performance de Bruce Nauman Untitled (Wall-Floor Positions)” (Crédito:Martin Seck)

No vídeo “Exercício de dança no perímetro de um quadrado (Dança do quadrado)” (1967-68), o dançarino Bruce Nauman mede com seus passos os limites de um quadrado desenhado no chão de seu estúdio. Na videoinstalação “Green Horses” (1988), o cineasta Bruce Nauman se auto-retrata na lida com seu cavalo, nos campos do Novo México. Na escultura “Templates de neon da metade esquerda de meu corpo, tomados em intervalos de dez polegadas” (1966), o escultor Bruce Nauman dimensiona seu corpo em relação à matéria luminosa de tubos elétricos. Poucos artistas se movem com tão pouco esforço entre a escultura, o filme, o vídeo, a performance, a fotografia e a instalação quanto o norte-americano Bruce Nauman, nascido no estado de Indiana, em 1941. Com 165 trabalhos realizados ao longo de sua carreira de quase 60 anos, “Bruce Nauman: Disappearing Acts” tem a monumentalidade de sua obra.

A exposição divide-se entre o 6º andar do MoMA-NY e a totalidade do PS1, a filial do museu novaiorquino em Queens, dedicada a projetos de cunho mais experimental e menos classificáveis. Este é o lugar que cabe a Nauman. “Nenhum outro artista gerenciou na arte o que Beckett gerenciou na literatura e no teatro”, afirma o crítico Jonathan T. D. Neil, da Art Review.

No MoMA, a mostra começa com uma litografia com a frase: “O verdadeiro artista é uma surpreendente fonte luminosa” e avança em obras de grande escala, incluindo trabalhos espaciais que “devoram” o visitante, absorvendo-o em circuitos fechados de vídeo, ou entre paredes e portas trancadas. No PS1, a organização é temática, evidenciando caminhos e conceitos trilhados em diferentes décadas. Permanece, no entanto, a ideia da fonte. Em Nauman, o corpo do artista e sua visão de mundo são a fonte clara de seu trabalho. PA